Congresso Nacional

‘Pacote da Destruição’ avança mesmo depois da tragédia no Sul

Oito de 25 projetos de lei contrários à proteção ambiental seguiram em tramitação durante enchentes no RS

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Operação de Fiscalização na Floresta Nacional do Jamanxim(PA) | Crédito: Vinícius Mendonça/Ibama/2017

Com alarde, os congressistas aprovaram, em 9 de maio, mudanças no Orçamento e na Lei de Diretrizes Orçamentárias para facilitar a liberação de recursos para ajudar o estado gaúcho. Mas os estragos que mobilizam milhões de brasileiros numa corrente de solidariedade não sensibilizaram, em particular, a bancada ruralista e conservadora. Em resposta à maior tragédia ambiental do sul do País, esses parlamentares fizeram avançar o chamado “Pacote da Destruição”. Na surdina, 8 de 25 projetos antiambientais tramitaram no Congresso nos dias em que o Brasil, atônito, via o Rio Grande do Sul ser devorado pelas águas.

Em 21 de abril, a MetSul Metereologia emitiu os primeiros alertas de chuva intensa no Rio Grande do Sul. A previsão indicava acumulados de até 200 milímetros entre o fim de abril e o começo de maio. Dois dias antes, os deputados federais da  Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC) aprovaram o PL 10.273/2018,  de autoria do deputado Jerônimo Goergen (PP/RS). Esse projeto de lei, na prática, exclui o imposto de atividades poluidoras, como é o caso da mineração. 

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A Taxa de Controle e Fiscalização do Ibama (TCFA) existe desde 2000 e foi criada para destinar recursos para as equipes do Ibama que vão a campo. É, assim, uma pedra no sapato dos congressistas contrários às questões ambientais. A estimativa é que o Ibama perderá pelo menos 25% do seu orçamento caso o PL 10.273 seja aprovado. No ano passado, o governo arrecadou 700 milhões de reais com a TCFA. O deputado Nilton Tatto (PT-SP) e outros parlamentares apresentaram recurso, cujo prazo vencia dia 8 de maio. Cabe ao plenário da Câmara decidir se vai examinar a matéria.

Em 22 de abril, o PL 3087/2022 avançou para a Comissão de Meio Ambiente no Senado Federal. O projeto de lei reduz o Parque Nacional Montanhas do Tumucumaque, uma unidade de conservação localizada nos Estados do Amapá e Pará. O desmembramento previsto no projeto, que teve relatoria de um senador do União Brasil, o paraense Sergio Moro (ad hoc, em substituição ao colega Plínio Valério, do PSDB do Amazonas), vai facilitar a vida dos garimpeiros ilegais, que pressionam o território protegido.

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CCJ realiza reunião deliberativa com 19 itens; entre eles, o PL 3.334/2023 / Roque de Sá/Agência Senado

No fim de março, o PL 364/2019, que elimina a proteção dos campos nativos da mata atlântica, foi aprovado na CCJC. Relatado pelo deputado Lucas Redecker (PSDB/RS), o PL teve seu prazo de recurso vencido no dia 23 de abril, em meio à inundação do Rio do Grande do Sul. A deputada Erika Hilton (Psol/SP) apresentou recurso, que também depende da boa vontade da Mesa Diretora liderada pelo agropecuarista Arthur Lira (PP/AL). Caso avance no Congresso, esse texto deixa desprotegida toda vegetação “não florestal”, que poderá ser ocupada por atividades como agricultura, pastagem e mineração.

Esses são apenas alguns dos projetos antiambientais mais polêmicos que tramitaram nos últimos dias. “Todos os dias, em semanas de trabalho no Congresso, as comissões têm apresentado pautas com retrocesso [ambiental], seja na Câmara, seja no Senado”, comenta a coordenadora de políticas públicas do Observatório do Clima, Suely Araújo. Em particular, o PL 364 tramitava há anos e tratava apenas da mata atlântica, mas o texto aprovado sequer menciona o bioma. Ou seja, tira a proteção de todas as vegetações não caracterizadas como florestas, mesmo se não tiver ocorrido desmatamento.

