Na tarde desta quinta-feira (2), manifestantes se reuniram em frente ao Palácio do Itamaraty, em Brasília, em solidariedade ao povo palestino e em protesto contra a prisão de ativistas brasileiros que participavam da mais recente missão da Flotilha pela Liberdade, interceptada por Israel em águas internacionais quando tentava levar ajuda humanitária à Faixa de Gaza. O ato reuniu estudantes, professores, movimentos sociais, sindicais e acadêmicos que exigem do governo federal uma resposta diplomática urgente.
Entre os detidos estão cidadãos brasileiros como o ambientalista Tiago Ávila, a vereadora Mariana Conti (Psol-SP) e outros militantes de diversas nacionalidades. As embarcações foram interceptadas por forças israelenses na última quarta-feira (1º), em uma área marítima a cerca de 160 milhas da costa de Gaza, considerada zona de risco para missões humanitárias.
A Flotilha pela Liberdade é uma coalizão internacional formada por ativistas de mais de 40 países. Desde 2010, a missão busca romper simbolicamente o bloqueio imposto por Israel à Faixa de Gaza, levando ajuda humanitária por via marítima. Nesta edição, as embarcações partiram da Espanha, Itália, Grécia e Tunísia. Ao todo, estima-se que mais de 500 pessoas participavam da operação.
A professora da Universidade de São Paulo (USP) e vice-presidenta do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes-SN), Anny Sho, explicou que a flotilha “tem um intuito histórico de quebrar o bloqueio imposto por Israel ao povo palestino, às suas águas e ao seu mar”. Segundo ela, “esse bloqueio é uma forma de apartheid que impede o povo palestino de acessar direitos básicos e seu próprio território marítimo”.
Ainda de acordo com Sho, as embarcações interceptadas levavam, além de ativistas, parlamentares e médicos voluntários. Ela relatou que, até o momento do ato, o paradeiro dos detidos era incerto, “Eles estão sequestrados, e a gente não sabe muito bem onde vão ser levados. A tendência é que sejam deportados, mas existe um perigo, por isso pressionamos o governo brasileiro a atuar pela libertação imediata desses civis”.
Situação em Gaza
Desde outubro de 2023, a Faixa de Gaza tem sido palco de uma escalada militar com intensos bombardeios por parte de Israel, além de ofensivas terrestres. A região, que abriga mais de 2 milhões de pessoas, enfrenta um bloqueio militar e econômico desde 2007, imposto por Israel com apoio de potências ocidentais. A Organização das Nações Unidas (ONU) e organizações humanitárias internacionais têm alertado para o risco de fome em massa e colapso sanitário, agravado pelo cerco e pela destruição de infraestrutura essencial.
A estudante de serviço social da Universidade de Brasília (UnB) e militante da Faísca Revolucionária, Luísa Dovi, afirma que a ofensiva atual “é uma escalada gigantesca do genocídio contra o povo palestino, com apoio dos Estados Unidos e do imperialismo europeu”. Ela destacou que os ativistas da flotilha estavam amparados pelo direito internacional e que sua detenção representa “mais um crime do governo Netanyahu contra civis desarmados”.
Além do apoio à libertação dos presos, o protesto também levantou demandas por rompimento de relações acadêmicas, diplomáticas e comerciais com o Estado de Israel. Os participantes destacaram o papel das universidades brasileiras nesse contexto, especialmente após o fechamento forçado de instituições de ensino na Palestina devido aos ataques.
“Estamos num momento em que reivindicamos que as universidades rompam suas relações com instituições israelenses, que participam do desenvolvimento tecnológico usado na repressão ao povo palestino”, disse Anny Sho. Ela lembrou que o Conselho Universitário da Unicamp, por exemplo, aprovou nesta semana o rompimento de vínculos com uma universidade israelense.
Luísa Dovi defendeu que não dá para falar em soberania, mantendo relações com o Estado de Israel:“as universidades que ainda mantêm acordos acadêmicos ou exportam conhecimento para empresas ligadas à repressão em Gaza estão, de alguma forma, colaborando com um genocídio”, enfatiza.
Já Maktos Fabiano, coordenador-geral do Diretorio Central (DCE) da UnB e militante do coletivo Juntos, comparou o cenário atual ao regime de apartheid na África do Sul, superado com apoio da comunidade internacional. “A solidariedade internacional foi indispensável para derrubar o apartheid sul-africano. Hoje, as universidades do Brasil e do mundo têm esse papel diante do apartheid israelense”, afirmou. Ele também pontuou que “os convênios com universidades israelenses legitimam a produção de tecnologia bélica e mantêm vivo o sistema de opressão”.
Brasileiros detidos
Segundo os manifestantes, há relatos de que os barcos foram levados a portos israelenses, mas as autoridades ainda não informaram oficialmente o destino dos tripulantes.
“É com muita tristeza e preocupação que dizemos que não sabemos o paradeiro dos brasileiros”, disse Maktos. “Se alguma coisa acontecer com eles, é preciso que o governo brasileiro e a comunidade internacional respondam à altura”.
O protesto em Brasília fez parte de uma onda internacional de solidariedade. Manifestações ocorreram em diversas cidades do Brasil e do mundo, como parte de uma campanha que pede o fim do cerco a Gaza e o respeito ao direito internacional humanitário.

