PROTESTOS

Estudantes pró-Palestina ocupam Hamilton Hall após Columbia negar desinvestimento em Israel

Alunos da universidade em Nova Iorque tomaram prédio conhecido por mobilizações estudantis contra racismo

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Faixa escrita ‘Hind’s Hall’, nome reclamado pelos manifestantes em vez de Hamilton Hall, na Columbia - Twitter/Moon Rise

No aniversário de 56 anos da mobilização estudantil contra o racismo no Hamilton Hall, na Universidade de Columbia, realizada em 30 de abril de 1968, os estudantes em mobilização pró-Palestina na universidade norte-americana ocuparam o edifício durante a madrugada desta terça-feira (30/04) contra a posição da faculdade em desinvestir em Israel. 

A informação foi confirmada pelo coletivo Estudantes de Columbia pela Justiça na Palestina, por meio das redes sociais: “Dezenas de estudantes da Universidade de Columbia ocupam Hamilton Hall, local da ocupação de 1968, em protesto contra a cumplicidade de Columbia no genocídio [em Gaza]”. 

“Tomar um prédio é um risco pequeno comparado à resistência diária dos palestinos em Gaza. À medida que nos aproximamos da invasão planejada por Israel de Rafah, que agora que agora abriga mais de 1,5 milhão de palestinos deslocados, é mais urgente do que nunca combater as contribuições da Columbia para o contínuo assassinato, mutilação e fome forçada de milhões de palestinos”, declarou o comunicado do coletivo, em parceria com o Desinvestimento no Apartheid da Universidade de Columbia (CUAD, na siga em inglês). 

Os estudantes ainda argumentaram que ocupam o prédio e protestam contra o financiamento de Israel porque “não podem ficar parados enquanto suas mensalidades e trabalho apoiam o genocídio”, em especial após saber que “nenhuma universidade permanece em Gaza devido às bombas financiadas pelos EUA”. 

Além de ocupar o edifício, um grupo autônomo de estudantes reclamou o espaço de Hamilton Hall, batizado em referência ao militar norte-americano Alexander Hamilton , como ‘Hind’s Hall’, em homenagem a Hind Rajab, uma menina de seis anos em Gaza que após duas semanas desaparecida foi encontrada morta pela ofensiva israelense. “Continuamos solidários com a libertação palestina”, declararam os estudantes ao anunciar o novo nome. 

A ocupação de resistência ainda levou o coletivo pela Palestina e o CUAD a emitirem um novo documento de exigências para a universidade, instando que pretendem permanecer no Hind’s Hall até que a Columbia atenda suas três condições: desinvestimento, transparência financeira e anistia aos estudantes suspensos pela faculdade por não desistirem do protesto no campus. 

“Essa universidade coloca seus alunos em perigo repetidamente ao instituir um estado policial com postos de controle de estilo militar, reprimindo e isolando os estudantes no campus, e convocando policiais armados para as maiores prisões em massa no campus desde 1968″, denuncia o documento ao afirmar que a faculdade se recusa a possibilitar negociações ao usar a repressão policial. 

O edifício da universidade em Nova Iorque apresenta um histórico de ocupações estudantis desde 1907, quando foi inaugurado. Ao longo das décadas, discentes ativistas marcharam contra guerras e em memória ao ativista Malcolm X. 

Com a extensão dos acampamentos contra a guerra de Israel em Gaza e o financiamento militar dos Estados Unidos ao conflito, não é a primeira vez que estudantes de Columbia ocupam o Hamilton Hall pedindo pelo desinvestimento. 

Em 1985, os estudantes anti-apartheid tiveram vitória ao exigir que a Columbia parasse de fazer negócios com empresas da África do Sul. Após o fim da ocupação, o Conselho Administrativo votou a favor de vender todas as ações da universidade que tinham contratos com firmas sul-africanas. 

‘Columbia não vai desinvestir em Israel’ 

Em comunicado emitido na última segunda-feira (29/04), a reitoria da Universidade de Columbia, sob comando de Minouche Shafik, declarou que a faculdade não vai desinvestir em Israel, mas se ofereceu a “fazer investimentos na saúde e na educação em Gaza, incluindo o apoio ao desenvolvimento da primeira infância e o apoio a estudantes deslocados”. 

