O ex-vice-presidente dos Estados Unidos, Dick Cheney, morreu nesta terça (4) aos 84 anos, devido a complicações relacionadas à pneumonia e à doença vascular. Cheney deixa um legado marcado por sua participação central na invasão ao Iraque em 2003 e na formulação da doutrina da “Guerra ao Terror“, que serviu como nova justificativa para intensificar a estratégia de intervenção militar estadunidense em diversos países da Ásia Ocidental (Oriente Médio).
Cheney ocupou a vice-presidência durante o governo de George W. Bush de 2001 a 2009, período em que foi identificado como o principal articulador da estratégia militar que levou à invasão do Iraque. O político foi o responsável pela elaboração da justificativa de “guerra preventiva” que serviu de base para as intervenções militares estadunidenses no Afeganistão, Iraque e para operações no Paquistão, Iêmen, Síria e outros países da região.
A invasão ao Iraque, justificada pela suposta existência de armas de destruição em massa, algo que os invasores não conseguiram demonstrar posteriormente como falso, resultou em centenas de milhares de mortes civis e na desestabilização prolongada da região.
A farra das petroleiras e do complexo militar-industrial
O caso de Cheney é o típico da chamada porta-giratória, quando políticos ou empresários transitam entre mercado e política visando beneficiar empresas pelas quais passaram ou as quais irão. Um dos escândalos envolvendo Cheney é o do favorecimento da Halliburton em diversos contratos com o governo dos EUA para atuação no Iraque após a invasão ao país.
Os ataques de 11 de setembro de 2001 foram utilizados pelo governo Bush como pretexto para lançar uma série de invasões que acabaram garantindo o controle estadunidense sobre recursos estratégicos e rotas comerciais.
Após a invasão ao Iraque, por exemplo, companhias dos EUA e do Reino Unido (que participou da invasão) ganharam grandes contratos de exploração de petróleo. Entre elas: Shell, British Petroleum, Exxon Mobil, Chevron e Total.
Os contratos foram sem licitação, do mesmo tipo dos que foram dados pelas Forças Armadas dos EUA à Kellogg Brown and Root (KBR), uma subsidiária da Halliburton, para reconstrução de infraestrutura petrolífera. A KBR também recebeu contratos para construção do centro de torturas em Guantánamo. Torturas que inclusive foram ferreamente defendidas por Cheney em Guantánamo e Abu Ghraib, sob o nome de “interrogatório aprimorado”. A prática sistemática de torturas foi denunciada por diversas organizações, como a Huma Rights First.
A Halliburton foi uma das principais beneficiárias dos contratos relacionados à invasão do Iraque, faturando US$ 39,5 bilhões (R$ 213,3 bi) do total de US$ 138 bilhões (R$ 745,2 bi) que receberam todas as contratistas, de acordo com um levantamento feito pelo FT.
Cheney foi diretor da Halliburton de 1995 a 2000, até pouco antes de assumir a vice-presidência dos EUA. Um escândalo durante sua gestão à frente da multinacional foi um esquema de suborno na Nigéria, onde a empresa pagou US$ 182 milhões (R$ 982,8 milhões) a autoridades locais para garantir contratos de US$ 6 bilhões (R$ 32,4 bi), resultando em sua condenação em 2009 e multas de US$ 579 milhões (R$ 3,13 bi) nos Estados Unidos.

O ex-presidente do Federal Reserve (o banco central estadunidense), Alan Greenspan, do próprio Partido Republicano de Bush e Cheney, admitiu em sua autobiografia The Age of Turbulence: “Lamento que seja politicamente inconveniente reconhecer o que todos sabem: a guerra do Iraque é em grande parte sobre petróleo”.
A propaganda da “Guerra ao Terror”
A Guerra ao Terror foi em boa parte uma estratégia de propaganda, e o próprio Cheney reconheceu isso. Em discurso no Instituto de Washington para Política do Oriente Próximo em outubro de 2007, ele declarou: “A guerra contra o terror é, afinal, mais do que uma disputa armamentista (…) É também uma batalha de ideias (…) Muitos observaram que estamos lutando pelos ‘corações e mentes’ das pessoas em uma região conturbada do mundo”.
Ao fazer essa declaração publicamente, Cheney defendia eliminar as “condições que alimentam o ódio cego” que teria levado aos ataques do 11 de setembro de 2001.
À luz dos benefícios obtidos por diversas companhias – não apenas petroleiras, mas empreiteiras, empresas de telecomunicação e as do complexo militar-industrial estadunidense, como Lockheed Martin, Blackwater, Boeing, entre outras – , fica evidente que a real disputa por “corações e mentes” era tornar crível o argumento da ameaça do terrorismo para justificar as invasões militares em países da Ásia Ocidental.
