Há 10 anos o navio Haidar, que transportava 5 mil bois vivos, naufragou no porto de Vila do Conde, no município de Barcarena, no Pará. A maior parte dos animais morreu e os corpos decompostos, além de 700 toneladas de óleo, provocaram um dos piores desastres ambientais do estado. Durante o seminário “10 anos depois: o naufrágio do navio Haidar”, realizado pelo Ministério Público do Pará, moradores das comunidades impactadas relataram como os impactos da tragédia ainda são presentes.
Barraqueiros, comerciantes e moradores de uma região vizinha ao berço 302 do porto municipal não sabiam que naquela terça, 6 de outubro de 2015, a praia onde ganham seu sustento mudaria para sempre. De repente, inúmeros bois surgiram nadando. A reação imediata dos moradores foi tentar salvar os animais. “Botaram carga mais para um lado do que pro outro e que o navio só fez tombar. Naquela altura eram 5000 cabeças de gado, e a maioria ficou preso no porão. Passou 24h e os cadáveres começaram a flutuar e começou a se espalhar na maré”, recorda Henrique Nery, presidente da Associação de Barraqueiros e Comerciantes da praia da Vila do Conde.
Por um mês, a comunidade conviveu com a praia assolada pelo fedor dos corpos em decomposição. Os turistas pararam de visitar a praia. Comércios locais de venda de peixe e carne de gado foram fechados, enquanto isso, 15 dias depois do acidente, os portos reabriram, para a revolta das comunidades que sofriam com a insalubridade e a perda de seu meio de sustento. “Fechamos todas as PAs, todas as rotatórias na frente das fábricas. Aí, quando a gente paralisou, eles chamaram para conversar.”
Contudo, a quantia recebida foi considerada insuficiente para mitigar os transtornos psicológicos, socioambientais e econômicos das comunidades.
Durante o seminário, lideranças locais denunciaram que o município de Barcarena já sofre impactos ambientais por ser um polo industrial e de mineração, que seriam responsáveis por afugentar o pescado, poluir solos e rios. Raimundo Almeida, da Associação de Pescadores Artesanais da ilha de Trambioca, relatou que problemas dermatológicos, estomacais e até pulmonares já eram recorrentes, e pioraram após o naufrágio. “Tivemos cinco casos de fibrose idiopática, com dois óbitos”, pontua.
Raimundo diz que as associações locais fizeram um levantamento que diagnosticou a redução em 70% a quantidade de pescadores artesanais nos últimos 20 anos. O peixe e o camarão diminuíram, e sem isso não tem como nós, pescadores, termos nosso sustento. Nós temos hoje um auxílio da prefeitura, que distribui 80 litros de água potável por família semanalmente, mas essa quantidade é insuficiente. Sabemos que nossos rios estão poluídos pelos rejeitos da mineração e do polo industrial, mas não sabemos o quanto, porque não existem dados”, conclui.
Comunidades ainda sofrem impactos
O promotor de justiça de Barcarena, Márcio Maués, ressaltou que o navio Haidar permanece afundado 10 anos depois, o que significa que até hoje segue impactando o meio ambiente. “Olhando a retrospectiva, a gente avalia que seria talvez necessário forçar um pouco mais a questão da remoção do navio, porque, na minha avaliação, a permanência dele no fundo do rio é a perpetuação de um crime ambiental e até por jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça. Enquanto a substância estiver em contato com o ambiente, o crime persiste”, analisou.
Sobre a denúncia dos moradores a respeito das indenizações e mitigações insuficientes, o promotor, que assumiu a promotoria local em 2024, avalia que na época foi feito o máximo possível diante das circunstâncias, mas reconhece que não foi suficiente para suprir os prejuízos. “Descobrimos que em 2015 foi feito um acordo judicial para a realização de um estuo de impacto ambiental integrado de todas as atividades do polo industrial e da mineração de Barcarena. Atualmente, cada empreendimento tem seu estudo em particular, mas entendemos que, dessa forma, poderemos ter uma dimensão mais exata do que, de fato, prejudica as comunidades tradicionais locais”, propôs.
Ministério Público defende a ilegalidade da exportação de bois vivos
O promotor defende que a exportação de bois vivos por via marítima deveria ser proibida. Há uma ação judicial tratando sobre essa questão tramitando na justiça federal desde 2017. Em fevereiro desse ano o Tribunal Regional da 3ª Região manteve a autorização para exportação, mas as organizações de defesa do direito animal recorreram ao STJ e o STF. Maués acredita que, pelo menos enquanto a prática for permitida, deveria ser adotada para essa modalidade o mesmo Termo de Ajuste de Conduta que funciona para venda de carne processada.
“O TAC da carne é um caso de sucesso do Ministério Público Federal. Estrangulou a atividade econômica e legal. Então, assim, qualquer criador de gado que queira vender para frigoríficos deve comprovar que aquele animal foi criado em uma área legalizada que atende critérios de desenvolvimento e um ambiente econômico”, argumenta. Segundo o promotor, a lógica é que, assim como os supermercados e os frigoríficos só podem comprar carne de origem legal, as empresas só poderão embarcar o animal se comprovarem que a origem dele também é lícita.
Paula Cardoso, responsável pelo Departamento jurídico da Mercy for Animals, denuncia que, assim como o Haidar, as embarcações utilizadas nessa atividade econômica são defasadas e inapropriadas. “A gente pode dizer com tranquilidade que as embarcações que fazem essa atividade são embarcações, em média 30 a 35 anos mais antigas do que a frota mercante. Eles são navios de casco raso que foram porque são de casco raso, porque foram construídos para outra finalidade”, enfatiza.
Paula recorda que a atividade apresenta diversos riscos à biossegurança, porque, animais que passam muitos dias em meio às suas próprias fezes, podem desenvolver doenças e essas doenças podem ser levadas para os países de destino. Então, segundo ela, é um risco pandêmico. “Sem contar que esse animal navega por 30 dias, exposto muitas vezes a um calor de 40º, sem espaço para se mexer, para ser abatido em países com legislações mais flexíveis onde não há uma preocupação com o sofrimento animal”, defende.
O Brasil de Fato entrou em contato com a CDP, com a Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade e com a Prefeitura de Barcarena.
Em nota, a Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade (Semas) informa que realiza fiscalização constante ao município, sempre que acionada, e aplica autos de infração mediante irregularidades. “O monitoramento ambiental do distrito é exigido pelo órgão ambiental no âmbito do licenciamento de cada empresa integrante do distrito industrial, desta forma, o monitoramento de ar, solo e água, são encaminhados sob a forma de relatórios ambientais, recebidos e validados pela secretaria”, diz o comunicado.
A CDP e a Prefeitura de Barcarena ainda não retornaram. O espaço segue aberto às manifestações.
*Reportagem atualizada às 20h43 do dia 9 de outubro de 2025 para inclusão de nota da Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Sustentabilidade.
