Cultura

Cinema é cachoeira no festival do Rio

Filmes exibidos denunciam exclusão social, mas festival segue para poucos, reflete cineasta Rogerio Cavalcante e Castro

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Quando chega o Festival de cinema do Rio é como carnaval no Rio de Janeiro: é dia de sol, de praia, é como acertar na cabeça no jogo do bicho e é sexta-feira na Lapa. Uma festa. E tudo isso por dez dias. Quem viver, viveu. Viu os filmes brasileiros mais esperados, viu filmes do mundo inteiro, viu estrelas de pertinho badalando pelo tapete vermelho, ou mesmo discretinhas dentro da sala escura. Ouviu discursos inflamados, risadas, som dos flashes, perguntas curiosas e conversas fugidias nos corredores. Além de bate-papos, debates e palestras, que vão bem além do cinema.

Festival do Rio é isso! O Festival tem a força de fazer com que cinema seja a coisa mais importante no mundo quando ele está acontecendo. É uma imersão de uma realidade de fantasia, onde por vezes, a fantasia do cinema é uma realidade, provando que cinema não tem que ser ‘bombom com licor’, como diria o dramaturgo.

E o Festival se esforça como nunca para ser democrático e inclusivo. Todo ano têm criado grupos de whatsapp que distribuem ingressos gratuitos, exibem sessões com entrada franca de grandes filmes brasileiros, tem o Programa Escola que permite crianças de escolas públicas terem contato com o cinema. E até no evento de mercado do cinema, há dias para encontros abertos e de graça. Esse ano teve até evento em São Paulo.

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E olha que sempre lamentamos profundamente que esses eventos grandiosos e intensos como é o Festival, ou mesmo outras celebrações artísticas, como o que também aconteceu agora em outubro na cena teatral, sejam festas e dias de sol não pra todo mundo que queira participar. O Rio de Janeiro não é dos cariocas, em certa medida. Ao menos não de todos. Que dizer das pessoas que moram em Santa Cruz, Nova Iguaçu, Caxias.

Pro Festival ir mais longe no seu empenho democrático e social, precisaria ter mais apoios de empresas e governo. Isso temos que reconhecer. Para que o tapete vermelho seja pra todos, alguém tem que proporcionar essa oportunidade ao Festival, que já se dedica a um trabalho hercúleo e apaixonado pra cidade do Rio.

O curioso é que dentro dos temas dos filmes no festival, se toca muito nessa ferida da exclusão social. Parece até aquela máxima de quem faz o prédio não pode entrar nele depois de pronto. Ou seja, você é carioca, mas não pra ser público de um festival de teatro ou de shows musicais. E olha que não estamos falando de um luxo negado a quem não pode pagar. Nem estamos falando de empreendedores selvagens que querem lucrar a todo custo. Estamos falando de organizadores artistas ou que têm por trás artistas. E de um público carente que precisa assistir e ter acesso a um bem, feito pra ela também, e não só para quem pode pagar. E esse público ávido por cinema, teatro, shows e exposições (porque agora existem muitas exposições caríssimas), muitas vezes são também artistas. Artistas iniciantes, que lutam pra se equilibrar na sobrevivência do dia a dia, e que não podem se alimentar de arte. Verdadeiros chaplins fazendo manobras como as que faz Carlitos pra se manter digno socialmente.

Tudo isso precisa ser pensado como uma reflexão pra mudança social. Já não cabe mais uma arte para poucos, quando a própria arte fala e defende o contrário. A arte é ética. Toda arte é ética, combativa, reflexiva e em busca de um mundo melhor. Não podemos perder isso de vista, mesmo quando vemos algo de pura diversão, tal qual um show de música. O cinema, o teatro, a música é um deleite pro ser humano. Qualquer um. E é inimaginável que o mundo que forma artistas não dá direito a esses mesmos artistas se deleitarem com a arte. E o povo em geral mais ainda. Já lhe negam demais. E mais essa negativa cria um abismo dilacerante entre o artista e o povo. O artista de cinema fica no Olimpo, o de teatro num pedestal e o da música, hoje em dia, têm se colocado em casas de espetáculos que são quase castelos medievais, em que só os escolhidos pelo rei podem entrar.

Pensamos que essa distância entre os artistas e o povo não é salutar pra humanidade. Esse direito do emocional artístico para alguns não é democrático. Nos desencontramos do ‘todo artista tem que ir aonde o povo está’. Todos temos essa responsabilidade e esta capacidade de pensar sobre isso. Mas não individualmente, pois já temos individualismos e individualidades demais. Também não é só cobrar do país e dos outros, a solução. É também, claro. Mas podemos pensar juntos. Sobretudo quando fazemos parte de um coletivo. E todo artista é coletivo. Um festival é coletivo. Um carnaval é coletivo. Dia de sol e praia, é coletivo. Festa é grupo. E não podemos permitir que não nos convide pra essa festa chamada Brasil. Temos muito a que mudar. Mas os artistas já vêm com essa vontade de mudança nos corações. E arte tem o dever de acompanhar. Não podemos normalizar a distância entre o povo e a arte, nem o festival festivo pra poucos. O povo é artista e o artista é povo.

Não existe e não deve existir hierarquia entre arte, artista e povo. E o Festival do Rio tem se esforçado pra isso.

*Rogerio Cavalcante e Castro é cineasta.

** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

Editado por: Juliana Passos

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