Virar boneco do Carnaval de Olinda foi a maior consagração, diz Nanda. Ainda Estou Aqui é reconhecido internacionalmente e ganha o primeiro Oscar para o cinema brasileiro. Aguardamos mais de duas décadas entre Central do Brasil e Ainda Estou Aqui. E, o dobro do tempo, entre os fatos com torturas e mortes na ditadura serem reconhecidos como responsabilidade do Estado.
Enquanto isso, sorriam, disse Eunice, marcando o lugar desse estar vivo para si. E, na oportunidade de estar vivo, a gente faz. O brasileiro faz com propriedade coexistir com as coisas, seja na dor, seja na felicidade, ou na mistura de ambas. A meu ver, há um fio amoroso, de paixão pela vida, que envolve aquilo que nos conduz a esse ápice de ver o cinema brasileiro lotando salas aqui e no mundo. Em cartaz: Ainda Estou aqui.
Marcelo Rubens Paiva, escritor perspicaz, foi amoroso ao reunir em um livro a história de sua mãe. Ele dá voz a uma mulher de textura firme, de sabedoria e de clareza de sua dor, que, mesmo despedaçada, segue. Viva, consciente e em luta. Walter Salles, amoroso ao reunir sensibilidade, capital e lucidez, desenha um filme com profissionais que por certo foram “AS MINA” e “OS CARA”. E usa de impressões de seu próprio passado, sem fingir não ter presenciado a família vizinha ser vitimada por uma ditadura militar baixa e perversa – que ainda quer estar aqui. Selton Melo, amoroso por ser ele mesmo e relembrar a própria mãe. Visceral, dá corpo e vida a quem não teve chance nem despedidas. E as Fernandas, pelo ser. Grandiosas no ser. Elas nos inundam com passado e presente e evocam o Brasil pela arte. No riso ou nas pegadas profundas da dor, mãe e filha são conscientes do Brasil que vivem, interpretam e falam com pinça certeira.
No Brasil, as forças seguem em disputa. Com o Oscar embaixo do braço, o tema ditadura está escrachado e com isso podemos reconhecer quem ainda o toma como bandeira – não dá pra relaxar. E, por fim, o fio amoroso segue com Dilma Rousseff. Mulher intensa, voz forte por uma nação soberana. Instaurou a Comissão Nacional da Verdade que apurou casos, violências, distorções e atrocidades, além do patrocínio norte-americano, que desejou – e segue desejando – controlar nosso direito de escolha e de existir – nosso e de toda América Latina.
Às famílias que carregam as dores das perdas, o reconhecimento do Estado como autor das mortes. A Eunice Paiva: obrigada por existir. E, a todos nós que enfrentamos com o apagamentos da história – das coleções, dos arquivos e dos museus – um inferno sem memória, força para resistir. Para o cinema brasileiro, um Oscar e a liberdade de expressão.
Se há problema, somos a solução. Somos a diferença, a diversidade, a pluralidade. E seguimos, desejando e produzindo políticas democráticas, arte acessível, audiovisual com orçamento e memória para todos e todas. Foi um domingo de carnaval, Orixás e telões na avenida, todas as cores, gêneros e máscaras de Fernanda Torres. Fomos multidão pulando, suando e sacodindo sem dúvida o amor de ser quem se é. Sem anistia e um Oscar consagrando a cultura nacional. Assim, para além de estarmos vivos, somos uma cultura de paixões coletiva, desejando distância da opressão do imperialismo e dos ecos do colonizador, da moralidade e dos apagamentos. O Brasil é vencedor, é exuberante, na luta contra um Alzheimer, recupera a memória e brinda sua alegria e a existência. Amorosidade na alma do Brasil e, sim, ainda estamos aqui: sorriam.
*Alice Bemvenuti é pesquisadora, professora e museóloga ([email protected]).
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
