O governo cubano denunciou nesta quarta-feira (22) que os Estados Unidos estão realizando uma campanha de “pressões intimidatórias e enganosas” direcionada a países terceiros, com o objetivo de impedir que votem a favor do projeto de resolução contra o bloqueio econômico à ilha que Cuba apresenta anualmente na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas).
Em coletiva de imprensa em Havana, o chanceler cubano, Bruno Rodríguez, afirmou que o Departamento de Estado dos Estados Unidos enviou cartas a diversos países — principalmente da Europa, América Latina e Caribe — com o intuito de intimidá-los e fazê-los modificar sua posição histórica em relação à resolução.
Segundo o ministro, as cartas teriam sido enviadas nos dias 8 e 17 de outubro, nas quais Washington instou os destinatários a “rejeitar” a resolução apresentada por Cuba, deixando subentendido que, caso contrário, os Estados Unidos poderiam adotar represálias contra esses países. “Nas últimas semanas, Washington tem ameaçado países aliados com a imposição de tarifas ou sanções a empresas privadas, caso mantenham sua postura favorável ao fim do bloqueio”, detalhou Rodríguez.
O chefe da diplomacia cubana afirmou ter tido acesso ao texto completo do Departamento de Estado, no qual os Estados Unidos tentam vincular Cuba ao terrorismo e ao narcotráfico. “Essa desculpa é usada por Washington para realizar um desdobramento militar ofensivo na região”, destacou.
De acordo com o chanceler, o objetivo das cartas seria “impedir, por meio de pressão, o voto relacionado ao bloqueio contra Cuba, sob o pretexto de que a ilha representa uma ameaça aos Estados Unidos”. Rodríguez classificou esse argumento como “um disparate muito perigoso”, lembrando que “é assim que começam as ações agressivas que podem ter consequências incalculáveis, como já se viu no passado com diversos países de várias regiões, ou como ocorre agora no sul do Caribe, com esse desdobramento extraordinário e incomum que ameaça todo o mundo”.
A comunicação estadunidense repete o que Cuba considera “uma grande mentira”: a suposta participação cubana no conflito da Ucrânia. Nas últimas semanas, diversos meios de comunicação insistiram nesse ponto, alegando que até 20 mil cidadãos cubanos teriam sido recrutados para lutar ao lado da Rússia. Havana denuncia essas acusações como parte de uma campanha de desinformação.
Segundo o chanceler, as cartas afirmam que, se os países votarem contra o bloqueio, “estarão legitimando a propaganda de Cuba e prejudicando os aliados democráticos dos Estados Unidos no hemisfério ocidental”.
Posição cubana e contexto da resolução
De acordo com o que chamou de “manobra proibida”, Rodríguez afirmou que o texto enviado aos diversos países alega que “ser aliado dos Estados Unidos significa apoiar o país contra forças que prejudicam, enfraquecem e corroem a liberdade e a segurança nacional no hemisfério ocidental”.
O chanceler respondeu que “essa ansiedade reflete o fato de que o governo dos Estados Unidos reconhece que a comunidade internacional, em sua imensa maioria, acredita e apoia a necessidade de pôr fim ao bloqueio”, acrescentando ter “absoluta certeza” de que Cuba conseguirá reafirmar sua posição na próxima Assembleia Geral da ONU.
Todos os anos, Cuba apresenta à Assembleia Geral da ONU o projeto de resolução “Necessidade de pôr fim ao bloqueio econômico, comercial e financeiro imposto pelos Estados Unidos da América contra Cuba”. Trata-se de uma resolução em que a ilha detalha como o bloqueio viola o direito internacional, afeta terceiros países — que são sancionados pelos Estados Unidos caso mantenham relações com Cuba — e constitui uma violação dos direitos humanos.
Cuba apresenta essa resolução ininterruptamente desde 1992. Nos últimos 32 anos, a Assembleia a aprovou com apoio quase unânime da comunidade internacional, com exceção dos Estados Unidos, de Israel e de alguns aliados ocasionais.
A Assembleia Geral da ONU deve votar em 29 de outubro a resolução apresentada por Cuba. O documento inclui um relatório sobre os danos causados pelo bloqueio no período de março de 2024 a fevereiro de 2025, que, segundo cálculos do governo cubano, somam US$ 7,5 bilhões.
O chanceler cubano demonstrou confiança no respaldo internacional. “Tenho certeza de que a esmagadora maioria dos Estados-membros votará mais uma vez pela verdade e com a verdade; pela justiça e com a justiça. Votará para exigir o fim do bloqueio. Tenho certeza de que a verdade prevalecerá sobre a pressão, a chantagem e a calúnia”.
