Vitória legislativa

Apoio dos EUA fortalece Milei e amplia influência da direita na América Latina, diz sociólogo

Sociólogo Pablo Semán aponta intervenção nas eleições argentinas e alerta para dependência econômica e crise da oposição

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O alinhamento entre Milei e Trump é parte de uma tentativa dos EUA de consolidar sua influência sobre governos e eleitorados da região | Crédito: KEVIN DIETSCH/AFP

O apoio dos Estados Unidos ao governo de Javier Milei tem ampliado o peso político da extrema direita na América Latina, avalia o sociólogo Pablo Semán, professor da Universidade Nacional de San Martín. Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, ele afirmou que o presidente Donald Trump interferiu diretamente no resultado da eleição parlamentar argentina e agora busca garantir a estabilidade de um governo alinhado aos seus interesses.

As eleições legislativas, realizadas no último domingo (26), deram ao partido de Milei, La Libertad Avanza (LLA), cerca de um terço das cadeiras da Câmara e do Senado, o que deve permitir ao presidente consolidar sua agenda ultraliberal com apoio de aliados como o Proposta Republicana (PRO), do ex-presidente Mauricio Macri.

“A primeira ajuda que o presidente dos Estados Unidos deu foi a intervenção do Tesouro dos Estados Unidos na corrida contra o peso, que permitiu a Milei ganhar a eleição”, disse. “Há o interesse, ao menos de uma parte do governo dos Estados Unidos, de que a situação política na Argentina se mantenha da forma que está agora”, explicou.

Nos meses que antecederam a eleição, houve uma queda de cerca de 40 % no valor do peso em relação ao dólar. Os Estados Unidos, então, realizaram um empréstimo no valor de US$ 20 bilhões para o Banco Central da Argentina.

Segundo o pesquisador, o envolvimento estadunidense serviu como um fator de estabilização momentânea da economia argentina, mas pode não se sustentar. “O valor estratégico da Argentina não é tão importante como para [os Estados Unidos] fazerem esse investimento tanto tempo”, avaliou.

América Latina sob influência

Para Semán, o alinhamento entre Milei e Trump é parte de uma tentativa dos EUA de consolidar sua influência sobre governos e eleitorados da região. “A Argentina parece ser a publicidade da incidência dos Estados Unidos na América Latina, uma tentativa de mostrar: isto é o caminho, isto é o que deve ser feito”, afirmou.

Ele observou que, em países como Chile, Bolívia e Peru, onde partidos de direita e extrema direita também têm ganhado espaço, a presença norte-americana tende a ser recebida de forma mais positiva. “Talvez estejamos em um momento em que o que nós conhecíamos como uma consciência antimperialista agora não é necessariamente uma fonte de atrito. Tem países da América Latina que estão recebendo as intervenções dos Estados Unidos como uma coisa boa”, disse o sociólogo.

Crise da oposição e enfraquecimento do peronismo

Semán também analisou a fragilidade da coalizão peronista Força Pátria, principal força opositora do governo Milei. “Vai ser difícil o papel da oposição porque é uma força finalmente heterogeneizada pelos seus próprios conflitos”, afirmou. “O peronismo só consegue manter os votos, mas não consegue expandir a sua área de votação”, analisou.

A aliança Força Pátria reúne setores ligados aos ex-presidentes Alberto Fernández e Cristina de Kirchner e ao ex-ministro da Economia Sergio Massa, que foi derrotado por Milei nas eleições presidenciais de 2023.

Para o pesquisador, a derrota eleitoral do peronismo reflete um distanciamento das bases sociais e a falta de renovação política. “Cada vez que [a coalizão] vai às eleições, vai sempre com a mesma proposta de retornar ao passado, de botar um limite a Milei, e isso não é suficiente para ganhar novas eleições”, apontou.

Para ouvir e assistir

O jornal Conexão BdF vai ao ar em duas edições, de segunda a sexta-feira: a primeira às 9h e a segunda às 17h, na Rádio Brasil de Fato98.9 FM na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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