Dia D!

Poliomielite: é possível repetir o sucesso do passado na vacinação?

País já foi exemplo de controle e imunização contra a doença, mas índices de vacinação decaíram nos últimos anos

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Selo de 1983 faz alusão à campanha de combate à poliomielite - WikiCommons
Vamos depender de muito esforço. O negacionismo tem uma disseminação muito rápida

Está marcado para o próximo sábado (8) o dia D da campanha de vacinação contra a poliomielite em todo o território nacional. A edição de 2024 da campanha vai até 14 de junho. A meta do Ministério da Saúde é imunizar 13 milhões de crianças menores de cinco anos de idade. O imunizante é disponibilizado gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), e quem não comparecer aos postos durante a campanha pode tomar a vacina posteriormente.

A doença foi controlada no Brasil no fim da década de 1980, em um processo de imunização que se tornou referência mundial e que até hoje influencia as políticas para vacinas do país. 

No entanto, a partir de 2016, os índices de vacinação passaram a declinar, o que acendeu o alerta para o risco de retorno da doença. A meta anual é de 95% das crianças com até cinco anos de idade vacinadas. Mas, nos últimos oito anos, esse resultado não foi alcançado nem uma vez. 

Na maior parte desse período, o índice não chegou nem mesmo aos 85%. Nos piores anos – entre 2020 e 2022 – ele variou entre 77% e 71%. Em 2023, a Comissão Regional para a Certificação da Erradicação da Poliomielite na Região das Américas classificou o Brasil como região de alto risco para a reintrodução do poliovírus, que causa a poliomielite. 

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“Não é um fenômeno só do Brasil, mas do mundo todo”, afirmou o diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações, Juarez Cunha. Em conversa com o podcast Repórter SUS, ele ressaltou que a hesitação vacinal está relacionada a fatores como a complacência, a conveniência e a comunicação. 

O primeiro deles sugere que o controle da doença gerou a percepção de que o problema não é tão grave. “Recebemos o certificado de erradicação em 1994. Então, adultos jovens nunca viram a poliomielite. Por que eu vou vacinar meu filho contra uma doença que não existe?”, analisa. 

Cunha alertou para os riscos dessa percepção, já que o vírus continua em circulação no planeta e pode reaparecer no Brasil. “Para evitarmos isso, precisamos ter altas coberturas vacinais”, defende. 

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Facilitar o acesso, ampliar horários de atendimento e proporcionar atendimento que se encaixe na rotina das famílias brasileiras também são elementos que estão entre os pontos de atenção. Eles se relacionam ao fator conveniência na lista de obstáculos que afastam a população dos postos de saúde. 

Juarez Cunha cita também as dificuldades na comunicação. Historicamente, o Brasil tem sucesso nas campanhas para comunicar processos de imunização ao público. Mas o crescimento do negacionismo e da propagação de mentiras sobre a ciência e as vacinas atingiu fortemente o potencial dessas políticas. 

“Vamos depender de muito esforço, porque a comunicação foi modificada de uma forma que não conseguimos responder na mesma velocidade e com a mesma penetração dos grupos antivacinas. O negacionismo tem uma disseminação muito rápida e é fundamental que trabalhemos na comunicação”, ressalta. 

Este ano, a campanha tem o desafio de reverter esse cenário. Levando em consideração os resultados históricos que o país já alcançou, a missão não é impossível. Entre os anos de 1968 e 1989, o Brasil registrou 26 mil casos. Em 1994, após mais de uma década de campanhas consistentes, organizadas e, principalmente, populares, o país recebeu a condição de região livre da doença. 

História 

O primeiro registro de um surto da poliomielite em território nacional ocorreu em 1911, no Rio de Janeiro. Seis anos depois, em 1917, uma outra epidemia foi identificada no interior do estado de São Paulo. 

Depois disso, a doença só voltou a ser registrada em grande escala a partir da década de 1930. Na época, havia pouco conhecimento sobre o vírus e nem mesmo as formas de transmissão eram uma certeza. Esse cenário também inviabilizava políticas de prevenção. 

A vacina só foi desenvolvida nos anos 1950 e nem mesmo a disponibilidade dela em território nacional conseguiu controlar as constantes e graves epidemias. Não havia um plano de distribuição organizado, e as falhas eram constantes. Mesmo com as campanhas de convocação da população, os índices de crianças vacinadas não avançavam. 

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Esse processo está descrito no artigo A história da poliomielite no Brasil e seu controle por imunização, de autoria de André Luiz Vieira de Campos, Dilene Raimundo do Nascimento e Eduardo Maranhão e publicado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

A pesquisa narra a descontinuidade de campanhas na década de 1960 e 1970 e os impactos da desigualdade na tentativa de controle da doença. Crianças de famílias com maior poder econômico tinham acesso ao imunizante, e a poliomielite passou a atingir mais a população periférica.  

Com a implementação do Programa Nacional de Imunização (PNI), em 1973, a vacina contra a pólio foi incorporada à rotina de saúde do Brasil. Ainda assim, em 1975 foram registrados 3.400 casos. Somente em 1980, o poder público estabeleceu políticas eficazes e robustas para erradicar o problema. 

A estratégia consistia basicamente em aplicar a vacinação em massa em todo o território nacional em um curto período. Foram estabelecidas as primeiras edições da história do Dia Nacional de Vacinação, presente até hoje nas campanhas de diversos imunizantes. As vacinas foram aplicadas nacionalmente em 14 de junho e 16 de agosto de 1980. Em um ano, o número de casos passou de 1.290 para 122.  

O período também foi frutífero para as pesquisas científicas sobre o tema. Em 1984, o aumento de casos no Nordeste não cessava mesmo com a vacinação. As pesquisas sobre a epidemia regional, encabeçadas pela Fiocruz, descobriram que as infecções eram causadas por um tipo diferente do vírus que circulava em outras regiões. Com apoio da Organização Mundial da Saúde (OMS), a investigação rendeu a atualização do imunizante e o controle da situação. 

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Reconhecida internacionalmente como um modelo, a estratégia dos dias nacionais de vacinação inspirou a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) a criar um programa de erradicação em toda a américa até 1990. Os resultados da movimentação continental foram expressivos não só no alcance, mas também em uma mudança social na cultura de prevenção. 

O Brasil foi protagonista nesse processo que fortaleceu todas as instâncias do PNI. Os resultados aumentaram a confiabilidade da população nos imunizantes e colocaram a rotina de vacinação no cotidiano do país. A campanha de vacinação contra a poliomielite é responsável até mesmo pelo nascimento do símbolo nacional, Zé Gotinha. Recuperar esse avanço histórico pode ser um passo importante no combate ao negacionismo e às quedas na vacinação.

 

*O Repórter SUS é uma parceria entre o Brasil de Fato e a Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio da Fundação Oswaldo Cruz (EPSJV/Fiocruz).

Edição: Rodrigo Chagas