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Em Cuba, 3º Colóquio Pátria reúne comunicadores de esquerda de todo o mundo para discutir o futuro da comunicação popular

Jornalistas e ativistas se reuniram em Havana para discutir os desafios atuais da comunicação

Brasil de Fato | Havana (Cuba) |

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Marco Fernandes, pesquisador e ativista brasileiro do Movimento dos Sem Terra, fala no Colóquio Pátria - Coloquio Internacional Patria

"A Revolução deve ser comunicada. Se Martí vivesse na Cuba de hoje, ele seria a força motriz por trás deste Colóquio", afirmou Ronquillo Bello, presidente do União dos Jornalistas Cubanos, diante de um auditório lotado com mais de 200 participantes na abertura do 3º Colóquio Internacional Pátria.  

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Este é o terceiro ano consecutivo em que o evento é organizado em Havana. Um encontro que reúne jornalistas, acadêmicos e influenciadores com o objetivo de debater e trocar experiências em comunicação progressista e de esquerda. Ao longo de vários dias, são discutidos diferentes tópicos, como inteligência artificial, os desafios legais, econômicos e narrativos do ativismo nas redes do Sul Global. A atualidade e as possibilidades de uma nova ordem internacional de informação e comunicação também são abordadas.

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"Os propósitos deste evento só serão cumpridos quando os humildes e abandonados do mundo se levantarem para defender seus projetos de justiça frente a toda manipulação", conclui Bello em seu discurso de abertura.

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O nome do evento vem do famoso jornal Patria, fundado em 1892 pelo lutador pela independência cubana José Martí como órgão de divulgação das ideias do Partido Revolucionário Cubano (PRC), que lutou pela independência de Cuba e Porto Rico do domínio espanhol. 

Este ano, a reunião contou com a participação dos canais de televisão Telesur, o pan-arabista Al Mayadeen e o canal on-line La Iguana TV. Outros participantes incluíram importantes revistas teóricas de esquerda, como a New Left Review, Monthly Review e Jacobin, o Instituto Tricontinental de Pesquisa Social e os portais de notícias Dongsheng News e Opera Mundi

Durante a conferência, foram prestadas homenagens aos jornalistas Farah Omar e Rabih Al-Meemari, da Al Mayadeen, dois dos mais de 134 jornalistas assassinados pelo Estado israelense na Palestina. 

O primeiro Colóquio foi realizado em 2022, no aniversário de 130 anos da fundação do jornal. Em suas três edições o evento vem mudando sua modalidade. Esta edição tem uma perspectiva muito mais ampla e plural em sua convocação, em relação às edições anteriores. 

As diferentes palestras apresentadas foram abertas ao público e podem ser vistas no YouTube.   

Uma plataforma para articular as forças de esquerda 

Pedro Jorge Velázquez, jovem comunicador cubano, explica ao Brasil de Fato que "o que mais interessa à Cuba é a articulação dessas forças de esquerda, da comunicação de esquerda, que estão espalhadas pelo continente e muitas vezes não se tocam". 

Há pouco mais de três anos, Velázquez tem sido a força motriz por trás do El Necio, um dos principais projetos de comunicação independente de Cuba. Concebido como espaço para ativismo político e comunicação em redes sociais, El Necio nasceu com a recente expansão dos serviços de Internet na ilha, que conta com dados móveis há apenas cinco anos.  

"Não creio que Cuba queira lucrar com um evento como esse. Ou que exista para defender a posição de Cuba no mundo ou algo do gênero", diz ele. 

Para o jovem jornalista, o evento é espaço para aprendizado mútuo e articulação de experiências de comunicação. Segundo ele, é a partir dessa mesma articulação que "a esquerda e os progressistas poderiam fortalecer suas próprias agendas nas lutas populares e causas justas".   

"Acredito que esse evento significa para Cuba dar continuidade à tradição internacionalista fundada pela revolução cubana". 


Cartaz com Ernesto "Che" Guevara e Fidel Castro / Coloquio Internacional Patria

Tomar posição 

"A comunicação não é algo isolado da forma econômica, social e ideológica de produção. A comunicação também é uma expressão da luta de classes. É por isso que, por um lado, se forma a mídia corporativa, mas também, por outro lado, a mídia militante como parte da luta pelo senso comum", reflete a jornalista e educadora popular Alina Duarte, que faz parte do projeto de comunicação De Raíz, ao Brasil de Fato.  

