Aniversário

Longa Marcha na China: como retirada do Exército Vermelho se tornou ferramenta de conquista de massas

Retirada de 12,5 mil km consolidou Mao, salvou revolução e transformou derrota iminente em vitória estratégica

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Exército Vermelho Atravessando as Planícies (红军过草) | 1976-77. | Crédito: Zhang Wenyuan (张文源). Óleo sobre tela. Museu Militar da Revolução Popular Chinesa

Em outubro de 2025, o aniversário da Longa Marcha da China marca duas datas próximas: 91 anos desde a saída da província de Jiangxi em 16 de outubro de 1934, e 90 anos da chegada do Primeiro Exército Vermelho a Yan’an em 19 de outubro de 1935. A jornada épica de um ano e 12,5 mil quilômetros transformou uma retirada forçada sob cerco nacionalista no evento fundacional da revolução comunista chinesa.

A Longa Marcha foi uma retirada estratégica bem-sucedida que garantiu a sobrevivência do Exército Vermelho e do núcleo do Partido Comunista Chinês (PCCh), e consolidou Mao Zedong como o líder da revolução. A partir desse feito, o PCCh e o Exército Vermelho se tornaram um ator-chave na resistência contra a Agressão Japonesa, que triunfaria em 1945. O evento é considerado um dos maiores feitos revolucionários do século passado.

O crescimento em termos de conhecimento militar e de apoio popular a partir do reposicionamento estratégico também contribuiu para a vitória sobre o Kuomintang e a fundação da República Popular da China em 1949.

O contexto prévio

A Primeira Frente Unida foi uma aliança com o PCCh, fundado em 1921, e o Kuomintang (KMT, o Partido Nacionalista Chinês), para derrotar os senhores da guerra que tinham várias regiões da China sob controle e eram apoiados por potências imperialistas como Reino Unido, Japão e Estados Unidos, que tinham interesse em recursos e seriam beneficiados pela divisão na China. Ela durou aproximadamente de 1924 a 1927.

Pela aliança, os comunistas receberam permissão para se filiar individualmente ao KMT. No entanto, temendo a crescente influência do PCCh, em 1927 — durante a chamada Expedição do Norte, uma das campanhas contra os senhores da guerra — a ala direita do KMT, liderada por Chiang Kai-Shek, iniciou uma série de massacres contra comunistas e dirigentes sindicais e camponeses, episódio que ficou conhecido como o Terror Branco.

De março de 1927 ao primeiro semestre de 1928, o KMT, cometeu massacres e assassinou mais de 310 mil revolucionários, incluindo mais de 26 mil membros do Partido Comunista. Chiang rompe relações diplomáticas com a União Soviética.

O Terror Branco levou a uma transição estratégica do Partido Comunista para a luta armada. Sob a liderança de Zhou Enlai, Zhu De e outros líderes, em 1º de agosto de 1927, os comunistas, junto à ala mais à esquerda do KMT, protagonizaram uma revolta armada em Nanchang, na província de Jiangxi. A data marcou a fundação do Exército Vermelho dos Trabalhadores e Camponeses da China, o predecessor do atual Exército de Libertação Popular.

No mesmo ano, Mao Zedong conduziu a Revolta da Colheita de Outono na região de fronteira entre as províncias de Hunan e Jiangxi, que marcou um momento importante na perspectiva chinesa de guerrilha rural. Mao mudou o plano de tomar a capital de Hunan, Changsha, e decidiu ir para as áreas rurais para estabelecer bases revolucionárias no campo, onde o KMT tinha uma presença muito menor que nas áreas urbanas.

A partir de então, várias bases soviéticas chinesas foram estabelecidas na região até que em 7 de novembro de 1931, o PCCh funda o Governo Central Provisório da República Soviética da China, em Ruijin, na província de Jiangxi.

O Japão havia lançado há poucos meses a primeira ação que inaugurou a Agressão Japonesa, o incidente de Mukden, invadindo a Manchúria. Pouco tempo antes, Chiang Kai-shek definiu uma estratégia que priorizava a derrota dos comunistas: “para resistir à agressão estrangeira, devemos primeiro pacificar o país”, dizia a política oficial do governo nacionalista. O oposto do que pregavam os comunistas, e que acabou resultando na Segunda Frente Unida em 1937, após a intensificação dos massacres do Japão.

O cerco e aniquilamento nacionalista

A partir de 1930, os nacionalistas (o Kuomintang), levaram a cabo campanhas de cerco e aniquilamento das bases soviéticas. A primeira envolveu 100 mil soldados; na quarta (entre 1932 e 1933), já eram quase meio milhão de soldados do KMT; em todas elas, os nacionalistas saíram derrotados.

A quinta campanha entre 1933 e 1934 veio com uma quantidade significativamente maior de soldados (entre 700 mil e 1 milhão), e táticas diferentes. Os nacionalistas deixaram de ir às montanhas para formar um cerco com fortins conectados por estradas, que lhes permitiu ir avançando até reduzir significativamente o território soviético.

O avanço do KMT, foi atribuído aos erros de Bo Gu, secretário-geral do Comitê Central do Partido e o alemão Otto Braun (Li De), representante militar da Internacional Comunista. Zhou Enlai, era vice-Presidente da Comissão Militar Revolucionária Central, e compunha o triunvirato do poder político e militar nesse momento.

Mao Zedong, apesar de ter sido nomeado presidente do governo soviético provisório, havia sido excluído da tomada de decisões.

