O cientista político e professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), Paulo Niccoli Ramirez, avalia que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), não deve conseguir ampla popularidade nacional na corrida presidencial do próximo ano. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ele afirma que a eventual escolha do seu nome pela direita seria menos fruto de consenso e mais por falta de alternativas.
“Politicamente, ele pode até ter uma força, porque não tem outro nome que tenha a mesma robustez que ele em termos de conseguir alguma coisa e, pelo menos, chegar no segundo turno no ano que vem. Mas eu diria que a escolha de Tarcísio não vai ser uma escolha racional e consciente, mas muito mais uma escolha por descarte da direita. Ou seja, é quem sobrou e quem tem maior possibilidade de passar uma vergonha menor. Eu diria que essa vai ser a decisão do espectro da direita”, analisa.
Ramirez lembra que, desde a redemocratização, apenas um governador foi eleito presidente: Fernando Collor, que sofreu processo de impeachment em 1992, acusado de corrupção. “Todos os demais governadores que ousaram surfar de uma certa popularidade em seus governos tiveram grandes fracassos quando candidatos à presidência”, aponta. Entre eles estão João Doria e José Serra, ambos do PSDB, e Geraldo Alckmin, hoje no PSB, todos ex-governadores de São Paulo; e Aécio Neves (PSDB), ex-governador de Minas Gerais.
Para o professor, ocupar cargos no Executivo estadual ou municipal costuma manchar a imagem política nacionalmente. “O que eu estou querendo dizer com isso é que é muito difícil Tarcísio conseguir ter uma ampla popularidade nacional. É conhecido aqui em São Paulo, mas os bolsonaristas não estão sob consenso em relação ao seu nome”, observa. “Tarcísio é o favorito, mas isso vai para os políticos de direita. Isso não significa que seja o favorito sequer para os eleitores de direita. São situações absolutamente diferentes”, resume.
Relação com Bolsonaro
O cientista político também destaca a dificuldade do governador em se descolar da imagem do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), preso em regime domiciliar, réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por tentativa de golpe de Estado. “Há uma relação muito próxima de Tarcísio com Bolsonaro que pode ser muito prejudicial ao restante da carreira política de Tarcísio”, analisa.
Segundo Ramirez, o bolsonarismo perde força entre o eleitorado moderado e a associação de Tarcísio ao ex-presidente pode ser decisiva. “Bolsonaro é um queima-filme, em outras palavras. Então isso [o esquecimento] deve acontecer com esses políticos. E Tarcísio, ao escolher esse caminho, perde muito”, avalia.
Para ele, a estratégia de se apoiar no ex-presidente repete erros já vistos. “Eu tenho certeza que, aproximando-se das eleições, nós vamos ver todos esses políticos de direita, que hoje querem estar abraçados com Bolsonaro, se defendendo, dizendo: ‘Olha, não era bem assim. Era uma aproximação estratégica, eu fui enganado’. O próprio Doria fez isso uns anos atrás, com aquele lema ‘Bolsodoria’. E vejam qual o destino de Doria, mal ouvimos falar dele”, pontua.
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