“Se provar que os seus bois passearam , mesmo que você não tenha desmatado, vai passar a ser caracterizado como área rural consolidada. Em termos de ataque à vegetação nativa nos diferentes biomas, é um crime histórico”, destaca Suely. A coordenadora do Observatório do Clima alerta que, se o PL for aprovado, uma parte relevante do pantanal passaria a ser qualificada como área rural consolidada, portanto sujeita a menos proteção por parte da legislação. Caso aprovado, o PL 364 pode comprometer mais de 50 milhões de hectares de vegetação em todo o País. 

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Caos climático


Na foto acima, da esquerda pra direita, seca no lago Puraquequara (AM) em outubro de 2023, e enchentes no Rio Grande do sul em maio de 2024 / Alberto César Araújo/ Amazônia Real e Gustavo Mansur/ Palácio Piratini

Enquanto o Brasil assiste ao caos climático, que vai da seca histórica de 2023 na Amazônia à cheia recorde que afeta agora 428 das 497 cidades do Rio Grande do Sul, o Congresso antiambiental e contra povos indígenas segue “passando a boiada”. No ano passado, foram promulgadas as Leis 14.701, originada do PL do marco temporal e cria uma instabilidade jurídica sobre as demarcações de terras, e a 14.785, apelidada de PL do Veneno, que libera o uso dos agrotóxicos. 

Neste ano, o Congresso continua avançando com o “Pacote da Destruição”. O Observatório do Clima levantou a existência de 25 projetos de leis e 3 propostas de emendas à Constituição atualmente em tramitação. Alguns estão parados desde legislaturas passadas, enquanto outros seguem sendo discutidos. Todos têm alta probabilidade de avanço imediato, que a pauta ambiental se tornou uma espécie de moeda de troca entre a bancada ruralista e conservadora com o Executivo.

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Senadores da CCJ pautam a redução da Reserva Legal em áreas de florestas da Amazônia Legal, em áreas protegidas de domínio público / Roque de Sá/Agência Senado

O PL 3.334/2023, que autoriza que imóveis rurais localizados em áreas de floresta na Amazônia Legal possam reduzir a cobertura mínima de vegetação de 80% para 50%, deveria ser votado na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado nesta semana, mas acabou saindo da pauta por conta da licença médica do relator do projeto, o senador ruralista pelo Acre, Márcio Bittar (União Brasil). A previsão é que o PL retorne à pauta na próxima semana. 

De acordo com Suely Araújo, o PL 3.334 faz parte de um conjunto de propostas que alteram o Código Florestal. “Sempre tem projeto alterando o Código Florestal. Ele reduz a reserva legal nos municípios que têm áreas protegidas. Isso é uma demanda frequente da bancada ruralista”, revela. 

“Tapa na cara”


Focos de calor próximos à área com registro de desmatamento do Prodes, em Nova Maringá (MT) / Crhistian Braga/Greenpeace

Para o geógrafo e ecólogo Carlos Durigan, todo o “Pacote da Destruição” traz elementos de extrema gravidade para a preservação ambiental. Porém, ele considera os PLs 3.334 e o 364 como os que devem gerar um grande impacto nos esforços de contenção do desmatamento. Isso porque reduzir reservas legais na Amazônia acenderá um sinal verde para o avanço do desmatamento. 

“Irá elevar o grau de ameaças a ambientes únicos de vegetação de campos e savanas naturais, lares de espécies endêmicas e que também possuem papel relevante na manutenção de serviços ecossistêmicos”, ressalta. Em ambos os casos, com a aprovação desses PLs, lembra Durigan, o Brasil estaria ignorando seus compromissos em acordos internacionais e atuando na contramão dos esforços globais para contenção de emissões de gases de efeito estufa.

O geógrafo e ecólogo classifica o “Pacote da Destruição” como um tapa na cara da sociedade brasileira. “Inacreditável que diante de um cenário de grandes desafios relacionados à manutenção da qualidade de vida e ainda da proteção do nosso patrimônio natural nacional frente a tanta degradação, ainda tenhamos que enfrentar tantos atos institucionalizados pelo Congresso que certamente aumentam expressivamente problemas que vivemos”, pontua.

