FESTA DO AUDIOVISUAL

Sexta edição do Cinema Negro em Ação reforça sua marca

Com mostras de filmes, homenagens e consultoria, festival em Porto Alegre entregou troféu Odilon Lopez a Tony Tornado​

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Travessa dos Cataventos foi tomada pelo balanço e pela representatividade em encerramento de festival | Crédito: Foto: Isidoro B. Guggiana

“A luta continua, e a vitória é certa!”. Foi com esta mensagem que se encerrou a sexta edição do festival Cinema Negro em Ação, na noite de sábado (1º), na Casa de Cultura Mario Quintana. E quem falou e repetiu, com convicção, o mantra foi Tony Tornado, do alto da representação black artística de seus 95 anos. O nome escolhido para ser o homenageado deste ano se mostrou muito mais que acertado e simbólico, lavou a alma de quem, de fato, tomou, com propriedade, um espaço memorável da cultura de Porto Alegre e do estado.

Foi arrepiante a experiência de ouvi-lo cantar, em uma Travessa dos Cataventos lotada, em pleno Centro Histórico da cidade, os versos de Sou negro (Ed Wilson/Getúlio Cortes, 1970), em coro, pelos espectadores presentes na celebração final do evento. Foi realmente uma ocasião de encontro, de congregação a um estilo Harlem, com representantes da classe audiovisual local, das entidades do segmento e também da cena musical gaúcha, o que ainda não tinha se visto nos primeiros dias de evento. 

Outro momento emocionante foi o da canção Me libertei, escrita pelo próprio artista e lançada em 1971: “Jurei nunca mais/ Fazer som por aqui/ Porque ninguém tinha/ Interesse em me ouvir/ Mas agora é hora/ De me libertar/ E quem quiser/ Ouça primeiro pra depois falar/ Porque/ Todo o meu canto sai do meu coração”. A plateia ecoou a letra, cantando alto, no seio de um prédio cultural histórico da capital dos gaúchos, que se transformou num grande teatro com uma espécie de camarotes nos andares superiores para quem tentou uma vista privilegiada do espetáculo.

Claro, BR-3 não faltou. Ele disse: “Vamos recordar, porque recordar é viver”. “Em 1970, no Maracanazinho”, completou, referindo-se à vitória no 5º Festival Internacional da Canção (FIC), acompanhado do Trio Ternura, trazendo o estilo black-power e a música soul, o que consagrou seu nome para sempre. 

O repertório teve ainda muito Tim Maia (incluindo a canção de fechamento da apresentação, A Festa do Santo Reis), com o filho Lincoln Tornado no comando do show, acompanhado pela cantora de soul Fanny e a banda Funk Essência. A multidão entrou no balanço dos anos 70, puxada pelo ídolo, e o suingue do público chamou a atenção do vocalista. Foi lindo e simbólico ver o público dançando no mesmo ritmo, como se estivesse coreografado. Nunca imaginei ver se abrir um “Soul Train Line” no meio da Travessa, com toda aquela gente, e foi possível.

Filho Lincoln afirmou: “Esse cara escreveu a História, e a caneta tá cheia de tinta ainda”

Tornado, ainda, comentou com o público sobre ditadura, perseguição, uma série de exílios em diferentes países e continentes, o encanto com a Angola (que inspirou Manifesto, “hino” cantado por lá até hoje) e a resistência em “uma emissora evidentemente branca, isso não é novidade para ninguém”, sem citar o nome da Globo. “Fiz uma novela chamada Roque Santeiro (1985), que tinha 146 atores, só um era negro: eu. E ainda estou lá. Sempre disse que o que nos faltava eram oportunidades. E agora são quatro novelas no ar, com quatro protagonistas negros”.

No texto curatorial, Kaya Rodrigues, outra multiartista, apontava que o cinema negro é “espiral: memória, invenção e renascimento”. Lincoln afirmou: “Esse cara escreveu a História, e a caneta tá cheia de tinta ainda”. Ao final, Tornado fez questão de deixar uma mensagem, uma frase que sempre recita em quase todas as ocasiões em que é convidado a falar: “Quando duas mãos se encontram, reflete no chão a sombra da mesma cor”.

A citação resumiu o momento histórico que a Travessa dos Cataventos sediou no encerramento deste que já é um importante festival, inclusive mencionado em debate durante minha cobertura na Mostra de Cinema de Gostoso, no ano passado. Um acontecimento como uma prévia da Noite dos Museus, mas de forma bem mais democrática, como deveria ser, pela sua missão. 

Foi um grande evento, que demandou grande produção, e coroou uma iniciativa que é financiada diretamente pelo estado: Secretaria da Cultura (Sedac), por meio do Instituto Estadual de Cinema (Iecine). A “teia de ecos” do tema “Revérbero” prometida pela curadora Kaya, antes da abertura do festival, de fato, ocorreu ─ até literalmente. Neste ano, o Cinema Negro em Ação fez muito barulho.