Incalculáveis impactos negativos da “Guerra ao Terror”
Em 2002, Cheney disse em discurso no Bahrein: “Estamos preocupados com nações como o Iraque, que estão desenvolvendo armas de destruição em massa. Sabemos que os iraquianos têm se empenhado nesse tipo de esforço ao longo dos anos e também temos motivos para acreditar que estão buscando adquirir armas nucleares. Isso é uma preocupação para os Estados Unidos. Acreditamos que seja uma preocupação para pessoas em toda a região. E achamos importante que encontremos uma maneira de lidar com essa ameaça emergente”.
Após a invasão, que começou em março de 2003, os Estados Unidos jamais reconheceram oficialmente que tal ameaça iraquiana era inexistente. Em entrevista à Fox News em 2015, quando questionado sobre estar errado sobre o Iraque, Cheney respondeu afirmando que estava certo e que o objetivo real era remover Saddam Hussein do poder. O líder iraquiano foi capturado e executado em 2006.
A destruição causada pela estratégia da Guerra ao Terror no Iraque e outros países da região permanece incalculável. Segundo relatório do Instituto Watson da Universidade de Brown sobre os impactos das “Guerras Pós-11 de Setembro”, a cifra de mortes relacionadas às invasões do Afeganistão, Síria, Iêmen, Paquistão e Iraque pode estar entre 4,5 milhões e 4,7 milhões de pessoas.
O estudo “Como a morte perdura após a guerra: o impacto duradouro das guerras pós-11 de setembro na saúde humana”, foi publicado em 2023, e foi coordenado pela antropóloga Stephanie Savell, diretora do projeto Costs of War e pesquisadora sênior da Universidade Brown.
O trabalho registra entre 905 mil e 940 mil mortes diretas resultantes das invasões, e entre 3,6 milhões e 3,8 milhões de mortes indiretas. Mesmo assim, as autoras consideram que os números estão provavelmente subestimados.
“As mortes que contabilizamos são provavelmente uma vasta subestimação do verdadeiro custo que essas guerras tiveram sobre vidas humanas”, afirmou Neta Crawford, cofundadora do projeto e professora de ciência política na Universidade de Boston.
O relatório identifica quatro principais causas para as mortes indiretas: colapso econômico, perda de meios de subsistência e insegurança alimentar nos países invadidos; destruição de serviços públicos, incluindo sistemas de saúde; contaminação ambiental; e traumas e violências reverberantes que se perpetuam nas sociedades atingidas.
Segundo os dados compilados, 7,6 milhões de crianças menores de cinco anos sofrem atualmente de desnutrição aguda nos países invadidos: Afeganistão, Iraque, Síria, Iêmen e Somália. No Afeganistão, 1 milhão de crianças estão em risco imediato de morte por inanição, com 95% da população sem acesso adequado a alimentos. No Iêmen, 85 mil crianças menores de cinco anos morreram de fome desde o início da guerra.
A destruição dos sistemas de saúde representa outro fator letal. No Afeganistão, mais de 80% das instalações de saúde estavam disfuncionais após a retirada estadunidense. Na Síria, apenas 56% das instalações de saúde primária estão totalmente funcionais. No Iêmen, metade de todas as instalações de saúde não está operacional, resultando em aumento drástico de mortes maternas e neonatais. Entre janeiro e março de 2022, mais de 13 mil recém-nascidos afegãos morreram por falta de cuidados médicos adequados.
A contaminação ambiental causada pelos conflitos também continua matando. Segundo o relatório, mais de 55 milhões de toneladas de escombros no Iraque contêm material tóxico, incluindo urânio empobrecido. Artefatos explosivos não detonados causam aproximadamente 160 mortes por mês no Afeganistão, sendo 79% das vítimas crianças. Cerca de 1.700 quilômetros quadrados de território afegão permanecem contaminados, impossibilitando a agricultura.
O relatório documenta ainda 38 milhões de pessoas deslocadas pelas guerras pós-11 de setembro. Na Síria, 6,5 milhões estão deslocadas internamente – o maior número do mundo – além de 5,6 milhões de refugiados. No Afeganistão, 4 milhões de pessoas foram deslocadas internamente, sendo 60% crianças. No Iêmen, 3,6 milhões foram forçadas a deixar suas casas. Populações deslocadas enfrentam taxas drasticamente elevadas de doenças, desnutrição e mortalidade, especialmente crianças e mulheres.