Em 10 de outubro de 1934, o Comitê Central do Partido Comunista e o Comitê Militar Revolucionário ordenaram que o Exército Vermelho Central, iniciasse sua retirada a partir de Ruijin e outras localidades em Jiangxi.

Sete divisões de cinco corpos do Exército Vermelho, totalizando aproximadamente 86.000 soldados, deixaram a base soviética e atravessaram o rio Yudu, no sul de Jiangxi, em oito pontos, dando início à Longa Marcha.

O difícil início da marcha

A ideia inicial não era fazer o longo percurso que durou um ano. Na saída, o objetivo era se reunir com os corpos segundo e sexto na província de Hunan. As circunstâncias acabaram fazendo com que os objetivos mudassem sete vezes.
A jornada total foi de 12 mil e 500 quilômetros (25 mil li, na medida de distância chinesa tradicional), e passou por 14 províncias, 18 cadeias montanhosas e 24 rios.

Das 86 mil pessoas que saíram de Jiangxi, chegaram ao destino final em Yan’an, Shaanxi, apenas 8 mil.

Logo no início, o Exército Vermelho sofreu a pior derrota de toda a marcha, a batalha no rio Xiangjiang de quase uma semana, reduziu as tropas para apenas 30 mil. As perdas terríveis foram atribuídas a erros de Braun e Bo Gu, como ordenar ataques frontais a posições fortificadas (a mesma decisão que levou à derrota na quinta campanha), o lento marchar (por carregar uma grande quantidade de equipamentos não militares) e a inflexibilidade em realizar retiradas estratégicas, entre outros.

Isso sentou as bases para um marco fundamental da marcha e da revolução em geral, a Conferência de Zunyi.

A consolidação da figura de Mao

Após a terrível derrota inicial, o plano de seguir para Hunan foi descartado, as tropas nacionalistas haviam se reposicionado nessa província. Mao propôs então que a marcha seguisse para a província de Guizhou, onde a presença do KMT era menor. A sugestão acabou sendo acatada.

Ao chegar em Zunyi, em Guizhou, a meados de janeiro, foi convocada uma reunião do Birô Político do Comitê Central do Partido, cujo objetivo principal foi analisar as derrotas militares recentes.

Mao criticou a estratégia de guerra posicional, ou seja, defender posições fixas de maneira frontal, adotada por líderes formados em Moscou como Bo Gu e Braun. A União Soviética contava com uma realidade diferente em termos de equipamentos, armamento e tropas. Além de ter superioridade numérica em soldados, o KMT tinha mais e melhor artilharia, além de aviões.

A Conferência de Zunyi reorganizou a liderança: o antigo comando foi substituído por um novo triunvirato composto por Mao Zedong, Zhou Enlai e Wang Jiaxiang, responsável por comandar o Exército Vermelho. A estratégia de guerra de guerrilha móvel de Mao foi oficialmente adotada. Embora ainda dentro de uma estrutura de liderança coletiva, Mao surgiu como a figura dominante em questões estratégico-militares, marcando um novo marco da sua ascensão à liderança do Partido.

A confirmação do acerto da mudança viria em seguida, nas bem-sucedidas Quatro Travessias do Rio Chishui. Durante dois meses na fronteira entre as províncias de Guizhou, Sichuan e Yunnan, o Exército Vermelho atravessou o rio em manobras imprevisíveis, fazendo o KMT mobilizar grande quantidade de tropas para regiões onde os comunistas acabavam não indo.

A maior ação de propaganda da história

O correspondente estadunidense Edgar Snow, em seu histórico livro Estrela Vermelha sobre a China, destaca que a Longa Marcha “foi a maior excursão de propaganda armada da história”.

“Os Vermelhos passaram por províncias povoadas por mais de 200 milhões de pessoas. Entre batalhas e escaramuças, em cada cidade ocupada, eles convocaram grandes reuniões de massa, realizaram apresentações teatrais, cobraram pesados ​​impostos dos ricos, libertaram muitos escravos (alguns dos quais se juntaram ao Exército Vermelho), pregaram “liberdade, igualdade, democracia”, confiscaram as propriedades dos “traidores” (funcionários, grandes proprietários de terras e cobradores de impostos) e distribuíram seus bens entre os pobres”, relata Snow.

O efeito foi multiplicador. Os “Vermelhos” explicavam “os objetivos da revolução agrária e sua política antijaponesa (…) armaram milhares de camponeses e deixaram quadros para treinar os guerrilheiros vermelhos”, relata Snow.

“Muitos milhares partiram na longa e cansativa marcha, mas milhares de outros – agricultores, aprendizes, escravos, desertores das fileiras do Kuomintang, trabalhadores, todos os deserdados – juntaram-se e completaram as fileiras”, diz o primeiro jornalista estrangeiro a relatar a revolução comunista chinesa a partir do território.

Um novo começo

O Primeiro Exército Vermelho chega em Yan’an, na província de Shaanxi em 19 de outubro de 1935, marcando o fim da Longa Marcha, embora outros exércitos foram se somando até o ano seguinte, estabelecendo uma base territorial sólida até a vitória em 1949.

Com enormes sacrifícios, a Longa Marcha significou não apenas a salvação de um fim que chegou muito perto da revolução comunista chinesa. Foi muito além, transformando-se de uma retirada estratégica em uma ferramenta política massiva que conquistou ideologicamente amplas partes do país.

Editado por: Nathallia Fonseca

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