Em outubro de 2025, o aniversário da Longa Marcha da China marca duas datas próximas: 91 anos desde a saída da província de Jiangxi em 16 de outubro de 1934, e 90 anos da chegada do Primeiro Exército Vermelho a Yan’an em 19 de outubro de 1935. A jornada épica de um ano e 12,5 mil quilômetros transformou uma retirada forçada sob cerco nacionalista no evento fundacional da revolução comunista chinesa.
A Longa Marcha foi uma retirada estratégica bem-sucedida que garantiu a sobrevivência do Exército Vermelho e do núcleo do Partido Comunista Chinês (PCCh), e consolidou Mao Zedong como o líder da revolução. A partir desse feito, o PCCh e o Exército Vermelho se tornaram um ator-chave na resistência contra a Agressão Japonesa, que triunfaria em 1945. O evento é considerado um dos maiores feitos revolucionários do século passado.
O crescimento em termos de conhecimento militar e de apoio popular a partir do reposicionamento estratégico também contribuiu para a vitória sobre o Kuomintang e a fundação da República Popular da China em 1949.
O contexto prévio
A Primeira Frente Unida foi uma aliança com o PCCh, fundado em 1921, e o Kuomintang (KMT, o Partido Nacionalista Chinês), para derrotar os senhores da guerra que tinham várias regiões da China sob controle e eram apoiados por potências imperialistas como Reino Unido, Japão e Estados Unidos, que tinham interesse em recursos e seriam beneficiados pela divisão na China. Ela durou aproximadamente de 1924 a 1927.
Pela aliança, os comunistas receberam permissão para se filiar individualmente ao KMT. No entanto, temendo a crescente influência do PCCh, em 1927 — durante a chamada Expedição do Norte, uma das campanhas contra os senhores da guerra — a ala direita do KMT, liderada por Chiang Kai-Shek, iniciou uma série de massacres contra comunistas e dirigentes sindicais e camponeses, episódio que ficou conhecido como o Terror Branco.
De março de 1927 ao primeiro semestre de 1928, o KMT, cometeu massacres e assassinou mais de 310 mil revolucionários, incluindo mais de 26 mil membros do Partido Comunista. Chiang rompe relações diplomáticas com a União Soviética.
O Terror Branco levou a uma transição estratégica do Partido Comunista para a luta armada. Sob a liderança de Zhou Enlai, Zhu De e outros líderes, em 1º de agosto de 1927, os comunistas, junto à ala mais à esquerda do KMT, protagonizaram uma revolta armada em Nanchang, na província de Jiangxi. A data marcou a fundação do Exército Vermelho dos Trabalhadores e Camponeses da China, o predecessor do atual Exército de Libertação Popular.
No mesmo ano, Mao Zedong conduziu a Revolta da Colheita de Outono na região de fronteira entre as províncias de Hunan e Jiangxi, que marcou um momento importante na perspectiva chinesa de guerrilha rural. Mao mudou o plano de tomar a capital de Hunan, Changsha, e decidiu ir para as áreas rurais para estabelecer bases revolucionárias no campo, onde o KMT tinha uma presença muito menor que nas áreas urbanas.
A partir de então, várias bases soviéticas chinesas foram estabelecidas na região até que em 7 de novembro de 1931, o PCCh funda o Governo Central Provisório da República Soviética da China, em Ruijin, na província de Jiangxi.
O Japão havia lançado há poucos meses a primeira ação que inaugurou a Agressão Japonesa, o incidente de Mukden, invadindo a Manchúria. Pouco tempo antes, Chiang Kai-shek definiu uma estratégia que priorizava a derrota dos comunistas: “para resistir à agressão estrangeira, devemos primeiro pacificar o país”, dizia a política oficial do governo nacionalista. O oposto do que pregavam os comunistas, e que acabou resultando na Segunda Frente Unida em 1937, após a intensificação dos massacres do Japão.
O cerco e aniquilamento nacionalista
A partir de 1930, os nacionalistas (o Kuomintang), levaram a cabo campanhas de cerco e aniquilamento das bases soviéticas. A primeira envolveu 100 mil soldados; na quarta (entre 1932 e 1933), já eram quase meio milhão de soldados do KMT; em todas elas, os nacionalistas saíram derrotados.
A quinta campanha entre 1933 e 1934 veio com uma quantidade significativamente maior de soldados (entre 700 mil e 1 milhão), e táticas diferentes. Os nacionalistas deixaram de ir às montanhas para formar um cerco com fortins conectados por estradas, que lhes permitiu ir avançando até reduzir significativamente o território soviético.
O avanço do KMT, foi atribuído aos erros de Bo Gu, secretário-geral do Comitê Central do Partido e o alemão Otto Braun (Li De), representante militar da Internacional Comunista. Zhou Enlai, era vice-Presidente da Comissão Militar Revolucionária Central, e compunha o triunvirato do poder político e militar nesse momento.
Mao Zedong, apesar de ter sido nomeado presidente do governo soviético provisório, havia sido excluído da tomada de decisões.
Em 10 de outubro de 1934, o Comitê Central do Partido Comunista e o Comitê Militar Revolucionário ordenaram que o Exército Vermelho Central, iniciasse sua retirada a partir de Ruijin e outras localidades em Jiangxi.