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Efeitos na prática


Ibama combate desmatamento ilegal na região de Castelo dos Sonhos, em Altamira (PA) / Felipe Werneck/Ibama

Para o diretor do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), Henrique Pereira, os projetos do “Pacote da Destruição” estão diretamente associados às políticas ambientais de comando e controle, especialmente àquelas associadas à Lei de Proteção da Vegetação Nativa (LPVN) de 2012, resultante da revisão do Código Florestal de 1965, como a reserva legal e com instrumentos da Política Nacional de Meio Ambiente de 1981 como o Zoneamento Econômico Ecológico e o Licenciamento.

“Pautas que vêm sendo perseguidas pela bancada ruralista, principalmente, e buscam a maior ‘flexibilização’ desses instrumentos. A atual geração de PLs anti-ambientalistas procura emplacar propostas menos radicais como a extinção desses instrumentos por completo, propondo como alternativa, sua ampla flexibilização”, descreve.

Henrique Pereira aponta também os impactos que esses projetos podem trazer ao meio ambiente e aos ecossistemas, caso aprovados. “Cada uma dessas propostas resulta em impactos específicos. O PL 3.223 é uma ‘radicalização’ de previsão semelhante presente no artigo 12 da LPVN e provocaria um desmatamento legal extra que a redução da área de reserva legal para 50%, na Amazônia Legal deixaria de ser aplicada apenas para os casos de recomposição, ou seja, quando as áreas de reserva legal tenham sido desmatadas”, explica. 

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o PL 10.273, aponta o diretor do Inpa, trata de tema antigo e de disputa entre os Estados e a União (leia-se Ibama) que é o caso da cobrança da TCFA que financia todo o sistema ambiental. “O certo seria aproveitar essa reforma para atualizar, tornar mais justa do ponto de vista distributivo e aperfeiçoar a gestão e a governança desse instrumento, para que deixe de ser uma mera cobrança e passe a gerar dados para o sistema nacional de informações ambientais que, embora previsto em lei, nunca chegou a ser implementado”, analisa.

Para Henrique Pereira, a  proposta do conjunto do “Pacote da Destruição” com maior impacto negativo é o PL 364. “É a que fere de modo mais grave diversos princípios ecológicos ao desobrigar o proprietário ou o possuidor rural de manter a reserva legal e as áreas de preservação permanente em fitofisionomias não florestais, em diferentes biomas”, adverte. O diretor do Inpa lembra que ao negar a proteção a esse tipo de vegetação nativa, o legislador está condenando à extinção incontáveis espécies endêmicas da flora, com efeito de extinção em cascata e à destruição de todos os serviços ecossistêmicos providos por esses sistemas. Na prática, causarão o efeito oposto aos dos que querem frear o aquecimento global.

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Congresso inimigo do clima

O secretário-executivo do Observatório do Clima, Márcio Astrini, relembra os últimos quatro anos da gestão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) como um período de destruição da agenda ambiental. “Não que essa agenda não fosse atacada antes, mas no governo Bolsonaro ela sofreu de forma planejada. Toda a tentativa de enfraquecimento da legislação, como o das agências de fiscalização, de tudo aquilo que protege o meio ambiente no Brasil, foi feito de forma planejada”, afirma.

Astrini disse acreditar que, ao fim do governo Bolsonaro, as coisas caminhariam para um “eixo de normalidade”, o que não está acontecendo. “O que nós temos é um governo Bolsonaro que se foi, mas está sendo substituído pelo Congresso. É uma verdadeira máquina de destruição ambiental. Se a gente tivesse que nomear o principal inimigo do meio ambiente e da agenda de clima, sem dúvida seria o Congresso Nacional”, dispara.

