DEBATE

O falso medo da polarização

Nos últimos anos, parte do discurso público passou a confundir 'não polarizar' com 'não debater'

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Herdeiro de um cenário de polarização política que ainda não foi superado, Lula precisa reverter uma rejeição de cerca de 42% da população à sua figura | Crédito: SERGIO LIMA / AFP

Hoje é comum ouvir: “não queremos polarizar”. Parece uma frase inofensiva, até nobre. Mas, muitas vezes, ela mascara um equívoco: confundir o debate democrático com o conflito estéril.

O Brasil conhece polarização desde 1989. Lula (PT) x Collor (PRN), Lula (PT) x José Serra (PSDB), Lula  (PT) x Alckmin (PSDB), Dilma (PT) x Serra (PSDB), Dilma (PT) x Aécio Neves (PT), Bolsonaro (PSL) x Haddad (PT), Lula (PT) x Bolsonaro (PSL). Cada uma dessas disputas ajudou a construir nossa democracia. Divergir é natural, saudável, parte do processo político. O problema não é a polarização: é quando ela se transforma em intolerância, quando o adversário deixa de ser concorrente e passa a ser tratado  como inimigo a ser eliminado.

Pesquisas em ciência política mostram que a polarização ideológica é positiva quando institucionalizada. Giovanni Sartori observou que sistemas políticos plurais se fortalecem quando partidos e candidatos apresentam posições claras e contrastantes. Essa disputa orienta o eleitor, mobiliza a sociedade e permite que diferentes projetos de país se confrontem de maneira transparente. O perigo surge quando a polarização se torna afetiva: quando opiniões divergentes geram ódio, desconfiança e negação da legitimidade do outro. Autores como Lilla e Hetherington destacam que a polarização afetiva corrói a democracia e fragiliza instituições, porque transforma o debate em batalha moral, em que quem pensa diferente não merece sequer ser ouvido.

Nos últimos anos, parte do discurso público passou a confundir “não polarizar” com “não debater”. Essa falsa neutralidade cria um silêncio que favorece a concentração de poder e enfraquece o diálogo social. O medo do confronto leva a uma aparente harmonia que, na prática, esconde tensões não resolvidas, prejudicando a construção coletiva de políticas públicas e de consensos sociais.

Nesse contexto, o papel do Estado, e especialmente do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar, é essencial. É nosso dever criar pontes, mediar conflitos, garantir que todas as vozes sejam ouvidas e que o debate ocorra com respeito às diferenças. O diálogo público é uma ferramenta tão estratégica quanto os investimentos em políticas de desenvolvimento rural, apoio à agricultura familiar e inclusão social.

O Brasil não precisa de menos polarização: precisa de mais democracia. Precisamos debater ideias, respeitar divergências, enfrentar os conflitos de forma transparente e civilizada. Quando saudável, a polarização não divide o país: organiza, esclarece, fortalece a democracia e aproxima a sociedade de soluções coletivas. Ignorar ou temer o confronto de ideias seria negar uma característica central da nossa história política e comprometer o futuro do debate público.

*Milton Bernardes é superintendente do Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA) no Rio Grande do Sul.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha do editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Vivian Virissimo

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