Bahia

Primeira capital do Brasil, Salvador completa 475 anos marcada por desigualdades e lutas

O BdF convidou pessoas que vivem a cidade para contar o que desejam à aniversariante

Brasil de Fato | Salvador (BA) |
Salvador completa 475 anos neste 29 de março. Na foto, vista área do Farol de Itapuã - Manu Dias/GOVBA

A capital da Bahia e primeira capital do Brasil, Salvador completa 475 anos neste 29 de março. A longa história da cidade é marcada por lutas e resistências populares, incluindo a Revolta dos Malês, Revolta dos Búzios e todas as batalhas que culminaram na Independência do Brasil na Bahia, no 2 de Julho de 1823. E mais atualmente, diversos movimentos populares que resultaram em ganhos para população e implementação de políticas públicas na cidade.

Por outro lado, com uma população atual de pouco mais de 2,4 milhões de habitantes, a capital também coleciona altas taxas de pobreza, violência, desemprego e desigualdade. De acordo com recente levantamento do Instituto Cidades Sustentáveis, entre todas as capitais, Salvador tem os piores índices de renda, emprego, segurança, desnutrição infantil, taxa de desocupação, população abaixo da linha da pobreza e jovens vítimas de homicídio.

Para além de tudo isso, Salvador segue sendo conhecida como grande produtora de cultura, cidade berço de importantes artistas e movimentos culturais que marcam a história não só da Bahia, mas de todo o país.

Diante de toda essa complexidade que marca a aniversariante do dia, perguntamos a algumas pessoas que vivenciam Salvador o que desejam a ela nesses 475 anos.


Gabrielle Sodré, da coordenação do Movimento dos Atingidos e Atingidas por Barragens (MAB) / Arquivo pessoal

Gabrielle Sodré, da coordenação do MAB
Ao menos um milhão de pessoas vivem em áreas de risco em Salvador. É a cidade que lidera o ranking das cidades com o maior número de áreas de risco. Então, a cidade que pulsa cultura, baianidade, muito axé, também atravessada por muitas contradições e lacunas do poder público.

A população atingida, que vive em alerta com as chuvas, sem saber se sua casa vai seguir de pé ou até mesmo se continua viva no dia seguinte, já chega a 50% da cidade. Por isso, eu desejo que a gente não tenha que esperar à beira de um colapso social e climático para pensar um plano de adaptação da cidade, para pensar em moradia digna.

Eu desejo que a população soteropolitana possa ter seus direitos garantidos, o direito à segurança, o direito à preservação do que nos resta de meio ambiente, o direito à vida.


Caroline Anice, psicóloga e artista da palavra / Arquivo pessoal

Caroline Anice, psicóloga e artista da palavra
Nesses 475 anos, desejo a Salvador mais respeito para as baianas de acarajé e povo de axé da nossa cidade, na contramão da intolerância religiosa. Desejo a Salvador a juventude preta e periférica de sorriso largo por poder viver o melhor da nossa cultura de resistência, dentro e fora do seu bairro, do Subúrbio ao Centro. Desejo a Salvador a oportunidade de prestigiar mais Bando de Teatro Olodum, Ilê Aiyê, Larissa Luz, Vandal e tantos outros artistas que cantam maravilhosamente a nossa cidade. Viva Salvador!


Valdecir Nascimento, historiadora, ativista do movimento de mulheres negras / Divulgação Instituto Odara

Valdecir Nascimento, historiadora, ativista do movimento de mulheres negras, uma das fundadoras do Instituto Odara
Celebrar 475 anos de Salvador como se essa fosse a cidade maravilhosa é uma falácia. As últimas gestões da prefeitura de Salvador, dirigem Salvador como se estivéssemos no século XIX, século XX, baseadas nos populistas, nos fascistas, na política do pão e circo. O que a ACM Neto e Bruno Reis, atual prefeito de Salvador, fazem com Salvador é violento e é vergonhoso. Salvador é uma cidade muito boa, bonita, maravilhosa para os turistas, não para os que vivem aqui. Para quem vive aqui, Salvador é um padrasto, Salvador é violentíssima, porque as desigualdades são profundas.

A prefeitura, desde o último governo de ACM Neto, está fechando as turmas de EJA. Mais de 20 escolas municipais esse ano vão entrar em reforma agora em março, segundo uma denúncia do Sindicato dos Professores. Não sabemos a última vez que foi houve concurso público para aposentar e substituir professores. E a prefeitura investe no pão e circo.

E você tem uma cidade sem saneamento básico, tem uma cidade que, se chove muito, as encostas caem, continuam caindo e matando pessoas. Você tem uma cidade onde todos os dias se iniciam obras desnecessárias. Vamos fazer um VLT da Lapa para o Itaigara, sem nenhuma necessidade, enquanto os bairros da periferia, os bairros do subúrbio estão se afundando na lama, no lixo, nos ratos e na violência policial do estado. Então, não temos nada a celebrar.

Essa Salvador que vocês veem, que as pessoas de fora veem e se apaixona, é uma Salvador que é vendida, que é maquiada, que usa a população negra para dizer que Salvador é a cidade mágica. Mas a população negra que sabe a situação em que ela vive. É a população que mais vive de “bico” no país. Viver de “bico” significa não ter salário, não ter trabalho, não ter carteira assinada, não ter direitos garantidos. E nessa falácia de empreendedorismo, a população negra está vendendo picolé, vendendo geladinho, vendendo queijinho. Isso não é emprego!