Os destaques do festival

Crystom Afronário (à esq., de boné, com troféu na mão) é o nome do momento no audiovisual do RS

A cerimônia de premiação dos destaques abriu a última noite do 6º Cinema Negro em Ação. O festival trouxe à cidade filmes, laboratório de consultoria e homenagens a cineastas negros, além das Mostras Especial e Competitiva. O evento ocupou a Casa de Cultura Mario Quintana, localizada no Centro Histórico de Porto Alegre, de 28 de outubro a 1º de novembro.

Duas produções baianas receberam os prêmios de longa e curta: Quem é essa mulher, de Mariana Jaspe (mesma diretora do premiado curta Deixa, com Zezé Motta, também explorando a temática do feminino), e Nevrose, de Ana do Carmo. Os troféus Destaque RS foram entregues a Crystom Afronário (que vem de um hype desde o Festival de Gramado), por sua direção no curta Aconteceu a Luz da Lua, enquanto B.O.S à Parte (2025), de Guilherme Fernandes dos Santos, levou a estatueta por sua trilha sonora, e a multiartista de vulto nacional Valéria Barcellos venceu melhor atriz por Mãe (2025), de Jöão Monteiro.

Também foram entregues prêmios para os projetos participantes do Sopapo Lab, incluindo cursos, passes para outros eventos de mercado e prêmio de consultoria com a Paradiso Multiplica (confira abaixo a relação dos destaques).

Aos 95, Tornado foi o grande homenageado deste ano e prometeu mais cinco anos de arte

Personalidade histórica cheia de talentos artísticos, Tony Tornado foi o grande homenageado deste ano. O troféu que leva o nome do pioneiro Odilon Lopez foi entregue por Sofia Ferreira, diretora do Iecine, e Kaya Rodrigues, curadora-geral do evento. “Eu fico muito emocionado, lisonjeado. Sinceramente, nem sei se sou merecedor, mas em nome de todos que acreditaram e acreditam na nossa missão, nós vamos continuar, porque a vitória é certa. Ainda tenho cinco anos para fazer 100 anos”, disse o ator e precursor da black music.

O 6º Festival Cinema Negro em Ação tem apoio institucional da Associação de Profissionais do Audiovisual Negro (Apan), Cine Bancários, Paradiso Multiplica, Sindicato da Indústria Audiovisual do Rio Grande do Sul (Siav RS) e outros.

Conheça todos os premiados

Troféus do 6º Festival Cinema Negro em Ação | Crédito: Foto: Sérgio Rosa

Longa-metragem: Quem é essa mulher, de Mariana Jaspe (BA)

Curta-metragem: Nevrose, de Ana do Carmo (BA)

Videoclipe: Herança, de Micah Aguiar e Jonas Sakamoto (MA)

Videoarte: Ao Mar… Devolvo o Sal das Nossas Lágrimas (2025), de Giuliano Lucas (RJ)

Menção Honrosa: Dia de Preto, de Beto Oliveira (SP)

Destaque RS

Melhor direção: Crystom Afronário, por Aconteceu a Luz da Lua (curta)

Melhor trilha sonora: B.O.S à Parte (2025), de Guilherme Fernandes dos Santos (videoclipe)

Melhor atriz: Valéria Barcellos por Mãe (2025), de Jöão Monteiro (curta)

Sopapo Lab: projetos premiados 

Prêmio Consultoria da Casa de Cinema de Porto Alegre: Morada das Lágrimas, de Nádia Maria (Longa, Ficção, Desenvolvimento), São Luís (MA)

Prêmio Consultoria de DiALAB: Alguns Nomes Ainda Queimam, de Alexandre Mattos Meireles e Chico Maximila (Longa, Ficção, Desenvolvimento), Pelotas (RS)

Prêmio Credencial para o Mercado Audiovisual Entre Fronteras de 2025: Alguns Nomes Ainda Queimam, de Alexandre Mattos Meireles e Chico Maximila (Longa, Ficção, Desenvolvimento), Pelotas (RS)

Prêmio Consultoria com a empresa TOMUN: Quase Vira, de Luana Arah (Longa, Ficção, Desenvolvimento), Rio de Janeiro (RS)

Passe para os cursos profissionalizantes do Instituto Akamani: A Raiz Arandu, de Viviane Juguero (Longa, Animação, Desenvolvimento), Porto Alegre (RS)

Prêmio Consultoria Paradiso Multiplica

A Raiz Arandu, de Viviane Juguero (Longa, Animação, Desenvolvimento)

Alguns Nomes Ainda Queimam, de Alexandre Mattos Meireles e Chico Maximila (Longa, Ficção, Desenvolvimento)

Anjos de Fogo, de Adry Silva (Série, Ficção, Desenvolvimento)

Morada das Lágrimas, de Nádia Maria (Longa, Ficção, Desenvolvimento)

Quase Vira, de Luana Arah (Longa, Ficção, Desenvolvimento)

Editado por: Marcelo Ferreira

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