Observatório das Metrópoles nas Eleições da Paraíba

Há mais de 25 anos o INCT Observatório das Metrópoles vem trabalhando sobre os desafios metropolitanos colocados ao desenvolvimento nacional através da sua rede de pesquisa, organizada em 18 núcleos regionais. Esta coluna se relaciona com os esforços atuais da nossa rede de reflexão e incidência sobre as Eleições 2024, visando contribuir para um futuro urbano mais justo e sustentável das cidades que compõem as aglomerações urbanas de João Pessoa e Campina Grande.

João Pessoa: Uma cidade planejada pelo e para o povo ou para os lucros?

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Audiência Pública para discussão do Plano Diretor, na CMJP, em 07/03/2023. O povo fora do plenário, enquanto representantes da construção civil ocupam o plenário. | Crédito: Alexandre Sabino

a favor de quem atuam os representantes do povo?

Por Alexandre Sabino do Nascimento* e Andréa L. Porto Sales**
 

"Mas é que lá em cima
Lá na beira da piscina
Olhando os simples mortais
Das alturas fazem escrituras
E não me perguntam se é pouco ou demais".
(Judas – Raul Seixas)

Neste artigo examinaremos os recentes fatos ligados aos processos de planejamento e gestão urbana de João Pessoa, levantando questões sobre o verdadeiro controle e participação nas decisões políticas e de planejamento que moldam a nossa cidade. No contexto de um ano eleitoral (eleições para prefeito e vereadores), é importante fazer um balanço para identificar as batalhas perdidas na defesa de uma cidade mais democrática, menos desigual e injusta social e ambientalmente.

Para tanto, destacamos, especialmente, o processo contraditório de aprovação do novo Plano Diretor da cidade, Lei Complementar nº 164/2024, votado em 21 de dezembro de 2023. A votação recente representa, em nossa análise, um exemplo típico de manobras urbanísticas e jurídicas coordenadas por diversos agentes públicos e privados, que veem a cidade como uma fonte de lucro e não como um espaço para qualidade de vida e de exercício pleno dos direitos constitucionais dos cidadãos.

Este breve balanço visa não apenas lamentar as derrotas passadas no que se refere à política urbana, mas também lançar questões pertinentes acerca do processo, tais como: quem detém o poder em João Pessoa? Quem deveria liderar as reflexões, as propostas, as decisões e o monitoramento da política urbana? Estamos construindo uma cidade para as pessoas ou para o lucro?

Reconhecemos que a participação e controle sociais na política urbana podem parecer batalhas perdidas. No entanto, inspirados na defesa de Slavoj Žižek sobre a luta em prol das "causas perdidas", entendemos que a análise dessas derrotas, durante um ano eleitoral, pode proporcionar uma oportunidade para avaliar os obstáculos à construção de uma democracia substantiva e para seguir em busca de uma cidade mais justa e equitativa. 

Essa luta é necessária pois, como Chico Science expressou em uma de suas canções, "a cidade se apresenta centro das ambições". A afirmação permanece relevante até os dias atuais, uma vez que o processo de produção e apropriação dos espaços urbanos continua sendo alvo de intensas lutas e disputas. Tal dinâmica ocorre apesar dos avanços, nas últimas décadas, no estabelecimento de marcos legais participativos para o planejamento e gestão urbana. Assim, fica evidente que os interesses privados, bem representados nas gestões municipais em todo o Brasil, têm mantido um forte protagonismo na condução da política urbana.

Estão envolvidos nesse processo uma variedade de agentes sociais e capitais, incluindo o setor imobiliário, as empresas de transporte público ávidas por lucros, o setor da construção civil e consultorias que, cada vez mais, têm desempenhado um papel crescente no planejamento urbano, representando uma tendência preocupante de terceirização e privatização desse processo. Fato que não resulta apenas em custos adicionais para os cofres públicos, mas também limita significativamente a participação da sociedade nas decisões relativas ao planejamento e gestão da cidade.

No que diz respeito à gestão de João Pessoa, destacamos o papel de agentes que transitam entre o setor privado e público, especialmente no contexto da construção civil e do mercado imobiliário, ocupando cargos de alto poder e controle, como é o caso do tem ocorrido na Secretaria de Planejamento do município. Este órgão exerce grande influência sobre a produção do espaço urbano, controlando recursos financeiros, patrimônio, informações privilegiadas e direcionando o crescimento da cidade.

