O espetáculo “Confessionário – Relatos de Casa” estreia neste sábado ( 1º), em Porto Alegre, com duas sessões gratuitas, às 18h e 20h30, no Teatro da PUCRS (Prédio 40). A entrada é solidária, mediante doação de absorventes. A primeira sessão contará com acessibilidade em Libras e, após a segunda, o público poderá participar de um bate-papo com a advogada Gabriela Souza e Rafaela Caporal, coordenadora da área de enfrentamento as violências da organização Themis – Gênero, Justiça e Direito Humanos, ampliando a reflexão sobre o enfrentamento à violência de gênero.
A peça tem concepção, direção, roteiro e dramaturgia de Déborah Finocchiaro, orientação cênica de Silvia Canarim e assistência de direção de Nora Prado. O espetáculo teve pré-estreia no dia 5 de setembro, no Sesc Gravataí, onde recebeu excelente receptividade do público.
A dramaturgia teatral parte da websérie homônima dirigida por Déborah Finocchiaro e Luiz Alberto Cassol, composta por 30 episódios gravados entre 2020 e 2023, com atrizes interpretando histórias reais e relatos pessoais. Todos os episódios contam com recursos de acessibilidade e estão disponíveis no canal oficial. Além de Finocchiaro compoem o elenco Andréa Cavalheiro e Angelo Primon.
O espetáculo foi contemplado no edital Sedac PNAB RS 26/2024,
Arte como ferramenta de denúncia e transformação
Idealizadora do projeto, a atriz e diretora Déborah Finocchiaro relembra o impulso que deu origem à criação do Confessionário – Relatos de Casa, que nasceu como uma websérie durante a pandemia.
“O que me levou a querer conceber o Confessionário – Relatos de Casa, a websérie, foi quando eu me deparei, no dia 5 de maio de 2020, com o número de feminicídios que tinha aumentado. Depois vim a descobrir que o que tinha aumentado não era o número de feminicídios, mas sim o número de denúncias. E o que me move há muito tempo é essa crença profunda na arte como um caminho de questionamentos, de transformações, de contribuição por mundos mais justos, mais dignos, mais humanos.”
Em 2020, o Rio Grande do Sul registrou 80 feminicídios, além de 318 tentativas, de acordo com o Observatório Estadual da Segurança Pública. No mesmo ano foram registradas 33.756 ameaças, 2.246 casos de estupro e 18.901 registros de lesão corporal. De janeiro a setembro deste ano o estado contabiliza 57 feminicídios e 205 tentativas; 23.271 ameaças, 1.714 estupros e 13.155 de lesão corporal.

A artista destaca que o projeto nasceu de uma inquietação pessoal e se fortaleceu pela construção coletiva. “As questões sociais me interessam demais e é o que me mobiliza e me faz seguir nesse caminho da arte. A partir daí, se criou uma equipe maravilhosa que entrou totalmente nesse projeto. Por conta disso, ele foi possível de ser realizado. Hoje, contabiliza 30 episódios, todos disponíveis no YouTube, com versões acessíveis, cada um trazendo um relato real de violência doméstica e de gênero, sendo que, desses 30 episódios, sete são histórias das próprias atrizes.”
Os episódios têm também caráter educativo, apresentando informações sobre os canais de denúncia e orientações jurídicas. “Na segunda parte de cada episódio há uma explicação sobre como fazer uma denúncia, os canais disponíveis e como se reconhece o ciclo da violência. Esse conteúdo foi feito pela Gabriela de Souza, da Advocacia de Mulheres, que tem um trabalho impressionante. Nos três últimos episódios, há ainda participações de outras profissionais, abordando temas específicos como violência contra mulheres surdas, violência contra idosos e trabalho escravo.”
Transformar dor em arte, segundo Finocchiaro, é um desafio que exige empatia e compromisso. “Transformar relatos reais em arte é um grande desafio e, ao mesmo tempo, é instigante. É o que faz a gente buscar outras formas de traduzir essas histórias, sempre com o intuito principal de comunicar. Tem que ser viável, compreensível para todas e todos, alcançando um público amplo, de diferentes origens, ideologias e idades. Nosso interesse é poder falar para todas e todos, levando novas perspectivas e conscientizando que esse é um problema de todas e todos nós.”
Um espetáculo que escuta e se transforma
Finocchiaro explica que o Confessionário segue se renovando junto com as histórias que escuta e acolhe. “O Confessionário tem se transformado junto com as histórias que escuta e acolhe, refletindo as mudanças nas formas de violência contra a mulher e de gênero, que hoje se manifestam não apenas na agressão física, mas também em violências psicológicas, simbólicas, institucionais e virtuais. Essas novas realidades, muitas vezes sutis, atravessadas pelas redes sociais, pelas crises econômicas e pelas desigualdades estruturais, têm ampliado os relatos e exigido da dramaturgia uma escuta constante e um olhar sensível para traduzir em cena as dores, resistências e potências das mulheres contemporâneas.”
Para a diretora, manter o espetáculo vivo é um exercício de atualização e compromisso político. “Ouvir as mulheres, reescrever e recriar o espetáculo a partir delas é garantir que o palco siga sendo um espaço de denúncia, escuta, acolhimento e resistência coletiva.”

Arte e mobilização no enfrentamento à violência
Questionada sobre o papel da arte em um contexto de aumento dos casos de feminicídio e violência de gênero no Rio Grande do Sul, Finocchiaro ressalta a importância da sensibilização e da construção de redes. “Acredito que a arte tem um papel essencial de sensibilizar e mobilizar a sociedade. Projetos como o Confessionário criam pontes entre o público e as realidades silenciadas, despertando empatia e reflexão. Mais do que representar a dor, o espetáculo atua como ferramenta de conscientização e fortalecimento das redes de apoio, contribuindo para que a luta contra o feminicídio e a violência doméstica ganhe novas vozes e ações concretas.”
A iniciativa também se expande por meio de oficinas de teatro voltadas a mulheres e meninas, chamadas “Mulheres, Faces e Fases – transforme a sua vida em uma obra de arte”, seguidas de rodas de conversa. “Essas ações contribuem para a denúncia, o acolhimento e o esclarecimento. Também nos juntamos a profissionais de diferentes áreas jurídica, da saúde, das ciências sociais, e instituições ligadas às questões de violência doméstica e de gênero.”
Para Finocchiaro, o Confessionário reafirma a crença na arte como um caminho de cura individual e coletiva. “O que permanece em mim é essa certeza absoluta de seguir nesse caminho, porque a arte realmente é transformadora. E não só pelo que está no palco, mas por todo o entorno: o trabalho coletivo, as oficinas, o espaço em que as pessoas não precisam ter medo de ser quem são. Vivemos tempos caóticos, de guerras, de intolerância, e a arte nos convida a tirar as máscaras, a nos aprofundar em nós mesmos e reconhecer que tudo está interligado.”
Para ela, agir no coletivo é a única forma realizar transformações reais na sociedade. “É preciso perceber quando um pensamento é nosso ou quando foi imposto pelo sistema. O que permanece em mim é a certeza de seguir na arte, ao lado de pessoas que acreditam na generosidade e ainda acreditam na humanidade, porque eu acredito na humanidade.”
