Após o governo de Burkina Faso recusar a proposta de Donald Trump de receber imigrantes deportados vindos dos Estados Unidos, Washington suspendeu a emissão de vistos para o país da África Ocidental.
A decisão foi anunciada pela embaixada dos Estados Unidos em Ouagadougou, na última quinta-feira (9), em seu site oficial. O ministro das Relações Exteriores do país do Sahel, Karamoko Jean-Marie Traoré, classificou o anúncio como uma forma de “chantagem”.
Um dia antes, o chanceler havia se reunido com os estadunidenses, onde recusou, por mais uma vez, segundo ele, a oferta estadunidense para receber deportados.
Durante entrevista concedida à emissora estatal RTB, na noite de quinta-feira, o ministro Traoré declarou: “Isso é uma forma de nos pressionar? É chantagem? Seja o que for… Burkina Faso é um lugar de dignidade, um destino, não um local de expulsão”.
A suspensão temporária vale para a emissão de vistos de imigrante, turista, estudante e negócios. A partir de agora, os cidadãos do país deverão se deslocar até a capital do Togo, Lomé, para solicitar vistos estadunidenses.
O comunicado do Departamento de Estado dos EUA afirma que Burkina Faso não teria respeitado as regras de visto estadunidenses e por isso foi incluído na lista de países com restrições de entrada ao país.
De acordo com Washington, “os requerentes de visto afetados foram informados sobre o cancelamento das marcações”.
Jean-Marie Traoré explicou que a última investida de Trump para tentar enviar os imigrantes para Burkina Faso foi feita durante a Assembleia Geral das Nações Unidas, em Nova York. Ouagadougou, no entanto, manteve a recusa.
O ministro chamou a proposta de “indecente” e “contrária ao valor da dignidade” defendido pelo presidente do país, o capitão Ibrahim Traoré, um dos líderes da Aliança dos Estados do Sahel (AES).
“Burkina Faso não pode ser um destino de deportação”, afirmou o ministro, acrescentando que a hospitalidade burkinabé com o africanos não pode ser “uma oportunidade para um país terceiro se livrar de populações que considera indesejáveis”.

Deportação para países africanos
A busca por países africanos como destino para deportar imigrantes tem sido uma marca da administração de Donald Trump. Nos últimos meses, vários países do continente, entre eles Essuatíni, Gana, Ruanda e Sudão do Sul, aceitaram receber pessoas de outros países deportadas dos Estados Unidos.
Na última segunda-feira (6), Essuatíni acolheu dez deportados, somando-se a outro grupo anterior de cinco pessoas que, de acordo com o governo estadunidense, eram “criminosos graves”. A Nigéria, por sua vez, declarou que não aceitará nenhum deportado vindo dos Estados Unidos.
“Sabemos que Essuatíni recebeu US$ 5 milhões e Ruanda US$ 7,5 milhões dos Estados Unidos para receber migrantes deportados pelo governo do presidente Trump. No entanto, aqui as coisas não funcionam da mesma forma e não aceitaremos dinheiro para receber pessoas acorrentadas e submetidas a condições desumanas. Não há muito mais a dizer sobre isso”, declarou o presidente de Burkina Faso, Ibrahim Traoré.
Nos últimos anos, levantes militares com apoio popular em três países da região africana do Sahel — Burkina Faso, Níger e Mali — iniciaram um processo de ruptura com o Ocidente e principalmente com a antiga colonizadora da região, a França. Ao reacender a confiança no pan-africanismo de Thomas Sankara, Ibrahim Traoré é hoje um símbolo deste processo revolucionário.