Um exemplo dessa influência é o controle do banco de terras públicas de João Pessoa. Segundo dados do Consórcio João Pessoa Sustentável (2021), a cidade possui uma quantidade significativa de lotes vazios, os quais poderiam ser destinados a empreendimentos de habitação de interesse social ou criação de novas Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS). Contudo, a partir de pesquisas realizadas no âmbito da UFPB, verificamos a supressão de 20 ZEIS do atual Plano Diretor. Tal supressão pode desencadear processos de remoções forçadas (reassentamentos e realocações) que representam a negação do Direito à Cidade e à moradia digna, além de ampliar a segregação na cidade.

Essas ações vão de encontro ao Estatuto da Cidade (Lei Nº 10.257/2001). A referida lei preconiza o uso da propriedade urbana em prol do bem coletivo e do equilíbrio ambiental. No entanto, observa-se uma discrepância entre esses princípios e a realidade em João Pessoa, onde a especulação imobiliária e a falta de moradia digna estão em ascensão. Para exemplificar tal contradição, verificamos que o número de lotes vazios em João Pessoa (45.773 lotes) é similar ao número de famílias a procura de moradia na cidade 45 mil famílias, conforme informações da Secretaria Municipal de Habitação (SEMHAB), para o ano de 2021 (CONSÓRCIO JOÃO PESSOA SUSTENTÁVEL, 2021). Diante disso, perguntamos: onde está a prioridade do direito humano e social à moradia na gestão urbana?

Consideramos que esse quadro pode ficar ainda mais drástico, pois o atual crescimento do mercado imobiliário pessoense faz com que novas/antigas incorporadoras e construtoras passem a competir e demandar por mais terras e imóveis na cidade. Um exemplo disso é o apelido dado à cidade de “Miami brasileira” pela segunda maior construtora e incorporadora do Nordeste, o Setai Grupo GP. O grupo vê a cidade como um “Prato cheio para a construção civil”. Tal competição cria uma escassez de terrenos bem localizados e com boa infraestrutura para todo o resto da sociedade, fato que gera uma crescente especulação imobiliária e, consequentemente, uma cidade mais cara para todos/todas. 

Com relação ao crescimento da especulação imobiliária na cidade, de forma “curiosa”, a maioria esmagadora dos vereadores da Câmara Municipal da cidade votaram para a exclusão, no Plano Diretor, de um artigo sobre o controle e uso do solo que orientava as futuras gestões para que evitassem a retenção especulativa de imóvel urbano, fato que resulta na sua subutilização ou não utilização. Para os vereadores, tal dispositivo legal poderia “gerar insegurança para os proprietários”, daí votaram para a retirada do mesmo. Ressaltamos que a exclusão do artigo fere o Art. 2º do Estatuto da Cidade que aponta para o fato de evitar a retenção especulativa de terras deve ser uma das principais diretrizes do Plano Diretor na busca de assegurar a função social da cidade e da propriedade urbana. Diante do exposto cabe a pergunta: a favor de quem atuam os representantes do povo?

Soma-se a isso a falta de transparência e controle social sobre o fundo público (isenções fiscais, descontos na outorga onerosa, doações ou concessões de terras públicas, entre outros, concedidos para “os amigos do rei”). A título de exemplo citamos uma das primeiras ações da atual gestão do município que foi conceder um desconto de 25% sobre a contrapartida financeira paga pelos empreendedores imobiliários. Tal ação favoreceu, principalmente, o setor privado e reduziu recursos do FUNDURB destinados à implementação de projetos de requalificação em áreas precárias da cidade.

Diante do exposto, chamamos a atenção para a necessidade de caminharmos em direção a práticas, realmente, democráticas em busca da construção da cidadania enquanto prática permanente, considerando o seu vínculo indelével com a vida nas cidades. A partir de diálogos e práticas nesse sentido, podemos evitar que o processo de planejamento e gestão urbana e o destino da população sejam pautados “de cima para baixo” do alto das coberturas, em acordos antidemocráticos, sem a nossa participação consciente e informada e, principalmente, negando os direitos do povo em favor de lucros para poucos.

*Prof. do Programa de Pós-Graduação em Geografia – PPGG/UFPB e Pesquisador do INCT – Observatório das Metrópoles – Núcleo Paraíba

**Professora Adjunta II do Departamento de Geociências/ UFPB e Pesquisadora Observatório das Metrópoles – INCT e coordenadora do Projeto de Extensão Pedagogia Urbana

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato PB.

Editado por: Heloisa De Sousa

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