O filósofo alemão, Friedrich Nietzsche, em uma obra sobre a utilidade e os inconvenientes da História, afirmou que o excesso de História pode adoecer uma sociedade. Se Nietzsche fez essa afirmação da sua perspectiva eurocêntrica, o que se poderia dizer do excesso de História num país como o Brasil e, mais especificamente, numa província como o Paraná?
Um passado marcado pela invasão e roubo de terras, pelo genocídio de negros e indígenas, pelo colonialismo, escravismo, integralismo e tantos outros ismos que constroem o maior de todos os ismos, o capitalismo, só pode ser um passado que adoece profundamente o corpo e a alma de qualquer sociedade, e o que vemos hoje, como ontem, mas especialmente hoje, com a vitória do projeto de privatização das escolas públicas do Estado, são os sintomas mais evidentes deste adoecimento.
Se o excesso de História adoece, a sua carência mata ou, no mínimo, retira do povo, pedaço por pedaço, a sua dignidade.
A ideologia liberal historicamente optou por essa segunda alternativa, estabelecendo sempre um corte entre um passado distante, supostamente feito de pessoas grosseiras e ignorantes, e um presente desconectado, cujos olhos se voltam sempre para um futuro de progresso e evolução.
Desse corte, resulta que nos pegamos sempre surpreendidos pela vitória da ganância e do egoísmo, e um Estado que sempre foi o governo de patrões, por patrões e para os patrões, aparece como uma novidade aterrorizadora, que nos faz exclamar frases como “nunca antes…” ou “pelo amor de Deus, a que ponto nós chegamos!”
Nos esquecemos que o próprio liberalismo, que nos faz desconectar passado e presente, hoje chamado neo e identificado com ideias vazias de liberdade, foi o principal fundamento da manutenção da escravidão no Brasil, fazendo com que nosso país fosse um dos últimos da América a abolir esta instituição nefasta. O liberalismo sacralizou a propriedade privada e serviu para que os enriquecidos de ontem, comerciantes da carne humana, criassem seu próprio silogismo, segundo o qual “se a propriedade é sagrada e o escravizado é minha propriedade, que direito pode haver na abolição da escravatura?”. Foi o que W.E.B. Du Bois chamou de “a liberdade para matar a liberdade”.
Bom, a escravidão foi abolida, mas não levamos a cabo a sugestão de Joaquim Nabuco, para quem não bastava por fim ao escravismo, era necessário destruir a sua obra. A obra não foi destruída e os senhores de escravos de ontem são os patrões e parlamentares de hoje (com raras exceções, 12, entre mais de 50, para ser mais exato); são eles que há séculos controlam a máquina pública para benefício privado; são eles que hoje privatizam mais um bem público.
Alguns poucos, e importantes, avanços foram conquistados a duras penas, às vezes tão poucos que parecem farelos caídos da mesa; mesmo poucos precisam ser defendidos com muita luta, às vezes até com sangue. Não com o sangue dos tiranos, como queria Thomas Jefferson, mas com sangue daqueles já cotidianamente sangrados pela exploração.
A privatização passou, direitos e conquistas estão ameaçados, mas as mais de vinte mil pessoas que compareceram ao primeiro dia de greve retornaram para as suas casas, muitas com a sensação de dever cumprido, outras com o sentimento de impotência, mas todos com a consciência da derrota, mesmo quando dizem “a greve já é vitoriosa”, uma retórica pouco reconfortante.
A aprovação desse projeto escuso é mais uma vergonha para o estado reacionário do Paraná e se soma a outras políticas das trevas, como aquelas levadas a cabo no campo da moradia, na qual os despejos vêm jogando cada dia mais famílias no olho da rua. Da constituição, que garante moradia e educação de qualidade, tantas vezes rasgada e interpretada de acordo com os interesses dos poderosos, muito pouco sobrou, no máximo, um espectro pálido. A Constituição para inglês ver, poderia se chamar, porque assim como a lei que aboliu o tráfico recebeu essa denominação por ter acabado como letra morta, a manutenção das garantias constitucionais se encontra no mesmo estado, se não morto, certamente vegetativo.
Tudo isso pode perturbar alguns espíritos humanistas e conscientes da sua condição de classe explorada, mas o fato é que a ideologia neoliberal-fascista tupiniquim impregnou profundamente as mentes e os corações da maioria que, cega, caminha para o abismo, satisfeita e orgulhosa da perda dos seus próprios direitos. “Ó progresso, eu te admiro em tua força corruptora! Tende dinheiro e terás tudo, essa é a legenda do século”, assim disse assertivamente um autor anônimo do século 19.
Em resumo, escolas públicas privatizadas, despejos sucessivos, criminalização da luta pela dignidade, enfim, um passado que não passa e um tempo em que “lutar por seus direitos é um defeito, que mata.”
Tudo isso em ano de eleição… Houve um período em que ano de eleição era a garantia da manutenção de direitos conquistados, pois pegava mal atacá-los às vésperas da eleição, o candidato poderia perder votos. Não arrisco dizer que foi sempre assim, possivelmente essa garantia existiu em situações específicas, de acordo com a alternância da hegemonia ideológica de cá ou de lá, é mais provável que sempre tenha sido assim, ao contrário, e o ataque aos direitos dos explorados é a garantia de votos, não só para o governo do Estado, mas para um projeto de governo nacional.
Esse estado de coisas nos deve lembrar que não basta um presidente comprometido com o bem estar comum, porque os governadores e prefeitos são agentes mais diretos da opressão, quando o pacto federalista foi estabelecido por coronéis regionais. Certo estava Getúlio Vargas ao nomear interventores, mas isso é outra história…
De poucas vitórias e muitas derrotas segue a luta, a dignidade não se conquista com flores.
Até a vitória, sempre!
*Ricardo de Oliveira é professor e militante do Movimento Popular por Moradia (MPM)
**As opiniões expressas nesse texto não representam necessariamente a posição do jornal Brasil de Fato Paraná