Sete divisões de cinco corpos do Exército Vermelho, totalizando aproximadamente 86.000 soldados, deixaram a base soviética e atravessaram o rio Yudu, no sul de Jiangxi, em oito pontos, dando início à Longa Marcha.
O difícil início da marcha
A ideia inicial não era fazer o longo percurso que durou um ano. Na saída, o objetivo era se reunir com os corpos segundo e sexto na província de Hunan. As circunstâncias acabaram fazendo com que os objetivos mudassem sete vezes.
A jornada total foi de 12 mil e 500 quilômetros (25 mil li, na medida de distância chinesa tradicional), e passou por 14 províncias, 18 cadeias montanhosas e 24 rios.
Das 86 mil pessoas que saíram de Jiangxi, chegaram ao destino final em Yan’an, Shaanxi, apenas 8 mil.
Logo no início, o Exército Vermelho sofreu a pior derrota de toda a marcha, a batalha no rio Xiangjiang de quase uma semana, reduziu as tropas para apenas 30 mil. As perdas terríveis foram atribuídas a erros de Braun e Bo Gu, como ordenar ataques frontais a posições fortificadas (a mesma decisão que levou à derrota na quinta campanha), o lento marchar (por carregar uma grande quantidade de equipamentos não militares) e a inflexibilidade em realizar retiradas estratégicas, entre outros.
Isso sentou as bases para um marco fundamental da marcha e da revolução em geral, a Conferência de Zunyi.
A consolidação da figura de Mao
Após a terrível derrota inicial, o plano de seguir para Hunan foi descartado, as tropas nacionalistas haviam se reposicionado nessa província. Mao propôs então que a marcha seguisse para a província de Guizhou, onde a presença do KMT era menor. A sugestão acabou sendo acatada.
Ao chegar em Zunyi, em Guizhou, a meados de janeiro, foi convocada uma reunião do Birô Político do Comitê Central do Partido, cujo objetivo principal foi analisar as derrotas militares recentes.
Mao criticou a estratégia de guerra posicional, ou seja, defender posições fixas de maneira frontal, adotada por líderes formados em Moscou como Bo Gu e Braun. A União Soviética contava com uma realidade diferente em termos de equipamentos, armamento e tropas. Além de ter superioridade numérica em soldados, o KMT tinha mais e melhor artilharia, além de aviões.
A Conferência de Zunyi reorganizou a liderança: o antigo comando foi substituído por um novo triunvirato composto por Mao Zedong, Zhou Enlai e Wang Jiaxiang, responsável por comandar o Exército Vermelho. A estratégia de guerra de guerrilha móvel de Mao foi oficialmente adotada. Embora ainda dentro de uma estrutura de liderança coletiva, Mao surgiu como a figura dominante em questões estratégico-militares, marcando um novo marco da sua ascensão à liderança do Partido.
A confirmação do acerto da mudança viria em seguida, nas bem-sucedidas Quatro Travessias do Rio Chishui. Durante dois meses na fronteira entre as províncias de Guizhou, Sichuan e Yunnan, o Exército Vermelho atravessou o rio em manobras imprevisíveis, fazendo o KMT mobilizar grande quantidade de tropas para regiões onde os comunistas acabavam não indo.
A maior ação de propaganda da história
O correspondente estadunidense Edgar Snow, em seu histórico livro Estrela Vermelha sobre a China, destaca que a Longa Marcha “foi a maior excursão de propaganda armada da história”.
“Os Vermelhos passaram por províncias povoadas por mais de 200 milhões de pessoas. Entre batalhas e escaramuças, em cada cidade ocupada, eles convocaram grandes reuniões de massa, realizaram apresentações teatrais, cobraram pesados impostos dos ricos, libertaram muitos escravos (alguns dos quais se juntaram ao Exército Vermelho), pregaram “liberdade, igualdade, democracia”, confiscaram as propriedades dos “traidores” (funcionários, grandes proprietários de terras e cobradores de impostos) e distribuíram seus bens entre os pobres”, relata Snow.
O efeito foi multiplicador. Os “Vermelhos” explicavam “os objetivos da revolução agrária e sua política antijaponesa (…) armaram milhares de camponeses e deixaram quadros para treinar os guerrilheiros vermelhos”, relata Snow.
“Muitos milhares partiram na longa e cansativa marcha, mas milhares de outros – agricultores, aprendizes, escravos, desertores das fileiras do Kuomintang, trabalhadores, todos os deserdados – juntaram-se e completaram as fileiras”, diz o primeiro jornalista estrangeiro a relatar a revolução comunista chinesa a partir do território.
Um novo começo
O Primeiro Exército Vermelho chega em Yan’an, na província de Shaanxi em 19 de outubro de 1935, marcando o fim da Longa Marcha, embora outros exércitos foram se somando até o ano seguinte, estabelecendo uma base territorial sólida até a vitória em 1949.
Com enormes sacrifícios, a Longa Marcha significou não apenas a salvação de um fim que chegou muito perto da revolução comunista chinesa. Foi muito além, transformando-se de uma retirada estratégica em uma ferramenta política massiva que conquistou ideologicamente amplas partes do país.