De Raíz é uma das várias iniciativas de comunicação que visam contar a realidade do México e do continente diante da lógica das corporações de mídia. Duarte se sente parte de um amplo ecossistema formado por muitos projetos de comunicação que foram criados no país nos últimos anos.   

Há seis anos, a chegada do governo progressista de Andrés Manuel Lopez Obrador provocou uma série de mudanças que reordenaram o mapa político e social do México. Duarte afirma que o surgimento de projetos de comunicação alternativa é parte essencial das transformações que vêm ocorrendo no país. Entretanto, mesmo sendo militante do projeto político liderado por Andrés Manuel López Obrador, a jovem jornalista é muito enfática quando se trata de delinear quais devem ser as tarefas dos projetos de comunicação. 

"Muitas vezes não se tem a plena noção de que não precisamos defender o Estado ou um governo. A mídia independente hoje temos que abraçar as causas. Muitas vezes acho que não se entende que não se trata de abraçar partidos ou abraçar governos. Mas abraçar a justiça social, abraçar as lutas feministas, abraçar as conquistas sociais que historicamente custaram muitas vidas e muito trabalho, muitas lágrimas, suor e sangue. Isso às vezes é dissipado pelo imediatismo do que significam os processos políticos". 

Dessa forma, para o jovem ativista, a mídia, além de cumprir um papel estritamente informativo, tem o enorme desafio de fornecer ferramentas pedagógicas para a batalha de ideias.  

“Acho que há uma urgência. Há uma urgência direta em abraçar essas causas populares abaixo e à esquerda. E acho que ainda há muito a ser disputado nesse terreno. Mas, acima de tudo, há muita consciência a ser desenvolvida”.

“Explicar desde a raiz o que queremos transformar. Não se trata apenas de descrever a realidade, mas de tentar transformá-la, e a mídia é uma grande trincheira para isso”.


Apresentação de prêmios e distinções no colóquio Patria / Coloquio Internacional Patria

Uma luta de todo o povo 

Orlenys Ortiz se define como uma "ativista de comunicação internacionalista". Atualmente, ela é uma das comunicadoras de mídia social mais reconhecidas na Venezuela. Ela explica que seu ativismo de comunicação surgiu "em autodefesa". Foi na época das chamadas "guarimbas", uma série de protestos extremamente violentos realizados por parte da oposição, que levou até mesmo ao assassinato de várias pessoas por serem partidárias do chavismo. Orlenys diz que foi nessa época que ela sentiu "a necessidade de sair e contar o que estava vivendo" diante das mentiras propagadas pelas corporações de mídia. 

"O cidadão, a pessoa que vive em uma comunidade, também pode ser um comunicador. Essas coisas não são só para quem estudou jornalismo, nem para quem se identifica como comunicador popular", disse ao Brasil de Fato

Orlenys ressalta que a maioria das organizações sociais de base na Venezuela, assim como os conselhos comunitários, são formados por mulheres humildes das comunidades. Mulheres que, no dia a dia, organizam respostas para as diferentes necessidades que suas comunidades enfrentam. Para a jovem ativista, um dos grandes desafios no combate às mentiras da direita é incluir essas pessoas na construção de novas narrativas sobre o que está acontecendo no país. 

Convencida da necessidade de criar redes de comunicação de baixo para cima, há anos ela vem promovendo vários seminários nos quais oferece às comunidades as ferramentas para que se tornem cronistas de sua própria realidade. 

"As pessoas também podem simplesmente desempenhar o papel de comunicar o que estão fazendo. Essa é a verdadeira forma de influência. Nas comunidades, essa pessoa pode ser um comunicador de sua própria realidade. 

Com muita insistência, Orlenys ressalta que o desafio é "pensar a longo prazo" e "evitar o imediatismo de que a cada meia hora há uma notícia diferente para contar e o resto não importa".  Essa matriz de produção de notícias, segundo ele, faz com que percamos de vista o que é "realmente importante". Pelo contrário, ele propõe assumir a dimensão histórica do que está sendo vivido e pelo que se está lutando. 

Construindo narrativas que estarão disponíveis daqui a 10 anos, 15 anos ou 20 anos. É quando nos daremos conta de que o que estamos vivendo agora é história.

"A história que estamos escrevendo agora será vista daqui a alguns anos com esse componente e essa perspectiva histórica. Todos nós fazemos parte disso e é fundamental assumir o papel de liderança que as comunidades têm", afirma.     

 

Edição: Rodrigo Durão Coelho