JUROS

Mesmo com a economia desacelerando, Selic deve seguir em alta e alcançar maior nível desde 2006

Comitê de Política Monetária do BC subiu taxa básica de juros de 13,25% para 14,25% na quarta-feira

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“Inimigo do Brasil”: Banco Central é criticado por economista do mercado financeiro | Crédito: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) decidiu nesta quarta-feira (19) elevar a taxa básica de juros da economia nacional de 13,25% para 14,25% ao ano. O aumento colocou a chamada Selic no maior patamar desde 2016. Segundo o próprio Copom, entretanto, em maio, a taxa deve alcançar seu maior nível desde 2006.

Desde agosto daquele ano, ainda no primeiro mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a Selic não supera os 14,25%. Naquele mês, o Copom, na época presidido por Henrique Meirelles, baixou a taxa básica de juros de 14,75% para 14,25%. Em quase 19 anos, ela nunca mais superou aquele patamar.

O Copom, agora presidido por Gabriel Galípolo, sinalizou que isso deve ocorrer após a próxima reunião do colegiado, marcada para os dias 6 e 7 de maio. A previsão está registrada no comunicado do órgão emitido na noite de quarta.

“Diante da continuidade do cenário adverso para a convergência da inflação, da elevada incerteza e das defasagens inerentes ao ciclo de aperto monetário em curso, o Comitê antevê, em se confirmando o cenário esperado, um ajuste de menor magnitude na próxima reunião”, antecipou o Copom.

Qualquer que seja o aumento, a taxa Selic estará no maior nível desde 2006.

“O histórico do Banco Central mostra que o BC não interrompe subitamente nenhum ciclo de elevação da Selic”, explicou José Luis Oreiro, economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), que prevê pelo menos outras três elevações da taxa.

Para ele, o Copom deve elevá-la em 0,75 ponto em maio, a colocando em 15% ao ano. Na reunião seguinte, em julho, a Selic deve subir mais 0,5 ponto e chegar a 15,5% ao ano. Já em setembro, a taxa subiria mais 0,25 ponto, alcançando os 15,75% ao ano.

A última vez que a Selic esteve em tal patamar foi em maio de 2006.

Weslley Cantelmo, presidente do Instituto Economias e Planejamento, também prevê novas altas da Selic considerando o comportamento histórico do BC, apesar de não ter detalhado até onde a taxa básica de juros deve ir.

Economistas de bancos estimam que a Selic feche o ano em 15% ao ano.

Efeitos da alta

Tanto Cantelmo quanto Oreiro veem a Selic atrapalhando a economia em 2025. 

Cantelmo disse que a atividade econômica já passa por uma desaceleração – ou seja, continua crescendo, mas num ritmo menor do que o anterior. “Isso está acontecendo e a tendência é que se intensifique”, afirmou.

Segundo ele, indicadores da indústria e do setor de serviços mostram essa redução do ritmo de crescimento já por conta dos primeiros aumentos da Selic, em 2024.

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no último trimestre do ano passado, a economia brasileira cresceu menos do que em todos os outros trimestres do ano. Foram 0,2% na comparação com o trimestre anterior.

Oreiro ressaltou que os efeitos completos de cada elevação da Selic só são visíveis depois de seis ou nove meses do seu anúncio. Considerando isso, a desaceleração da economia deve se intensificar a partir do segundo semestre deste ano.

“Isso não significa que o crescimento do PIB [Produto Interno Bruto] de 2025 será negativo. Mas entre o final de 2025 e começo de 2026, devemos ter uma recessão técnica [dois trimestres consecutivos de queda no PIB]”, disse ele. “Isso significa, por exemplo, alta do desemprego. O mercado de trabalho em 2025 deve ficar pior do que foi em 2024.

O que é Selic?

A taxa Selic é referência para a economia nacional. É também o principal instrumento disponível para o BC controlar a inflação no país.

Quando a Selic cai, os juros cobrados de consumidores e empresas ficam menores. Há mais gente comprando e investindo. A economia cresce, criando empregos e favorecendo aumentos de salários. Os preços, por sua vez, tendem a aumentar por conta da demanda.

Já quando ela sobe, empréstimos e financiamentos tendem a ficar mais caros. Isso desincentiva compras e investimentos, o que contém a inflação. Em compensação, o crescimento de toda a economia tende a ser prejudicado.

Sabendo disso, desde que assumiu o governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) defende uma redução da Selic. Indicados por Lula para o BC, incluindo o presidente Gabriel Galípolo, têm contrariado visões do Planalto.

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), isentou Galípolo e os novos diretores do BC sobre a Selic. “Você não pode, na presidência do Banco Central, dar um cavalo de pau depois que assumiu [o cargo]. Isso é uma coisa muito delicada. Um novo presidente, com os novos diretores, eles têm uma herança a administrar, mais ou menos como eu tive uma herança a administrar em relação ao Paulo Guedes”, disse, em entrevista à Empresa Brasil de Comunicação (EBC).

Por outro lado, na mesma entrevista, Haddad cobrou o BC pelo controle da inflação. “Nós queremos uma inflação cada vez mais comportada, sabendo que, quando ela sai da banda, o Banco Central tem que tomar providência”, disse.


Editado por: Nathallia Fonseca

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