Chacina no RJ

A República velha e a atual cometem a mesma violência contra o povo brasileiro 

Eliminar os indesejáveis sempre fez parte da ação das elites

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Ação nos complexos do Alemão e da Penha foi operação mais letal da história do Rio de Janeiro | Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Em 1889 caia o Império e se iniciava a República dos Estados Unidos do Brasil, resultado de um golpe dos marechais. Um ano antes havia sido publicada a Lei Áurea, alterando as relações entre as forças produtivas ao tornar ilegal a escravidão, dando ares de legalidade para o fim da escravidão, assim como foi a nascente república, normas para inglês ver. 

Decorridos 136 anos da instalação da República e 137 anos da ilegalidade da prática da escravidão, um tempo para a história “como um piscar de olhos” (Marx), os pobres, a classe trabalhadora e o povo brasileiro, especialmente os descendentes da África, continuam enfrentando a crueldade da violência das oligarquias, praticadas pelo Estado, com os governantes se fundamentando em normas jurídicas criadas pelas mesmas classes detentoras do capital, que se impõe com balas, brindados, controle da informação e difusão de mentiras para preservar o controle das riquezas e do Estado. A mesma velha e histórica violência da classe opressora contra o povo. 

Os assassinatos no Rio de Janeiro, considerados necessários e acertados pela burguesia e seus subalternos, representam a sustentação de um sistema apodrecido, encharcado em sangue de quem não faz parte dos setores privilegiados e que, de uma forma ou outra, não se integram à ordem estabelecida para garantir a manutenção da miséria, ignorância e a morte, diariamente imposta nas periferias das cidades, pequenas ou grandes do Brasil.

São massas empobrecidas e exploradas que apenas servem de mão de obra barata, em uma nova forma de escravidão, para servir ao sistema. Eliminar os indesejáveis sempre fez parte da ação das elites.  

Se a República Federativa do Brasil ainda hoje mantém 16% de sua população sem acesso à alfabetização, com 10% dos mais ricos possuindo um rendimento 14 vezes maior que 40% da população mais pobre; se 1% dos latifundiários detém 46% das terras, enquanto 99% da população possui 54% das propriedades rurais, sendo que a Reforma Agrária continua esquecida e proibida; em pouco mais de um século o país segue sendo um paraíso para um punhado de senhores, herdeiros do trabalho de milhões de pessoas escravizadas ao longo de quase quatro séculos.  

Qual a diferença entre o período em que havia a Senzala, a Casa Grande e o Pelourinho para o Bope [Batalhão de Operações Especiais] e as forças militares do Estado atualmente? Qual a diferença entre o trabalho escravo e a jornada de 6 x1 ou quem trabalha em aplicativos para os escravos de “ganho”? Qual a diferença entre o papel do capitão do mato e as forças militares, policiais e armadas da República hoje?  

“A burguesia possui um exército de parasitas” para garantir a ordem, seja os que atuam na formulação ou aplicação das leis ou em uma burocracia desalmada. Enquanto os ricos garantem a formação intelectual de seus filhos para manter o status quo, os filhos dos pobres, montados em uma moto, correm todos os riscos para garantir a sua alimentação, um teto e sobreviverem. O capitalismo se sustenta com a estrutura jurídica, garantida pelas armas, que preserva uma sociedade injusta, cruel e que impede o desenvolvimento e florescer de uma consciência histórica e de classe, negando o acesso à cultura e à educação. 

O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), assim como o de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil) – que acumula uma história encharcada em sangue e mortes e outros governantes são os garantidores das injustiças impostas pelo sistema capitalista, useiro e vezeiro na violência do fascismo, do nazismo e do sionismo em todo o mundo.

São sádicos e perversos, como sempre foi a classe dominante, que nunca economizou balas, bombas e violência contra o povo. 

Superar essa República, com sua estrutura jurídica, que garante a concentração das riquezas e a violência contra os pobres somente acontecerá quando a classe trabalhadora, do campo e da cidade, da juventude sobre as motos, dos explorados não mais reproduzirem o discurso e a prática da burguesia, capazes de destruir esse sistema e erguer uma nova sociedade. 

Organizar-se em forças capazes de conquistar um novo Estado, que esteja a serviço da maioria da população, não será resultado apenas de discursos, menos ainda com a classe trabalhadora dispersa ou desorganizada. 

Todo parto sangra, mas é preciso fazer com que o sangue preto e pobre pare de jorrar como combustível para manter os privilégios do punhado de parasitas da burguesia. É preciso mudar a roda da história, fazer uma nova correlação de forças, onde a vida digna seja um direito a toda a classe trabalhadora e o povo.  

O novo está germinando, por isso tanto ódio dos algozes da classe trabalhadora, que não vacilam em usar a morte contra o povo. Sempre foi assim, mas nada disso impedirá de que a história siga seu curso, cedo ou tarde haveremos de conquistar um novo mundo, com justiça, dignidade e paz, enterrando definitivamente o capitalismo, seus assassinos e vivenciando o alvorecer de um novo tempo. 

*Pedro César Batista é jornalista, bacharel em Direito com especialização em Antropologia. Diretor e apresentador há 11 anos do programa letras e livros na TV Comunitária de Brasília. Autor de 17 livros, entre os quais “João Batista, mártir da luta pela reforma agrária” (Expressão Popular, 2009) e “Marcha interrompida” (Thesaurus, 2006). Vive em Brasília.

**Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.

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Editado por: Clivia Mesquita

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