Opinião

Por um português mais brasileiro

Da mesma forma que pessoas migram mundo afora, a língua também é viva e precisa ter a sua vitalidade acolhida

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“Ontem, eu vi ele na escola. Foi quando me disse que adorava ela. Tive vontade de responder: me deixa em paz”. Talvez um gramático purista ficaria aflito, com a caneta a postos, corrigindo o trecho para: “ontem, eu o vi na escola. Foi quando me disse que a adora. Tive vontade de lhe dizer: deixe-me em paz”. A versão revisada, embora notoriamente mais adequada às normas cultas, está distante da forma como a maioria usa o português do lado de cá do Atlântico, curiosamente acrescido do adjetivo brasileiro.

Desde a Semana de 22, nossa versão para a língua neolatina, imposta há séculos como tecnologia colonizadora, ganha novos contornos, como se fossem pinceladas de Tarsila do Amaral, tropicalizando ainda mais as nossas letras. Somam-se a isso inúmeros vocábulos, oriundos de outros idiomas em fluxo diaspórico, como iorubá, italiano, japonês e espanhol sul-americano, sem mencionar a riqueza das nossas raízes linguísticas originárias.

Do ponto de vista de um professor de português para migrantes e refugiados, sou adepto da versão mais realista do nosso português, com outros pronomes pessoais retos conjugando verbos, como você, vocês e a gente, indo além do tradicional “eu, tu, ele, nós, vós, eles”. Ainda no ensino fundamental, aprendemos que “tu vais à comemoração”, mas na mensagem de WhatsApp, perguntamos se “você vai na festa do Pedro” – quando não usamos a abreviatura vc.

Essa questão é ainda mais latente se tratarmos dos pronomes oblíquos átonos. Alguns deles se encontram em crescente desuso, mais especificamente, se falarmos da terceira pessoa (singular ou plural), como nos exemplos do parágrafo introdutório.

É notoriamente mais comum, entre brasileiros, dizer “achamos ele” do que “nós o achamos” ou “admiro ela” ao invés de “admiro-a”. O primeiro modelo vem sendo adotado, inclusive, pela imprensa e pela indústria audiovisual – a exemplo do longa-metragem “Deixe ela entrar” –, revelando uma adaptação à realidade da população. Linguistas brasileiros, como Marcos Bagno, defendem que o idioma e, claro, as suas regras devem refletir a forma real como o empregamos – e não reproduzir irredutivelmente o que regem os cânones.

Parto do lugar de um docente de Português como Língua de Acolhimento (PLAC), iniciando essa jornada em 2017, quando comecei a lecionar para migrantes e refugiados, muitos deles em condição de “expulsão”, nas palavras da autora holandesa Saskia Sassen.

Uma vez no Brasil, essa população busca o uso de um idioma que extrapola as normas cultas gramaticais e percorre o universo da língua de acolhimento, que, de acordo com a pesquisadora portuguesa Maria Helena Ançã, encontra solo mais fértil entre indivíduos em deslocamento forçado, consequentemente inclinados a uma aprendizagem mais palpável e menos inflexível.

Atuante como voluntário nesse setor há oito anos, percebo que a mesma língua, em outro momento histórico usada como ferramenta de subordinação, pode ser também uma tecnologia de acolhida humanitária de quem se vê forçado a deixar seu país por motivos diversos, como guerra, perseguição, conflitos étnicos ou pobreza extrema.

Costumo classificar essa dualidade como coreografia não sincronizada, isto é, às vezes, os passos entre os dançarinos (docentes e discentes) se entrosam bem, fazendo com que essa interação flua. No entanto, a depender da situação, os caminhos podem dissidir. Contudo, é o processo pedagógico em si, sincronizado ou não, que é capaz de mitigar as precarizações materiais e éticas sob as quais essas pessoas em situação de refúgio se encontram circunscritas.

Ao falar das letras com um propósito emancipador, refiro-me a um vernáculo que acolhe em sua essência e não exclui por eruditismos. A partir de um debate sobre como apresentar, dentro de um contexto de português brasileiro, os pronomes pessoais retos e oblíquos para migrantes, penso que a forma mais apropriada seja ensinar-lhes as duas formas – a normativa (ex: eu a ajudei) e a coloquial (ex: eu ajudei ela) – e destacar que ambas são possíveis, a depender da situação.

Da mesma forma que pessoas migram mundo afora, guiadas por ímpetos variados como inconformismo ou sobrevivência, a língua também é viva e precisa ter a sua vitalidade acolhida.

*Sebastião Rinaldi, professor de Português como Língua de Acolhimento (PLAC) no Educafro Brasil e doutorando pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Luís Indriunas

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