Conquista

Em contraponto a leilão de terras, Paraty (RJ) reconhece direitos de comunidades caiçaras ameaçadas de despejo

Município poderá incluir demarcação de territórios tradicionais no Plano Diretor, afirma vereador Vaguinho (PT)

No audio source provided.
Igreja de São Pedro e São Paulo, na Ilha do Araújo, em Paraty (RJ)
Igreja de São Pedro e São Paulo, na Ilha do Araújo, em Paraty (RJ) | Crédito: Reprodução/Instagram/@euamoparaty

A partir de um projeto do vereador Vaguinho de São Gonçalo (PT), 33 comunidades caiçaras de Paraty, no sul fluminense, foram reconhecidas como territórios tradicionais. Sancionado em agosto, o PL 071/2025 garante aos povos e comunidades tradicionais os direitos previstos na legislação brasileira e em tratados internacionais.

Ao Brasil de Fato, Vaguinho afirmou que a medida é um instrumento que reafirma a importância da demarcação dos territórios tradicionais caiçaras, sobretudo as que vivem sob ameaça. “As comunidades tradicionais caiçaras de Paraty e região sofrem muito com as pressões, seja pela especulação imobiliária, como foi o caso do leilão público em terras que sobrepõem território tradicional, seja elas ocupadas por moradia, por ranchos. São territórios importantes para que a gente possa continuar mantendo o nosso modo de vida e o nosso saber”, reforça o vereador.

Entre as comunidades reconhecidas estão diversos territórios impactados com o leilão de terras, como a Ilha Araújo, segunda maior do município. Com a ajuda da Defensoria Pública (DPRJ) e do Ministério Público Federal (MPF), moradores conseguiram suspender temporariamente a emissão de posse dos lotes vendidos. 

A origem do processo é o inventário de José Maria Rollas, empresário português que acumulou terras no litoral do estado e faleceu em 1988 deixando dívidas. Um processo que tramitou na Justiça por anos culminou com o leilão de 49 terrenos em Paraty.

:: Quer receber notícias do Brasil de Fato RJ no seu WhatsApp? ::

Segundo a Defensoria, houve uma supervalorização da propriedade registral em detrimento do direito de posse tradicional. Todos estão inseridos em áreas ocupadas por caiçaras. São comunidades tradicionais de pescadores, agricultores, artesãos e extrativistas que desenvolvem suas atividades de forma sustentáveis e em harmonia com a preservação da Mata Atlântica.

Regularização fundiária

O vereador Vaguinho vai na contramão do processo que chama de “grilagem moderna” ao declarar os territórios como de interesse social. A proposta visa a regularização fundiária no âmbito municipal. “Ao fazer a revisão do Plano Diretor, podemos ser a primeira cidade do estado a demarcar e incluir nos planejamentos municipais a possibilidade de regularização também de território tradicional caiçara”, completa. 

Entre outros pontos, a nova lei garante a preservação dos modos de vida e reconhece o valor histórico, cultural, ambiental e social das comunidades caiçaras para o município de Paraty. O texto considera comunidade tradicional grupos que “possuem formas próprias de organização social, ocupam e usam territórios de modo coletivo, e mantêm saberes, práticas, usos e costumes associados à conservação da natureza, à ancestralidade e à reprodução cultural e social”.

Prevê também que a administração pública municipal poderá firmar convênios, termos de fomento, cooperação com organizações representativas das comunidades tradicionais para implementar políticas públicas de fortalecimento das formas próprias de organização comunitária.

Editado por: Vivian Virissimo

|

Newsletter