Alimentação

‘Lugar de comida é no prato do povo e não no lixo’, protestam movimentos populares

Em contraponto a suposto descarte de alimentos, iniciativas doam alimentos da agricultura familiar nas periferias

No audio source provided.

Na última semana, as redes sociais foram inundadas por uma série de vídeos nos quais agricultores do agronegócio estariam supostamente jogando alimentos no lixo para forçar o aumento dos preços, uma prática já divulgada em outros momentos. Por outro lado, movimentos populares utilizaram o assunto em evidência para reforçar a necessidade de reconhecer a comida como alimento e não apenas como um produto para geração de lucro.

Com um novo período de disparada dos preços dos alimentos, o Brasil voltou ao debate sobre o contraste entre a produção de grãos para exportação, onde o país ocupa a quarta posição, e a produção de alimentos da agricultura familiar, que perde cada vez mais espaço de plantio, dando lugar às commodities.

“A lógica do alimento tem que ser produzir para sustentar o povo brasileiro, essa é a função e a missão da agricultura familiar brasileira, não simplesmente para o lucro. É justo que os camponeses, que os produtores recebam pelo seu trabalho, mas o objetivo principal é sustentar e garantir dignidade para a classe trabalhadora brasileira”, explica Paulo Mansan, idealizador e coordenador do programa Mãos Solidárias.

Em 2023, protesto da FETAG-RS derramou tonéis de leite no asfalto contra baixa dos preços – Reprodução.

Apesar da incerteza da origem dos vídeos que circulam nas redes sociais, a prática de jogar fora parte do cultivo é historicamente adotada pelo agronegócio quando há aumento da oferta de determinado alimento, o que causa baixos preços nas prateleiras e, segundo produtores, torna inviável a venda.  

No entanto, Paulo Mansan lembra que a produção, mesmo em larga escala, só é possível graças a investimentos públicos, por meio de créditos e financiamentos, a exemplo do Plano Safra, para o qual o governo federal anunciou extraordinários R$ 4 bilhões para o ano de 2025.

“A nossa comida não pode servir simplesmente para a especulação, inclusive produção de comida financiada com dinheiro público, com empréstimo dos bancos. Lugar de alimento é na mesa do povo brasileiro. Lugar de alimento não é no lixo”, pontua Mansan.

Em contraponto à prática de descarte, iniciativas do campo popular realizam doações de alimentos excedentes da produção para quem não tem o que comer.

O Mãos Solidárias surgiu na pandemia, mas se tornou política pública e já tem mais de 250 cozinhas no país – Reprodução/MST.

Uma dessas iniciativas é o projeto Mãos Solidárias, onde alimentos das áreas de reforma agrária são recebidos por pontos como Cozinhas Solidárias e preparados para a montagem de marmitas que são doadas nas periferias das grandes cidades.

“Estamos com uma ampla rede de bancos populares de alimentos, onde pegamos doações de assentamentos da reforma agrária e unidades de agricultura familiar camponesa e distribuímos para dentro das cidades. Nós podemos dizer que em volta do MST temos mais de 250 cozinhas que fazem e distribuem comida para quem mais precisa nas periferias das grandes cidades”, explica Mansan.

Reconhecido internacionalmente, em 2024 o projeto Mãos Solidárias recebeu o prêmio Pacto Contra Fome, entregue pelas União das Nações Unidas (ONU), e foi integrado ao Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) do governo federal, possibilitando assim o cadastramento de ações em todo o país.

Em Maceió (AL), a Cozinha Solidária Casa do Povo promove segurança alimentar e organização comunitária – MST-AL.

Na última semana, a Cozinha Solidária Casa do Povo, localizada em Maceió (AL), doou uma tonelada de alimentos para o bairro da Levada.

“Fazemos distribuição de alimentos para as pessoas em situação de rua e, agora, com a instituição das Cozinhas Solidárias como política pública, estamos fortalecendo a prática solidária […] no último dia 19 de fevereiro, distribuímos cerca de uma tonelada de alimentos. É o povo sendo solidário com o povo”, explica a coordenadora da Cozinha, Weldja Marques.

Responsável pela aquisição, armazenamento e políticas de acesso a alimentos no Brasil, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) fala sobre a alta nos preços dos alimentos e destaca que o desmonte do órgão no governo passado zerou os estoques públicos.

“A verdade é que o governo passado desmontou o Plano SAF da agricultura familiar, extinguiu o MDA, a Conab que encaminhava as funções, zerou os estoques públicos, fechou boa parte dos armazéns da Conab, que é a estrutura para fazer estoque, agora estamos remontando. Para todos os agricultores que optarem por produzir comida, a taxa de juros 3%, se for de produção orgânica, é de 2%”, explica o presidente da Conab, Edegar Pretto.

Para alavancar o estoque público de alimentos e atuar no combate à fome, a Conab anunciou uma chamada extra do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), na modalidade Compra com Doação Simultânea (CDS) e o mínimo de 50% de participação feminina.

“O PAA voltou com muita força. São 2.900 cooperativas vendendo para o PAA e temos uma variedade de quase 400 tipos de alimentos ofertados, onde compramos direto do agricultor, sem atravessador, pagamos um preço melhor e essa comida simultaneamente ajuda a combater a fome não só na quantidade, mas também na qualidade, que é muito importante”, pontua Edegar.

Editado por: Nathallia Fonseca

|

Newsletter