Nos últimos anos, o Brasil tem assistido a um avanço articulado de grupos que, sob o pretexto de proteger mulheres e crianças, têm se dedicado a atacar sistematicamente os direitos das pessoas trans. Esse movimento não é marginal nem espontâneo, mas faz parte de uma ofensiva global contra o gênero, impulsionada por setores da extrema direita e por think tanks conservadores que, desde 2010, vêm financiando campanhas internacionais para substituir o termo identidade de gênero pelo termo sexo biológico em documentos oficiais da ONU.
Em 2019, essa ofensiva se consolidou com a Declaração dos Direitos das Mulheres Baseados no Sexo, que propunha restringir o reconhecimento de gênero à biologia e excluir pessoas trans do conceito de mulher.
Nesse contexto, a LGB Alliance, criada no Reino Unido, transformou essa retórica em bandeira. Sob o argumento de recuperar um pretenso sentido original do movimento LGB, difundiu a ideia de que o ativismo trans seria uma ameaça à causa das mulheres e à liberdade de expressão. Essa narrativa se expandiu pelo Leste Europeu e pela América Latina, ganhando versões locais que reproduzem o mesmo discurso.
Como apontam Thiago Coacci e Mallu Almeida (2025), essa rede representa a nova face da transfobia organizada. Esses grupos adotam uma retórica moderada e palatável, apropriando-se de bandeiras históricas do movimento LGBTQIA+ para mascarar sua agenda de exclusão. Em nome de um discurso de liberdade e autonomia, oferecem uma versão higienizada da transfobia, que se apresenta como racional e civilizada, mas que serve ao propósito de negar humanidade e cidadania às pessoas trans.
A fragmentação é, aqui, uma tática política deliberada.
Ao dividir o movimento entre “LGB” e “T”, a extrema direita encontra terreno fértil para desacreditar o ativismo e enfraquecer conquistas históricas. Essa divisão permite que governos e parlamentares autoritários aleguem inexistência de consenso e, assim, paralisem políticas públicas e bloqueiem avanços legais que beneficiariam toda a comunidade. O discurso da independência serve, portanto, para legitimar a cisão e reforçar o poder dos mesmos grupos que sempre se opuseram aos direitos LGBT+.
O Dossiê Mátria, lançado em 2025 pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra), com o apoio de universidades federais e diversas organizações, mostra como essa agenda global se manifesta no Brasil. O documento evidencia que a Associação Mátria atua em sintonia com essa rede transnacional, apropriando-se do discurso da defesa das mulheres para questionar decisões do STF, como a ADI 4275, que trata sobre a autodeterminação de gênero, e a ADO 26, que trata sobre a criminalização da homotransfobia. O argumento da proteção serve como justificativa para práticas sistemáticas de exclusão.
Como mostra Inaê Iabel Barbosa (UFSC, 2023), o que está em jogo nessas políticas antigênero não é a preservação de valores ou tradições, mas a definição de quem tem o direito de existir. Em sua análise sobre as ofensivas bolsonaristas em Santa Catarina, Iabel Barbosa demonstra que esses discursos operam pela negação da legitimidade de certos corpos, sobretudo os corpos trans, convertendo-os em ameaça à ordem social. É um processo de desumanização que age antes da violência física, desautorizando pessoas a ocuparem o campo do reconhecível, do dizível, do humano.
Trata-se, portanto, de uma disputa sobre a própria possibilidade de existir. As mesmas vozes que dizem defender as mulheres o fazem ao custo de expulsar mulheres trans da categoria de mulher, reinstaurando um regime de pureza biológica que o feminismo histórico e emancipatório há muito combate.
E é preciso lembrar: as lésbicas também já foram silenciadas dentro do próprio movimento feminista. Durante muito tempo, a lesbianidade foi tratada como um tema incômodo, um desvio que ameaçava a unidade política das mulheres.
Muitas feministas foram constrangidas a negar sua orientação ou a manter distância das pautas lésbicas para evitar que o feminismo fosse reduzido à “questão sexual”. As demandas das lésbicas eram frequentemente classificadas como de segunda categoria, ou seja, menos urgentes, menos políticas, menos universais. O que vivenciamos agora é a reedição desse mesmo gesto de hierarquização dos corpos e das lutas. Ontem, a marginalização das lésbicas; hoje, a tentativa de expulsar transexuais do campo do humano.
A exclusão, contudo, não se limita às mulheres trans. Homens trans, pessoas não binárias e travestis também enfrentam o peso de um sistema que reconhece apenas duas formas legítimas de ser, quais sejam, o homem cis e a mulher cis. Os homens trans são frequentemente invisibilizados tanto pelo feminismo hegemônico quanto pelos próprios discursos sobre masculinidade, porque desafiam a ideia de que ser homem é sinônimo de poder e dominação.
Já as pessoas não binárias expõem, com sua própria existência, o quanto o gênero é uma ficção política que tenta enquadrar corpos e afetos em categorias fixas. E as travestis seguem sendo tratadas como o corpo que deve ser contido, eliminado. Essas experiências revelam que a cisnormatividade produz exclusão em todas as direções, pois define quem é inteligível, quem é respeitável e quem merece viver. Lutar contra ela é, portanto, lutar por todos nós.
Mas se há uma máquina de exclusão em curso, há também uma contra-ofensiva de alianças dissidentes. No Brasil, diversos coletivos de lésbicas têm reafirmado o compromisso histórico de que não há liberdade sapatão sem liberdade trans, e vice-versa. Em tempos de censura, violência e desinformação, essa coalizão encarna, conforme Audre Lorde, a diferença como força criadora, ou um modo de resistir que não busca homogeneizar, mas construir solidariedade na fricção e na escuta.
Ser lésbica nunca foi, nem será, um ato de exclusão. A lesbianidade foi forjada como uma recusa às normas que pretendem domesticar o desejo e enquadrar os corpos. A mesma lógica que tenta disciplinar corpos lésbicos é aquela que busca apagar corpos trans, operando como uma máquina de normalização que define quem é humano o bastante para ser respeitado.
O feminismo lésbico, portanto, não pode se tornar cúmplice da exclusão trans. A luta contra o patriarcado e a heteronormatividade é inseparável da luta contra a cisnormatividade. Nenhuma política de defesa das mulheres pode se sustentar sobre o apagamento de outras mulheres. O feminismo não precisa de fronteiras biológicas para existir. Ele precisa de ética, solidariedade e coragem.
O feminismo que defendemos não é o da exclusão, mas o da liberdade. E liberdade não se compartimenta entre corpos cis e corpos trans. Enquanto houver corpos em disputa, estaremos ao lado de todas as dissidências que ousam existir.
Referências
COACCI, Thiago; ALMEIDA, Mallu. LGB sem T: a nova face da transfobia em movimento. Le Monde Diplomatique Brasil, 7 out. 2025.
Dossiê Mátria: redes antigênero e ofensivas contra pessoas trans no Brasil. Brasília: ANTRA, 2025.
Iabel Barbosa, I. Proibição da linguagem neutra em Santa Catarina: a construção do pânico moral da criança, da língua portuguesa e da pessoa com deficiência em ameaça. Florianópolis: Universidade Federal de Santa Catarina, 2023. Dissertação.
*Ana Souto é pesquisadora e doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Administração da Universidade de Brasília (PPGA/UnB).
*Coturno de Vênus é uma Associação Lésbica Feminista sediada em Brasília.
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.
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