Em iminente confronto de interesses com os estudantes que protestam em solidariedade à Palestina, Columbia passou a suspender alunos que resistiram em deixar o campus, argumentando que defende a liberdade de expressão, mas se preocupa com a segurança e bem-estar da comunidade judaica nas suas instalações. 

Assim, impôs restrições de “tempo, local e forma” aos protestos e declarou que “não tem intenção de suprimir o discurso ou o direito ao protesto pacífico”, em contraste com as centenas de alunos reprimidos pela violência policial, detidos e presos durante os mais de 10 dias de mobilização. 

Enquanto a reitoria da Columbia se recusa a desinvestir em Israel, a organização estudantil da Universidade de Barnard (SGA), principal faculdade dedicada à liderança intelectual de mulheres, e que é financiada pelos recursos da Columbia, realizou uma pesquisa com os alunos sobre o apoio ao desinvestimento a Israel, resultando no voto majoritário para tal. 

“O processo de votação deste ano incluiu um referendo sobre o desinvestimento da economia israelense, bem como o cancelamento da abertura do Centro Global de Tel Aviv e a eliminação progressiva do Programa de Dupla Graduação entre a Universidade de Columbia e a Universidade de Tel Aviv. Dos 1.676 eleitores, 1.591 optaram por participar do referendo adicional. Estes resultados seguem-se a uma eleição paralela na Universidade de  Columbia, que também aprovou por esmagadora maioria o referendo de desinvestimento”, informou o jornal estudantil da Barnard, o Bwog.

Apesar de não garantir ações da universidade, o referendo “reflete os sentimentos dos estudantes em relação ao desinvestimento”. 

Manifestações universitárias se espalham pelos EUA e no mundo

Apesar da repressão policial e resistência da Columbia em ouvir os estudantes, protestos similares continuam se espalhando por outras faculdades dos Estados Unidos e do mundo. 

Solicitando um cessar-fogo em Gaza, estudantes da Universidade McGill, no Canadá, iniciaram nesta segunda-feira um acampamento de protesto similar ao na Columbia, composto inicialmente por cerca de 20 tendas, mas que em menos de 24 horas duplicou a sua capacidade.

Centenas de estudantes da instituição acadêmica protestaram com cartazes, bandeiras palestinas e o lenço keffiyeh, símbolo com o qual os países do mundo expressam a sua solidariedade para com a Faixa de Gaza.

Segundo a mídia local, os protestantes exigem que os centros de estudos “se livrem dos fundos envolvidos no Estado Sionista” e que, ao mesmo tempo, desapareçam os vínculos com as instituições acadêmicas de Israel.

As manifestações ocorrem depois da “Greve de Fome McGill pela Palestina e Estudantes pela Justiça na Palestina”, em 18 de abril, ter tornado públicos dados listando “50 empresas nas quais a Universidade McGill investe” e que, segundo as organizações reclamantes “são cúmplices no apoio ao regime de apartheid de Israel”.

Já na América Latina, os estudantes da Federação Venezuelana de Estudantes Universitários (Fveu) realizaram nesta segunda-feira uma manifestação contra o massacre que Israel realiza contra o povo palestino e em repúdio à posição cúmplice dos EUA. 

Os estudantes da Universidade Bolivariana da Venezuela também reuniram-se para expressar a sua condenação ao massacre indiscriminado de Israel contra o povo palestino.

Na contramão da Columbia e outras universidades norte-americanas que boicotam os protestos em solidariedade à Palestina, a Fveu condenou a ofensiva israelense por meio de uma declaração do seu presidente, Dave Olivares. 

Outro local com protesto semelhante é a emblemática universidade de Ciência Política na França, SciencePo Paris, iniciado na última quarta-feira (24/04).  Também marcada por violência policial contra os estudantes, que se mantêm em resistência, a mobilização foi alvo de críticas do ex-primeiro-ministro francês Manuel Valls. 

Em declaração ao programa Cnews, na segunda-feira, Valls foi questionado sobre o acampamento de protesto pró-Palestina e sugeriu que o “controle seja recuperado” com a suspensão dos alunos participantes. Valls também afirmou que a universidade deve ser colocada “sob supervisão” do Ministério de Educação da França.