Mais de 120 mortos, entre policiais, moradores e pretensos criminosos. Quase cem prisões. Pânico e horror. Durante a manhã de hoje, 29 de outubro, mais corpos estão sendo encontrados nas vielas, matos e encostas. Os dados são incertos, nem o governo sabe ao certo. O governador Cláudio Castro planejou e autorizou a ação que envolveu 2,5 mil policiais.
No Rio de Janeiro, crime e violência são constantes. A cidade tornou-se capital do vice-reinado em 1763, facilitando o embarque do ouro e pedras preciosas das Minas Gerais. No porto, contrabando, subornos, desvios, praticados pelos agentes responsáveis pela ordem. Em 1808, a corte portuguesa instala-se na cidade. Para alojar a nobreza e o governo, 10 mil casas foram tomadas, despejando moradores de madrugada. Violência e impunidade.
A população escravizada era principalmente urbana, servindo aos senhores para lida doméstica ou para ganho. O RJ tinha, neste período, a maior população de escravizados do país. Com a abolição, ocuparam casarões abandonados pela corte, os cortiços, sendo depois empurrados para os morros, sem nenhum tipo de assistência.
A cruel combinação de violência, impunidade, ausência de serviços públicos, corrupção policial e dos governantes (exceto Benedita da Silva, todos os governadores pós 82, todos os ex-presidentes da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e cinco dos seis conselheiros do Tribunal de Contas foram presos). Milícias disputam com o tráfico, a legislação arcaica sobre drogas privilegia os grandes traficantes, sem exposição e risco. Racismo e desigualdade. Muita desigualdade.
Nenhum motivo, porém, justifica a chacina. Porque os motivos são outros! O primeiro: ofuscar a popularidade do governo federal, vitorioso na condução da crise das tarifas. Lula e Trump reunidos, “Bolsonaro não está na pauta”, foi demais para a extrema direita. O segundo, mais perverso, é normalizar a ideia de que o Rio está tomado por “narcoterroristas”, endossando o discurso e a intenção de Trump, o que justificaria a intervenção estadunidense, sonhada pelos bolsonaristas. O terceiro motivo é comercial: o enfraquecimento do Comando Vermelho permite que milícias ocupem áreas de seu interesse.
A maior chacina do Brasil, maior que a chacina do Carandiru. Nada de resolver problemas da segurança, nenhum combate ao crime organizado. Foi matança pura. Brutal, injustificável. Cláudio Castro precisa responder por todo este sangue.
*Regina Abrahão é integrante de Coletivo Canal Pão com Ovo
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato.
