A Fundação Universidade Empresa de Tecnologia e Ciências (Fundatec) negou, nesta semana, a existência de irregularidades no concurso público do Corpo de Bombeiros Militar do Rio Grande do Sul (CBMRS). A nota foi divulgada após denúncias de reprovação em massa de mulheres no Teste de Aptidão Física (TAF), realizado em 15 de outubro.
Nesta sexta-feira (31) foi divulgado o Resultado Preliminar do Exame de Capacitação Física. Ao todo, foram considerados inaptos 918, o que equivale a 40,26% dos inscritos. Desses, 666 são homens (34% de reprovação) e 252 são mulheres (71,18% de reprovação).
A Fundatec afirmou que o concurso segue as normas do edital e que não há conhecimento de falhas no processo. A instituição destaca ainda que o TAF ocorreu “em local plenamente adequado”, com acompanhamento da Comissão de Concursos do CBMRS, respeitando tempos, metragens e cargas previstos.
Ministério Público investiga denúncias
O Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP-RS) abriu investigação para apurar as condições de realização do teste. O órgão notificou o comando dos Bombeiros a apresentar esclarecimentos até 30 de outubro. Reportagem do G1 confirmou que o MP apura “supostas falhas no teste físico que reprovou mulheres para o Corpo de Bombeiros do RS”.
“Não é pedir facilidade, é pedir respeito”, afirma advogada das candidatas
A advogada Renata Quartiero, que representa um grupo de candidatas eliminadas, afirma que houve falhas graves e violação de princípios constitucionais. Ela cita a legalidade e a isonomia como pilares desrespeitados.
Segundo a defesa, a prova de simulação de resgate, incluída nesta edição, foi o principal fator de eliminação feminina. O teste exigia carregar um manequim de 70 kg por 50 metros em até 36 segundos.
“Eu falo como mulher e como advogada: não é pedir ‘facilidade’, é pedir respeito. O rigor do Corpo de Bombeiros é legítimo; o que não é legítimo é rigor sem regra”, disse Quartiero. “Quando a banca muda o jogo — piso irregular, longas esperas, critérios diferentes — isso tem nome: misoginia velada”, completou.
A advogada afirma que há indícios de viés de gênero na execução do TAF. Entre os relatos estão piso escorregadio, longos intervalos e falta de padronização nos equipamentos.
Fundatec e estado podem responder por falhas
Quartiero sustenta que a Fundatec e o Estado do Rio Grande do Sul podem ser responsabilizados. A fundação responderia pela execução técnica da prova, e o estado, pela fiscalização e pela legalidade do concurso.
O Comando do Corpo de Bombeiros Militar informou que o certame segue normalmente e que os recursos administrativos podem ser apresentados após a divulgação oficial dos resultados.
Enquanto isso, as candidatas preparam uma ação judicial coletiva. Elas pedem a anulação ou reaplicação do TAF, em condições técnicas e isonômicas.
Entenda o que está em jogo
O Teste de Aptidão Física (TAF) avalia se o candidato tem condições físicas compatíveis com o cargo. Por isso, em carreiras como a de bombeiro, o exame deve seguir critérios claros, proporcionais e transparentes, conforme o artigo 37 da Constituição Federal.
Comparando os editais anteriores do CBMRS com o atual, especialistas destacam que a inclusão da prova de simulação de resgate é a principal mudança. O exercício exige padronização rigorosa e treinamento das equipes avaliadoras.
“A administração tem o dever de divulgar e cumprir padrões iguais para todos. Quando há diferenças sem previsão em edital, há violação do princípio da isonomia”, reforça Quartiero.
As candidatas dizem que continuarão mobilizadas “até que cada mulher seja avaliada por seu mérito, e não por falhas da banca”.
O Brasil de Fato contatou o Corpo de Bombeiros Militar do RS, a Secretaria de Segurança Pública e a Fundatec. O espaço segue aberto para manifestações adicionais.
