Único deputado de direita a condenar a Operação Contenção, Otoni de Paula (MDB-RJ) fez duras críticas à atuação das polícias nos Complexos da Penha e Alemão, na zona norte da capital fluminense e disse “o que chamam de ‘muro de proteção’ é muro da morte. Levaram os criminosos – e não sei se haviam inocentes naquele local também para um ato de execução”, disse em entrevista à jornalista Mônica Bergamo da Folha de S. Paulo na quinta-feira (30). Sua fala foi feita em referência à estratégia utilizada pelos agentes de segurança de realizar um muro humano e empurrar integrantes do Comando Vermelho (CV) para uma área de mata na Serra da Misericórdia, que une os Complexos e onde outros agentes armados já estavam posicionados.
Um dia após a chacina, na quarta-feira (29), o deputado federal subiu na tribuna da Câmara para criticar a atuação do governo do estado do Rio de Janeiro em uma operação que teve como resultado mais de 120 mortes. Ele afirmou que quatro integrantes da igreja Assembleia de Deus Ministério Missão de Vida, da qual é pastor, foram assassinados sem terem envolvimento com o crime organizado.
“Meninos que nunca portaram fuzis, mas estão sendo contados no pacote como se fossem bandidos. E sabe quem vai saber se são bandidos ou não? Nunca [vão saber], ninguém vai atrás, porque preto correndo em dia de operação na favela é bandido”, discursou o deputado federal. Ele acrescentou que “o verdadeiro poder do crime” está em negócios milionários de postos de combustíveis e bancos. Na quinta-feira (30), o deputado acompanhou a visita da comitiva de parlamentares ao Complexo da Penha para conversar com moradores e lideranças comunitárias na Central Única das Favelas (Cufa) e declarou ao ICL Notícias que há indícios de execuções sumárias.
Ao Brasil de Fato, o pastor da Igreja Batista Sérgio Dusilek comentou que a fala de Otoni não surpreende, uma vez que o deputado tem um conhecimento profundo sobre o subúrbio carioca, em especial da região onde ocorreu a chacina, por ser área de sua atuação enquanto religioso e político. Além disso, tem feito declarações amistosas sobre a atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, como a valorização dos programas sociais em áreas periféricas.
:: Quer receber notícias do Brasil de Fato RJ no seu WhatsApp? ::
Em entrevista ao site Platô, Otoni se declarou como um um dos poucos deputados que defendiam abertamente o Bolsonaro em 2017 e atribuiu seu afastamento do bolsonarismo se deve ao radicalismo da base do ex-presidente. Nessa entrevista, ele diz ainda que a igreja deve reconhecer os ganhos trazidos pelos programas sociais do governo Lula.
Para Dusilek, essa posição não é isolada, mas ainda é bastante restrita entre evangélicos bolsonaristas. “Tem outras pessoas fazendo o caminho do retorno, mas o grupo que está redescobrindo o que é o Evangelho ainda é pequeno”, avalia. Ele chama de retorno, porque há uma contradição entre defender o bordão “bandido bom é bandido morto” e os dizeres bíblicos. “Para o Evangelho de Jesus, bandido bom não é bandido morto, é bandido salvo”. Ele acrescenta que o papel da igreja neste momento é estar com aqueles que choram nesse momento, sejam os parentes de inocentes, policiais ou integrantes do Comando Vermelho (CV) mortos. “Jesus não está no gatilho da polícia e do bandido que se matam. Jesus não está na celebração da morte violenta, nem de morte alguma”, disse.