O ambientalista sustenta o seu ponto de vista com base na série de PLs em pauta que acaba com qualquer espécie de proteção ao meio ambiente, à fauna, à flora, e às florestas. “Parece que a função do Congresso hoje é destruir o meio ambiente. São assim, dezenas, infelizmente, essa é a contagem, dezenas de projetos de lei. E se você pegar nessa lista, se tem algum bom para o meio ambiente, algo que proteja mais, mesmo sendo um pedaço de mata, algum local, algum rio, você não encontra. A gente só encontra problema, a gente só encontra retrocessos”, lamenta.

Segundo Astrini, o “Pacote da Destruição” vai na contramão do mundo, e ele lembra que o País vai hospedar a Conferência do Clima. “Nós vamos ser o centro do mundo daqui um ano e alguns meses, em novembro de 2025. É aqui no Brasil que mais de 190 países vão se reunir para colocar seus acordos em cima da mesa, suas promessas, para debater a agenda de clima. O Brasil se coloca como protagonista, mas nós temos um Congresso que está dizendo não para tudo isso. É um Congresso que trabalha pela destruição, é um Congresso que trabalha pela poluição, é um Congresso que trabalha para aumentar o problema da crise climática”, diz.

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Vozes contrárias no Congresso


Deputado Nilto Tatto (PT-SP) / Vinicius Loures/Câmara dos Deputados

Deter os avanços das pautas antiambientais na Câmara e no Senado é uma tarefa hercúlea para 179 deputados e 14 senadores, a parcela que se opõe à bancada ruralista. No Congresso, quem coordena a Frente Parlamentar Ambientalista é o deputado Nilto Tatto (PT-SP), que ressalta a preocupação governamental com a agenda ambiental. O parlamentar lembra o trabalho de restabelecimento de órgãos como  Ministério do Meio Ambiente, Ibama e ICMBio, Serviço Florestal, a criação do Ministério do Desenvolvimento Agrário, o Ministério dos Povos Indígenas, o programa de Transformação Ecológica coordenado pelo Ministério da Fazenda, como parte das ações governamentais para levar a agenda ambiental para o centro das decisões políticas. 

Para Tatto, o que há hoje no Congresso, em especial na Câmara dos Deputados, é uma tentativa de “enquadrar” o próprio Executivo para não tocar adiante a agenda ambiental: “Que é o compromisso do Brasil em especial no acordo do clima, de redução do desmatamento, uma vez que o desmatamento representa boa parte das emissões que o Brasil emite de gás de efeito estufa que provoca o aquecimento global, e aí a gente vem assistindo o avanço de determinadas propostas que representam o retrocesso do ponto de vista da legislação ambiental, das conquistas do ponto de vista da legislação ambiental e da própria Constituição, por isso que a gente viu a ser aprovado o marco temporal e o projeto dos agrotóxicos”, lembra Tatto.

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O coordenador da Frente Parlamentar Ambientalista aponta o perigo do PL 510/2021, aprovado na Câmara e que está no Senado, que trata sobre a questão do licenciamento ambiental e da regularização fundiária. “Vai legalizar terras públicas ocupadas pelo latifúndio, em especial na Amazônia”, alerta. Para Tatto, o Congresso, em especial o Centrão, quer que o governo federal não leve à frente os compromissos tanto nos acordos internacionais, os quais o Brasil é signatário, bem como aquilo previsto na própria Constituição, e o “Pacote da Destruição” tem essa finalidade.

“O povo brasileiro tem na memória o significado que foi o desmonte de todo o sistema nacional de meio ambiente no governo anterior, que provocou o aumento de desmatamento. Ficou muito ruim para a imagem do País. Neste ano, o Brasil preside o G20 e no ano que vem vai organizar a Conferência do Clima em Belém. O Brasil precisa mostrar para o mundo todo que também vai fazer a sua lição de casa e por isso não tem sentido avançar e aprovar projetos de leis que vão contra esta agenda que é ruim para o Brasil e a agenda que eu digo para vocês novamente é inconstitucional, inclusive”, finaliza.


Na foto acima, Floresta Nacional do Jamanxim(PA), onde é realizada uma Operação de Fiscalização / Vinícius Mendonça/Ibama

Conteúdo originalmente publicado em: Amazônia Real

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