De 10 a 16 de outubro, o grupo Ói Nóis Aqui Traveiz realiza o 6º Festival de Teatro Popular: Jogos de Aprendizagem, na Terreira da Tribo, em Porto Alegre. O evento marca o primeiro grande encontro no espaço desde a enchente de maio de 2024, que causou grandes prejuízos e obrigou o grupo a mudar de endereço. As apresentações serão realizadas na Terreira da Tribo (Avenida Pátria, 98) e no Parque da Redenção, com entrada franca. A edição deste ano trará o Teatro Grito, da Bolívia, com o espetáculo de teatro de rua Viagem al Corazón de La Madre Tierra e o espetáculo de dança-teatro de São Paulo, Amana, entre outros.
Segundo a atriz e atuadora Tânia Farias, o festival tem como eixo central o conceito do teatro como processo pedagógico. “O Festival Jogos de Aprendizagem surge com o desejo de colocar em cena o teatro como processo de aprendizado. A partir de um termo cunhado por Brecht, entendemos que não se trata de um teatro didático, mas de um jogo de aprendizagem. Quando participas do jogo, constróis o conhecimento de forma mais sólida e compreendes a realidade de outro modo”, explica Farias.
Ela destaca que essa perspectiva também orienta o trabalho pedagógico do grupo, que mantém a Escola de Teatro Popular e o projeto Teatro como Instrumento de Discussão Social, desenvolvido em bairros da Grande Porto Alegre. Essas experiências geram aprendizagem coletiva e construtiva, o que nos leva a discutir que tipo de pessoa e de artista queremos formar. Essa discussão ética e estética sempre atravessa o festival”, afirma.
Nesta edição, além da dimensão formativa, o evento traz como segundo eixo o enfrentamento à violência de gênero, refletindo o alarmante cenário de feminicídios no Rio Grande do Sul. “O estado tem mostrado sua pior face machista, com uma quantidade absurda de feminicídios. Abrimos o festival com o espetáculo Amana, palavra que, em tupi, significa ‘água que cai do céu, inspirado na história de Maria Glória, bailarina assassinada no Paraná. O trabalho é uma homenagem à Magó e à memória de tantas mulheres vítimas da violência de gênero”, explica Farias.

“Encerramos com Manifesto de uma Mulher de Teatro, uma criação minha, que também fala sobre o feminicídio, a partir da minha própria experiência. É uma forma de transformar dor em homenagem, de seguir dançando com Maria Glória e tantas outras”, acrescenta.
Entre os destaques da programação estão os espetáculos Medéia, Mulher Pássaro (de Genifer Gerhard, que estreia em Porto Alegre) e Nossa Senhora das Nuvens, exercício cênico criado por alunos da Escola de Teatro Popular. “São trabalhos que tratam da força das mulheres e da luta contra o silenciamento. A Genifer é uma mulher bonequeira, performer e mãe solo, e o espetáculo dela é delicado, cheio de nuances.”
A retomada do festival, segundo ela, tem um significado profundo após o trauma da enchente. “É o primeiro grande evento que realizamos depois da tragédia. Decidimos fazer por nossa conta e risco, com os recursos e a força do nosso trabalho. Porque entendemos que não há saída fora da comunidade, e foi a nossa comunidade que salvou o Ói Nóis e a Terreira”, afirma. “Abrir a Terreira novamente foi um espanto e um assombro. Sobrevivemos a algo terrível e seguimos tentando transformar o que restou em criação. Este festival é uma celebração dessa sobrevivência. É o ano da nossa Terreira Fênix”, completa.
Além das obras sobre gênero, o festival também abordará memórias das ditaduras latino-americanas, com performances como Onde Ação nº 2 e Dopinho, que evocam os desaparecidos políticos e as marcas da violência de Estado. “É importante trazer essa memória num momento em que ainda se fala em anistia a golpistas. A ditadura foi um período de tortura, assassinatos e desaparecimentos. Lembrar é um ato político”, ressalta Faria.
A programação também contará com a presença internacional do grupo boliviano Teatro Grito, que apresentará Viaje al Corazón de la Madre Tierra, e mantém o caráter ibero-americano e de acesso gratuito que sempre marcou o festival. “O Festival de Teatro Popular da Terreira da Tribo celebra a arte pública. Por isso, toda a programação tem entrada franca. É uma instância de trocas, de formação de público e de reencontros potentes num momento em que precisamos reafirmar a humanidade através da arte”, conclui.
Programação:
Amana – sexta, dia 10h, às 20h – Terreira da Tribo
Viagem al Corazón de La Madre Tierra – sábado, dia 11, às 16h – Parque da Redenção
Onde? Ação N. 2 – domingo, dia 12, às 12h, no Parque da Redenção
M.E.D.E.I.A – segunda, dia 13, às 20h – Terreira da Tribo
Mulher Pássaro – terça, dia 14, às 14h – Na Esquina Democrática
DOPINHO: um lugar de memórias sensíveis – terça, dia 14, às 20h – Terreira da Tribo
Nossa Senhora das Nuvens – quinta, dia 15, às 20h – Terreira da Tribo
Manifesto de uma Mulher de Teatro – sexta, dia 16, às 10h – Terreira da Tribo.
