O grupo Mexa estreia, nesta sexta-feira (29), o espetáculo A Última Ceia, no Sesc Pompeia, na capital paulista. A peça-jantar parte da famosa pintura de Leonardo da Vinci, que retrata o evento bíblico da refeição final de Jesus com seus apóstolos, para propor uma reflexão sobre o fim, o recomeço e a construção de memórias coletivas.
“O grupo existe há dez anos e criamos essa ficção de que o grupo acabaria nessa peça. Então seria a morte de um coletivo, não exatamente a morte de uma pessoa específica, mas a morte de uma ideia coletiva. Ao longo do processo, entendemos que, na verdade, a última ceia é sempre a penúltima, que o fim era um recomeço”, afirma o diretor João Turchi.
Turchi explica que a montagem nasceu de um debate interno sobre encerrar ou não as atividades do coletivo. “Quando começamos o processo, tinha uma sensação de que talvez fosse um final. Inclusive, quando estreamos o trabalho, várias pessoas perguntavam: ‘essa é a última peça mesmo?’. Um ano atrás, eu não saberia te dizer. Agora eu sei que não, estamos já ensaiando uma nova peça. Parece que [a peça-jantar] nos deu um gás, na verdade. É meio que falar sobre o fim do mundo para adiar o fim do mundo”, analisa.
Imagem e permanência
O diretor destaca que o espetáculo também dialoga com o poder da imagem, da tradição pictórica às redes sociais. “Como que essa imagem é um mural, uma fresca na parede, mas ao mesmo tempo está na casa de todos os brasileiros, está em vários refeitórios, em várias cozinhas? Ao olhar para uma imagem que durou tantos séculos, estamos pensando nas imagens que estamos produzindo agora. O que vai acontecer com essas imagens daqui a muitos séculos? Queremos ter o controle dessa narrativa, talvez, ao fazer essa peça”, indica.
A trajetória do grupo, que surgiu em casas de acolhida e mantém vínculos com a Casa do Povo, no Bom Retiro, atravessa a dramaturgia. “A trajetória do grupo, no fim das contas, afeta diretamente a dramaturgia em que chegamos, porque é a partir dessa trajetória que podemos decidir terminar ou continuar. Todas as questões do bairro, que no fim das contas é um microcosmo de São Paulo e do Brasil, estão presentes: desigualdades, diferenças, proximidades, como construir junto”, conta.
As tensões recentes em torno de espaços culturais sob a gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB) também atravessaram o processo criativo. “Artistas são tratados com balas de borracha e gás lacrimogêneo dentro do seu espaço de trabalho, de apresentação. Acho que tem uma sabotagem dessa gestão. Mas, quando estou em um dia esperançoso, acho que tem uma força do coletivo, das pessoas que querem ir ao teatro, que vai durar mais tempo do que essa gestão, tenho certeza”, aponta.
Serviço
A Última Ceia (Grupo Mexa)
- 29 de agosto a 7 de setembro de 2025
- Quartas a sábados: 20h
- Domingos: 19h
- Sessão extra: 5 de setembro (sexta), às 16h
- Sesc Pompeia – Rua Clélia, 93, Pompeia, São Paulo (SP)
- Ingressos à venda pelo site do Sesc ou nas bilheterias da rede Sesc
Para ouvir e assistir
O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.