ARTIGO

Quem é o mercado e como um sistema sem alma se tornou sensível, dramático e bipolarmente respeitado

Essa entidade invisível, amorfa e completamente impune é tratada com mais delicadeza do que um filhote de panda alérgico

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O discurso do mercado é cheio de eufemismo: a estátua da “Menina sem Medo” encara o “Touro” de Wall Street | Crédito: Jewel Samad/AFP

Existe uma figura mitológica que assombra jornalistas econômicos, políticos indecisos, investidores emocionais e analistas de corretora que usam gravata para ir ao Zoom: o tal do “mercado”.

Ele não tem CPF, mas decide o futuro do país.

Não tem rosto, mas exige sacrifícios.

Não tem estômago, mas se estressa.

Não tem sentimentos, mas vive de mau humor.

Essa entidade invisível, amorfa e completamente impune é tratada com mais delicadeza do que um filhote de panda alérgico a notícias ruins. “O mercado reagiu mal”, dizem os portais, como se estivéssemos falando de uma criança mimada que não gostou do presente de aniversário. “O mercado ficou apreensivo”, informam os colunistas, como se o mercado tivesse ansiedade generalizada e precisasse de meditação guiada. “O mercado sorriu” — esse é o auge da comédia. Um sorriso que só existe quando os ricos lucram e os trabalhadores vão às favas em silêncio, de preferência com gratidão.

Vamos deixar claro: o tal do “humor do mercado” é o único humor do mundo que não tem graça nenhuma. Não há piada. Só instabilidade emocional institucionalizada. Um dia ele ama o país, no outro ele ameaça sair e nunca mais voltar. Lida com democracia como um adolescente lida com a mãe — só tolera se não atrapalhar os planos. E qualquer proposta de taxar milionários, regulamentar bancos ou tirar lucros da jogatina financeira é tratada como uma ofensa pessoal. O mercado, como todo sociopata funcional, detesta ser contrariado.

Você, cidadão comum, se atrasa cinco minutos no trabalho e corre o risco de ser demitido. O mercado? O mercado tem crise de ansiedade coletiva, porque alguém sugeriu aumentar o salário mínimo. E mesmo assim, continuam confiando nele como se fosse um oráculo sagrado, em vez de uma planilha descontrolada com um leve toque de psicopatia.

Mas afinal… quem é o mercado?

O mercado é um eufemismo elegante para designar os interesses de quem já ganhou o jogo e agora fiscaliza a regra para que ninguém mais vença. Ele não é neutro, nem técnico, nem uma “força natural”. Ele é composto por bancos, fundos de investimento, especuladores, consultorias, e aquele seu primo que fez um curso de day trade e agora fala em “diversificar ativos”, enquanto pede dinheiro emprestado.

O mercado tem personalidade, dizem os jornais. E ela é frágil, reativa e altamente volátil — ou seja, o mercado é um homem branco de 37 anos que investe em criptomoedas, odeia regulação e acha que Estado só serve pra garantir a ordem e pagar a conta quando tudo dá errado.

E tudo sempre dá errado, porque o humor do mercado é basicamente isso: uma oscilação contínua entre a euforia irresponsável e o pânico performático. Quando o governo corta verbas da saúde, o mercado “acena positivamente”. Quando se menciona taxar lucros e dividendos, o mercado “fecha o dia em queda”. Se o governo cogita proteger trabalhadores, o mercado “vê com preocupação”. Se privatiza algo a preço de banana, o mercado “antecipa ganhos”.

Note: o mercado nunca diz nada. Ele sente. Ele interpreta. Ele espera. Ele reage. Ele é, basicamente, um adolescente dramático com acesso a bilhões de dólares e nenhum senso de responsabilidade.

O humor do mercado é mais respeitado que o seu

Você pode estar em depressão profunda, mas se a Bolsa fechar em alta, o país “encerra o dia com otimismo”. Você pode estar vendendo almoço pra comprar janta, mas se o dólar cair dois centavos, o âncora do jornal abre um sorriso.

É como se estivéssemos vivendo em duas realidades: a da economia real (a sua), onde as coisas estão ruins; e a do mercado (a deles), onde as coisas estão ótimas desde que você fique quieto.

O mais irritante é que o mercado exige estabilidade, mas sobrevive do caos. Ele adora um colapso, desde que previsível. Crise climática? O mercado ajusta. Genocídio? O mercado “avalia riscos”. Golpe de Estado? Se for bom pro câmbio, o mercado “dá sinal verde”. Afinal, ele não é humano — é uma calculadora vestida de Armani.

O mercado não tem humor. Nós é que somos a piada.

A expressão “humor do mercado” é uma obra-prima da alienação semântica. Ela transforma uma estrutura violenta de concentração de riqueza e poder num suposto organismo emocional que precisa ser constantemente agradado, alimentado, elogiado, sedado e protegido. É o único psicopata que ganha flores ao surtar.

Enquanto isso, a sociedade real se desmantela com classe: os serviços públicos viram ruínas gourmet; o meio ambiente é terceirizado pra compensação de carbono; e o trabalhador se transforma em “empreendedor de si mesmo”, — uma expressão charmosa que significa “explorado sem direitos”.

Em resumo: o mercado não tem humor. Tem poder.

E a gente continua tratando isso como se fosse uma força da natureza, um bicho instável que precisamos alimentar com sacrifícios humanos — geralmente vindos das camadas mais baixas, que nunca são ouvidas quando estão de mau humor, chorando ou morrendo.

O dia em que o jornal anunciar “O mercado acordou triste, mas isso não importa mais”, aí sim estaremos vivendo algo novo. Até lá, seguimos monitorando o humor dessa entidade disfuncional, enquanto ignoramos completamente o humor real das pessoas.

*Gabriel Teles é professor de Sociologia na Universidade de Brasília (UnB) e pós-doutorado na mesma instituição, onde desenvolve pesquisa sobre mundo do trabalho e novas tecnologias

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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