Seminário Nacional

Agronegócio faz apropriação da cultura popular, avalia pesquisadora

Ana Chã participou de Seminário Nacional sobre Cultura e Reforma Agrária realizado em Brasília

No audio source provided.
Palestra foi realizada durante seminário na terça (19) | Crédito: Luiz Henrique Portela

O agronegócio, enquanto projeto de poder, não apenas patrocina, mas também se apropria e ressignifica elementos da cultura popular. A análise é da pesquisadora e autora do livro Agronegócio e Indústria Cultural Ana Chã. Segundo ela, as estratégias de cultura buscam construir perante a sociedade uma imagem positiva que esconda as contradições do setor, como o uso exacerbado de agrotóxicos. 

“Um dos mecanismos que o setor tem encontrado para construir essa imagem positiva é através da música e em especial através do financiamento de grandes shows, de feiras, de exposições agropecuárias. Sempre acompanhadas desse elemento musical”, pontua a pesquisadora que é mestra em  Desenvolvimento Territorial na América Latina e Caribe pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).

De acordo com Chã, o setor utiliza de duas ferramentas para estruturar esse projeto cultural. Um deles é através das leis de incentivo fiscal, onde os impostos são abatidos e se utilizam para fazer publicidade dos produtos e dos projetos. 

Outro mecanismo são as parcerias e articulações com os municípios que querem promover shows, mas acabam gastando nesses eventos um percentual do orçamento direcionado à cultura e à educação. O objetivo principal é sempre o mesmo: a construção da imagem positiva e a publicidade sutil ao setor, reafirmado no estilo musical sertanejo. 

Diante desse cenário, a cultura popular do campo fica de escanteio e o agronegócio se ocupa desse espaço. É nesse lugar dos territórios onde em especial o setor se apropria do legado das comunidades, da cultura popular e tradicional como forma de encontrar um vínculo maior com essas populações.

“Muitas vezes, os projetos locais, fazem parceria com mestres e mestras da cultura local, grupos locais. Financiam esses projetos, mas já com um objetivo diferente, que não é esse da celebração, do fazer comunitário, mas é de levar essas comunidades a terem uma imagem positiva do agronegócio. Sendo que, muitas vezes essas comunidades são diretamente afetadas pelos problemas ambientais e sociais que o próprio agronegócio causa”, salientou. 

Seminário Nacional 

Seminário iniciou na terça (19) em Brasília | Crédito: Luiz Henrique Portela

As análises da pesquisadora Ana Chã foram debatidos durante o Seminário Nacional Por uma Cultura Popular do Campo, realizado na sede do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) em Brasília durante os dias 19 a 21 de agosto. 

O objetivo principal do Seminário é resgatar o histórico de ações desenvolvidas pelos movimentos e organizações populares do campo, “em parceria com as políticas públicas ou por iniciativas autônomas para construir as bases para uma proposição de Política Pública de Cultura Popular do Campo, a partir dos camponeses e suas organizações”, observa a organização da atividade.

Durante o período, os participantes discutiram a elaboração de uma política de cultura efetiva para trabalhadores do campo e resgataram o histórico da arte e cultura da reforma agrária. 

No dia da abertura, realizado na terça-feira (19) estiveram presentes representantes do Ministério da Cultura, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), Incra e do Ministério do Desenvolvimento Agrário. 

Para o professor da Universidade de Brasília (UnB) Rafael Villas Bôas, o seminário serve como fonte de reavivamento da história cultural dos movimentos sociais. “Revolução cultural é cultura revolucionária. Que esse seminário, possa nos reavivar que muita coisa foi feita e se ela não está na política pública, não é porque ela não existe. Se não conseguimos mudar o início, mudemos o fim.”

:: Receba notícias do DF no seu Whatsapp ::

Editado por: Flavia Quirino

|

Newsletter