A violência policial se alastra, se alastra, a polícia mata nos bairros de Salvador todos os dias. Não existe uma reunião, não existe uma reflexão por parte da prefeitura no sentido de pensar uma outra política de segurança pública. Pensar uma outra política de educação. E ninguém pode criticar porque Salvador é a “cidade mágica”. Mágica para quem? Para quem vem de fora passar o Carnaval. Para quem vem de fora passar uma festa. Mas para quem vive Salvador, Salvador é violenta, desigual, extremamente racista e com o controle da especulação imobiliária na mão do ex-prefeito de Salvador.

E só se tem notícias sobre a especulação imobiliária quando afeta os ricos e os brancos. Porque a especulação imobiliária em regiões que vai afetar a população negra que é expulsa, que é jogada na rua, ninguém nem fala. A Câmara de Vereadores aprova com os pés nas costas, como a gente diz. E haja impedimentos e haja ausência de política, de ação social para se barrar essa profunda desigualdade.

Nós, mulheres negras, mulheres indígenas, mulheres trans não temos o que celebrar, porque o feminicídio se alastra e todos os dias eles dizem que estão fazendo política para prevenir a violência contra as mulheres. E a gente segue morrendo todos os dias. São barbaridades que acontecem nessa cidade. E só nós que estamos aqui todos os dias é que sabemos o que é viver em Salvador. Então, nós não temos nada a celebrar.


Luciana Silveira, escritora, poeta, ativista / Arquivo pessoal

Luciana Silveira, escritora, poeta, ativista do Movimento de Mulheres Negras; educadora do Grupo de Mulheres do Alto das Pombas (GRUMAP); urbanista e assessora popular do Centro de Estudos e Ação Social (CEAS)
Desejo pra Salvador Reparação Histórica! Pra Cidade mais Negra do Brasil, desejo o despertar racial, união pra luta contra o patriarcado branco brasileiro.

Desejo que todas as Escolas estejam funcionando com corpo docente qualificado no debate racial; implementem a lei 10.639/03; e que a formação racial e política esteja presente entre professores e estudantes do ensino público, pelo Bem Viver.

Desejo ancestralidade, resistência, amor pra nós e nossas comunidades, territórios negros.

O Estado precisa pagar por todos os anos de escravização dos negros neste país, nesta cidade, já que aqui continua se reproduzindo, por traz da máscara democrática, racismos, discriminações e violências contra o povo negro e seus territórios. É preciso agir em todas as instâncias e a reparação histórica vem como necessidade imediata!


Silvio Humberto, vereador por Salvador, militante do movimento negro / Arquivo pessoal

Silvio Humberto, vereador por Salvador, líder da oposição na Câmara, fundador e presidente do Instituto Steve Biko, militante do movimento negro há mais de 30 anos
Espero que nossa história de resistências possa inspirar a nossa população, em particular a população negra, a acreditar em seu poder e passar a limpo a cidade que temos e rumo a cidade que merecemos, visto que Salvador está nas piores posições nos quesitos de população desocupada, desnutrição infantil, PIB per capita, homicídios, dentre outros, segundo levantamento realizado pelo Instituto de Cidades Sustentáveis (ICS).  Salvador é uma capital que não apresenta perspectivas para as atuais e futuras gerações, principalmente em termos de Emprego e Renda, conforme aponta o ICS, 11,15% da população vive abaixo da linha da pobreza.

Há mais de trinta anos no poder, a administração municipal já comprovou sua incapacidade de promover o bem-estar social, e sequer se faz necessário ir nas regiões mais afastadas de Salvador para dar de cara com tantas fragilidades. São Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e Unidades Básica de Saúde (UBSs) sem equipamentos ou quando se tem estão danificados, equipes incompletas de profissionais de saúde; aumento significativo de pessoas na informalidade e mendicância.

Atenção Psicossocial
Com quase três milhões de habitantes e devendo, segundo resolução do Ministério da Saúde, apresentar um Centro de Atenção Psicossocial de Álcool e Drogas (Caps AD) a cada duzentos mil habitantes, o município só dispõe de 3 unidades, o que aponta o descaso com a dependência química que acomete pessoas.  

Transporte público
Salvador possui a tarifa de transporte mais cara do Nordeste, o que expõe a insensibilidade com grande parte da população empobrecida que acaba por ter que se deslocar a pé por longas distâncias em detrimento de uma isenção de ISS às empresas de ônibus, em 2019, concedida pelo prefeito à época ACM Neto (DEM).   

Creches
Outro problema gritante e que ao longo desses anos não foi solucionado é o déficit de creches no município, e o que a Prefeitura faz é terceirizar a responsabilidade para as mães, ao pagar um valor para que matriculem seus filhos em creches sem infraestrutura, quando deveria construir creches.  

Alagamentos
Histórica também é a ineficiência com a rede de drenagem. Salvador possui Plano Municipal de Manejo de Águas Pluviais e Drenagem mas a Prefeitura de Salvador mal o utiliza, colocando em xeque o ir e vir de comunidades da Cidade Baixa e Subúrbio Ferroviário, que são obrigadas a conviverem com alagamentos, enchentes e deslizamentos de terra.

Logo, o meu desejo é que a população tenha consciência da performance de quem comanda Salvador e manifeste na urna o seu a mudança por uma cidade na qual a vida com dignidade esteja na centralidade das políticas públicas, porque o que temos assistido é a entrega do mínimo com o achismo de que é o máximo.

Fonte: BdF Bahia

Edição: Alfredo Portugal