Moradores do Complexo na Penha, na zona Norte do Rio, manifestaram nesta sexta-feira (31) sentimento de dor e indignação com a operação policial que resultou no massacre de 120 pessoas. Entre gritos de “justiça” e “fora Cláudio Castro”, milhares vestidos de branco participaram do ato simbólico no Campo do Ordem, localidade na Vila Cruzeiro, uma das 13 favelas que formam o conjunto.
Uma delas foi dona Zilda, que falou ao jornal Voz das Comunidades. “Sou mãe, avó, estou sentindo uma dor que está engasgada”, resumiu a moradora de um bairro próximo ao complexo. Ela disse que se identifica com a dor das mães, pois elas, acima de tudo, perderam seus filhos.
“A gente pensa neles [nos mortos], mas eles se foram. A dor que fica é das famílias, daquelas mães. Tenho filho preto, tenho netas pretas, moro na favela. Isso [operação], além de tudo, dá um medo terrível na gente, e a gente não pode viver assim. Polícia foi feita para prender e fazer valer a lei, ali foi feito um genocídio, carnificina, a gente não encontra nome mais. É medo, é pavor, é angústia, tristeza, raiva, é tudo”, disse dona Zilda. Assista neste link.
“Digo que somos irmãos de terra, não só aqui no Complexo, mas de todas as favelas porque passamos as mesmas coisas como favelado, pessoas pretas, pobres, que lutam e tem sonhos. A gente quer trabalhar, criar filho, viver. Eles cortam isso da gente”, completou.
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O sentimento da dona Zilda representa o de muitos moradores de favelas no Rio de Janeiro. Especialistas e organizações de direitos humanos apontam que a ação foi desastrosa e que, na verdade, houve violência institucional com objetivo eleitoreiro. Há ainda denúncias de violações e execuções sumárias. Entre as vítimas fatais estão civis e também policiais.
Para o governador Cláudio Castro (PL), a ação que entrou para a história como a mais letal foi considerada um “sucesso”. O balanço é de 118 armas apreendidas e 113 pessoas presas. O principal alvo, no entanto, continua foragido. Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, é apontado como um dos líderes do Comando Vermelho (CV). O Disque Denúncia oferece recompensa de R$ 100 mil a informações que levem à sua prisão.
Sangue da favela como moeda eleitoral
Ao Brasil de Fato, Alan Brum, do instituto Raízes em Movimento, afirmou que a chacina foi deliberada. Ele participou da busca de mais de 70 corpos na área de mata da comunidade e conta que viu uma sequência de torturas. Até o momento, o Instituto Médico Legal (IML) identificou 100 dos mortos na Operação Contenção.
“Eu carreguei corpos e vi. Todos os meninos com cabelos vermelho eram degolados, outros foram retirados os dedos para que houvesse dificultasse na identificação. Sem falar o quanto de corpos foram escondidos nessa mata. Foi tudo muito bem articulado, pensado para assassinar, para ocorrer este resultado. Não foi desvio de percurso, o planejamento foi exatamente para isso”, constata Brum.

Para a liderança comunitária do Alemão, além de repudiar a chacina como política de segurança, o ato acende um alerta nas favelas sobre a próxima eleição: “Todos os lados das grandes candidaturas ao governo do Estado estão com a bandeira da segurança pública. Um lado armando a guarda municipal e o outro lado tentando recuperar essa agenda para si. Precisamos ficar atentos, porque é dessa lógica de trocar o sangue da favela como moeda eleitoral para o ano que vem como política de segurança”.
Também presentes no ato, Júlio Condaque e Maristela Farias do Quilombo Raça e Classe, ressaltaram o caráter político da operação. “São vidas e não temos pena de morte no Brasil. Estão aqui todos os sindicatos, parlamentares, movimento negro, reafirmando que a operação foi um genocídio. A causa foi de interesse político por parte do governador e houve intenção de matar puro e simplesmente”, disseram.
Política na ponta do fuzil
Além de prestar solidariedade aos milhares de moradores da Penha e do Alemão, parlamentares ouvidos pelo Brasil de Fato afirmaram que o ato desta sexta (31) coloca um contraponto à narrativa do governo Castro de que a operação foi bem-sucedida para a segurança no Rio de Janeiro. “Assassinar pessoas não vai promover a paz, só vai instituir mais caos”, resume o Pastor Henrique Veira (Psol-RJ).
“Mobilização, familiares, lideranças, movimentos, direitos humanos, pessoas de todas as faixas etárias, sobretudo, moradores e moradoras, pedem inteligência [na segurança pública], justiça e verdadeira paz, não esse espetáculo para promover política enquanto a favela sofre”, disse o deputado federal.

Tarício Motta (Psol-RJ) classificou a ação de massacre, que “continua a tratar a favela como território inimigo e todo favelado como bandido”. Para Motta, também é preciso demonstrar com esse ato que a comunidade do Complexo da Penha não está sozinha nesse momento de dor.
“Tem muita gente no Rio de Janeiro que não está aplaudindo, muito pelo contrário, está denunciando essa chacina e esse massacre que continua a negar o direito a paz e a segurança a essas pessoas que estão aqui”, afirma.
Já a vereadora Maíra do MST (PT) cobrou a de federalização das investigações e a responsabilidade de Castro pelas mortes produzidas no seu governo. “O que o estado do Rio vem fazendo está na contramão de operações federais para desmantelar o tráfico de drogas e armas. A gente repete uma lógica de entrar nas favelas com poder bélico quando, na verdade, é preciso entender as favelas como parte da resposta, que tem movimentos sociais organizados, iniciativas culturais. Mas o Estado só aparece para promover chacinas”, disse Maíra.
A deputada estadual Marina do MST (PT-RJ) protocolou na Assembleia Legislativa (Alerj) um pedido de abertura de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as ilegalidades e abusos da Operação Contenção.
“Nosso mandato esteve presente no ato de hoje principalmente para estar ao lado das famílias que choram seus mortos e de uma comunidade que precisa se reconstroir. O que aconteceu aqui não é segurança pública — é uma chacina, é uma política de extermínio que o governo Cláudio Castro insiste em chamar de operação. O Estado não pode tratar o povo da favela, o povo preto e pobre como inimigo. A dor dessas mães é a prova do fracasso de um governo que governa com sangue”, pontuou Marina.