No dia 17 de outubro de 1985, quarenta anos atrás, dez mil mulheres lotaram o Estádio Beira-Rio em Porto Alegre. Porém, a multidão não foi para ver uma partida do Sport Club Internacional, dono da casa. Ali ocorria o 1º Encontro Estadual das Mulheres Trabalhadoras Rurais, ato que buscava o reconhecimento oficial da profissão de “trabalhadora rural” e a conquista de direitos básicos trabalhistas para a categoria, como a aposentadoria.
Marlise Fernandes era uma das organizadoras do Movimento Estadual das Mulheres Trabalhadoras Rurais, apelidado de “Margaridas”, e relembra o dia com orgulho. “Foi quase que uma invasão do Centro de Porto Alegre”, relata. Além do evento no estádio, elas realizaram uma passeata pela Capital.
“Foi muito emocionante. A maioria das mulheres jamais tinham viajado para longe, algumas nunca tinham saído do seu município. Era um dia de muita solidariedade, todo mundo caminhando de mãos juntas. Nós sentíamos uma força muito grande”, diz Marlise.
“Basicamente, quem falou foram as mulheres. E teve muito canto, muita poesia, muitas palavras de ordem. Nas falas, a situação e a vida, as expectativas do que poderia mudar. E de fato mudou”, comenta Marlise. “A gente era muito amadora, mas, ao mesmo tempo, muito sonhadora e cheia de esperança. Ficou esse gostinho de ‘quero lutar mais’”.

Contudo, no começo, o movimento encontrou resistência no interior gaúcho. “Muitas mulheres eram impedidas de participar pelos seus maridos e companheiros. E ainda tinha um olhar da sociedade de estranhamento”, expõe Marlise.
Mesmo com essa resistência, ela se manteve ativa na luta por direitos trabalhistas desde que se juntou ao movimento, aos 16 anos, em Três de Maio, cidade no noroeste do estado.
“Morava lá no interior, trabalhava na roça e comecei a participar de alguns movimentos de trabalhadores rurais. E sempre muito revoltada, indignada com a falta absoluta de qualquer direito para as mulheres. Eu cresci com essa revolta”, diz.
“Eu não queria o destino profissional da minha mãe, que não tinha direito nenhum”, confessa.
Com o tempo, as mulheres foram conquistando o apoio dos homens, em especial quando o movimento feminino aglutinou às suas demandas a questão do aumento do valor da aposentadoria.
À época, somente os homens trabalhadores do campo tinham direito de se aposentar, mas eles recebiam apenas meio salário mínimo. Assim, o movimento foi ganhando força no interior do Rio Grande do Sul.
Marlise conta que, próximo à data do Encontro Estadual, várias trabalhadoras rurais que queriam participar do evento começaram a arrecadar fundos em suas cidades com a venda de rifas, muitas comercializando produtos que recebiam de doação em apoio à causa.
Rapidamente, o número de participantes previstos cresceu até o total de 10 mil presentes naquela tarde em outubro de 1985.
“O ato foi no Beira-Rio, mas era para ter sido no auditório da Assembleia Legislativa. Uns dias antes, fizemos uma contagem de quantos ônibus que viriam e eram muitos. Então, fomos atrás de outro espaço e uma colega disse que na diretoria do Internacional tinham algumas pessoas mais ‘democratas’ que poderiam ceder o espaço”, lembra Marlise.
Pesquisa recupera história do Encontro Estadual
Manuela Pavoni, mestra em História pela UFRGS, abordou as Margaridas e o 1º Encontro Estadual de Mulheres Trabalhadoras Rurais em sua dissertação. Porém, a pesquisadora teve dificuldade em encontrar registros históricos daquele dia. “Esse encontro de 1985 não está em lugar nenhum”, diz.
Manuela conta que entrou em contato com a história dessas mulheres ao acaso quando decidiu assistir a uma live sobre o assunto durante a pandemia. Com a graduação, se interessou por esse tema, influenciada por ter à sua volta mulheres na família que passaram por esse processo de reconhecimento do seu trabalho.
“Eu sou de Guaporé. Minha família toda é de trabalhadores rurais e meu pai foi sindicalista na década de 80. E ele me contava a história desse tempo em que os homens se aposentavam aos 65 com meio salário mínimo e as mulheres não tinham esse reconhecimento. Tinham que se aposentar como costureiras ou com outras profissões na carteira”, afirma.
“Na maioria, eram mulheres que nem tinham documento de identidade. Eram sujeitos que estavam bem esquecidos, bem invisibilizados na questão de cidadania e de reconhecimento social”, destaca.
A pesquisadora também comenta sobre a dificuldade que o movimento encontrou no seu início para convencer outras mulheres de que o que elas faziam no cotidiano era, de fato, um trabalho e que merecia ser tratado como tal. “A profissão de trabalhadora rural tem esse atravessamento de gênero. Elas não entendiam que as atividades que elas faziam durante o dia, como lavar roupa, costurar, trabalhar na lavoura, era o trabalho rural. E fazer com que elas entendessem que elas também tinham direito”, aponta Manuela.

Manuela conta que as trabalhadoras rurais fizeram um abaixo-assinado que recolheu 100 mil assinaturas pelo reconhecimento da profissão de trabalhadora rural e pelo direito previdenciário de um salário integral para os mulheres e homens, ainda abaixando a idade mínima para a aposentadoria.
Com as assinaturas debaixo do braço, elas reuniram uma delegação para entregar, presencialmente, as demandas e o abaixo-assinado aos ministros em Brasília. “Elas foram muito valentes nesse período de fim da ditadura. Muitas nunca tinham visto asfalto e, de repente, estavam em Brasília, na Esplanada dos Ministérios”, comenta Manuela.
O ato de 1985 não foi o único. Outro evento reuniu 25 mil mulheres no Gigantinho, espaço ao lado do Estádio Beira-Rio. Em 1988, após pressão dos movimentos trabalhistas, a nova Constituição homologou a expansão da categoria de trabalhador rural às mulheres do campo, mudança implementada na década seguinte.
“Depois de 1988, quando o reconhecimento vem na Constituição, se desmobilizou”, aponta a pesquisadora. “Tem algumas que olham para trás com frustração pelo movimento ter se desmobilizado. Elas conseguiram os direitos e se desmobilizaram”.
Marlise não foi uma das que ficou frustrada com a desmobilização. Para ela, foi missão cumprida. “Foi muita emoção, muita alegria, e ao mesmo tempo um sentimento de que, a partir dali, eu estava liberada para seguir a minha vida. E segui. Saí do campo e fui para a cidade. Mas saí tranquila de que havia participado de um movimento para conseguir direitos para aquelas mulheres que tem uma vida muito difícil no campo”, afirma.
