Violência no campo

Agricultores de acampamento em Lábrea, no sul do Amazonas, voltam a denunciar agressões e destruição de barracos

Como forma de protesto pelas agressões sofridas, os agricultores fecharam trecho da BR-317

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Alegando cumprimento de ordem judicial, seguranças da Fazenda Palotina derrubam barracos e expulsam famílias de agricultores que fazem a coleta de castanha | Crédito: Arquivo pessoal

*Matéria atualizada para inserção do outro lado 

As famílias de agricultores sem-terra do acampamento Marielle Franco, que ocupam uma área vizinha à Fazenda Palotina, no município de Lábrea, no Amazonas, voltaram a denunciar agressões cometidas por seguranças de uma empresa privada que faz a vigilância da propriedade da família Zamora. Além de agressões físicas, os camponeses afirmam que tiveram seus barracos destruídos pelos vigilantes, alegando o cumprimento de uma ordem judicial. O caso aconteceu na tarde desta quarta-feira, 18 de dezembro.

Varadouro teve acesso aos vídeos nos quais os funcionários da Bastos Vigilância dizem que estão ali para cumprir o mandado expedido por uma juíza, sem especificar o nome da magistrada ou apresentar documentos. Mandados judiciais só podem ser cumpridos pelas forças oficiais de segurança do Estado, acompanhadas de oficial de Justiça e outras autoridades.

Nas imagens, uma das moradoras questiona o “cumprimento” da sentença judicial, e pede a apresentação da ordem. Ele também indaga a não presença de servidores do judiciário. Após exigir a saída dos posseiros, os barracos são derrubados com o uso de motosserras. Num deles há presença de mulheres e crianças.

No caso, a sentença seria da juíza federal Maria Elisa Andrade, da 7o Vara Federal Ambiental de Manaus, a mesma que determinou a prisão preventiva de Sidney Sanches Zamora Filho. Conforme Varadouro mostrou na semana passada, Zamora Filho está foragido desde o começo de novembro, quando a Polícia Federal cumpriu mandados no apartamento de luxo da família Zamora, numa área nobre da capital acreana.

“Não tem papel de juíza nenhuma. O caso tá transitando na Vara Federal, mas ela não mandou tirar ninguém”, afirma uma das lideranças da ocupação. Por questão de segurança, ela pede o anonimato.

Como forma de protesto pelas agressões sofridas, os agricultores fecharam trecho da BR-317 que liga Rio Branco a Boca do Acre, bem na entrada da Fazenda Palotina. Desde o mês passado, as famílias acusam os vigilantes da Palotina de intimidação com ações violentas, proibindo o acesso deles a áreas para fazer a quebra de castanha.

Nesta época do ano os camponeses passam a fazer a coleta de castanha no interior da mata como forma de assegurar renda. Eles acusam os vigilantes de reter os sacos com as castanhas coletadas. O alto valor pago pela lata leva muitas famílias a entrar nas florestas em busca dos ouriços, criando situações de disputas e conflitos.

Desde o começo do ano as famílias do acampamento Marielle Franco denunciam a Bastos Vigilância de atuar em conjunto com os capangas da fazenda para intimidá-los. O estopim se deu no começo de março, quando os agricultores foram torturados por homens vestidos de preto que se identificavam como policiais do Bope.

A Fazenda Palotina tem a sua posse reivindicada pela família Zamora, incluíndo as áreas onde estão os sem-terra. Por sua vez, elas afirmam que a terra é de propriedade da União e já estaria em processo de transformação de assentamento pelo Incra.

O caso da Fazenda Palotina está entre as suspeitas de possível grilagem de terras públicas, que contaria com a participação de funcionários do cartório de Lábrea e do Incra no Amazonas, alvo de operações da Polícia Federal em julho.

O outro lado

Varadouro entrou em contato, por meio do Whatsapp, com Wedson Bastos, que se apresenta como sócio-proprietário da Bastos Vigilância e Segurança Privada, sediada em Rio Branco. A reportagem questionou o empresário sobre os possíveis casos de violência praticados por seus funcionários contra os camponeses, e pediu uma cópia do mandado judicial. Ainda questionou a ausência das forças policiais e de um oficial de Justiça. Até o presente momento não houve retorno às mensagens enviadas.

Em nota, o advogado de Sidnei Zamora, Marcelo Feitosa Zamora, informou que “os seguranças da Fazenda Palotina jamais expulsaram famílias, apenas cumpriram decisão da Justiça Federal para desmontagem de barracos que haviam sido erguidos”.

Além disso, o texto afirma que o escritório de advocacia não recebeu contato da reportagem do Brasil de Fato. No dia 20/01, entretanto, o veículo realizou tentativas de contato telefônico e via WhatsApp pelos números fornecidos pelo site da empresa, mas não obteve retorno.

Leia a nota na íntegra neste link.

Conteúdo originalmente publicado em: Varadouro

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