“Quando a gente põe no centro essas mulheres, a gente fala de uma resistência ancestral, ou melhor, uma tecnologia ancestral, que, através do cuidado, cuida e guarda dessas nossas heranças, as memórias que estão escritas em nossa memória, no nosso corpo.” É o que diz Ludimila Agostinho, diretora e roteirista de Anfitriãs, websérie docuficcional produzida na Chapada Diamantina, na Bahia. Dividido em sete episódios, o último deles disponibilizado nesta quinta-feira (6), o projeto narra o encontro entre jovens artistas e mestras guardiãs da memória cultural da região.
Em tom poético, a série percorre os municípios de Andaraí, Mucugê, Iraquara, Lençóis, Boninal, Palmeiras e Seabra, e visita associações, terreiros e espaços culturais numa partilha de conhecimentos sobre as tradições dessas comunidades. Em um diálogo intergeracional, as mestras oferecem histórias, cantos, gestos, rezos, memórias e culinária, e, dessa partilha, nascem manifestações criativas no teatro, dança, circo, música e nas artes visuais.

Mulheres no centro
Para Agostinho, a escolha por focar em personagens femininas é um reconhecimento do papel das mulheres na preservação de uma memória coletiva e no enfrentamento a diversas formas de exploração.
“É fundamental a gente reconhecer as mulheres dentro dessa jornada heroica e coletiva pela sobrevivência frente ao racismo, ao colonialismo, que desde o período da escravização tentam nos silenciar, silenciar o nosso modo de fazer arte, de escrever”, salienta.
A diretora aponta que a motivação para criar Anfitriãs surgiu a partir da percepção das diferenças de gênero, raça e território na visibilização de certas vozes e do espaço dentro e fora do audiovisual para contar histórias.
“Ficou nítido o quanto que as mulheres da zona rural, mulheres LGBT+, mulheres indígenas, de quilombos, não estavam produzindo por falta de espaço, de reconhecimento. Então Anfitriãs surge nesse sentido, de fazer com que essas mulheres sejam as protagonistas”, destaca.

Uma das personagens que conduzem episódios na série é Ninha Almeida, profissional circense e atriz premiada no 28º Prêmio Braskem de Teatro. Para a artista, a proposta da série se entrelaça também com os objetivos do seu trabalho.
“Foi maravilhoso ter a oportunidade de estar frente a frente com uma mestra. Para mim, que já tenho dois espetáculos de circo e teatro solo sobre as tradições da Chapada Diamantina, é honrar as rezas, as benzedeiras, o conhecimento das parteiras, a sapiência das doceiras e de todas as pessoas que tiveram um quintal para suas vivências”, destaca.
Entre as mestras que compartilham seus saberes no projeto estão Marisa Rosa, guardiã do tradicional legado do Batucarte e do Terno de Reis do Quilombo da Vazante; Dona Domingas, guardiã das ervas e do Reisado no bairro do Tomba, em Lençóis; e Mãe Carmosa, liderança do Terreiro São Jorge, em Andaraí.
Resistência popular
Em meio a um cenário de avanço do agro-hidro-minério negócio, que aumenta os conflitos no campo, e de instalação de megaempreendimentos de energia eólica e solar, que também têm causado inúmeros prejuízos socioambientais, as comunidades da Chapada Diamantina têm desenvolvido diversas estratégias de luta para permanecer e viver em seus territórios. Para Agostinho, dar visibilidade às histórias presentes nessa região a partir da série é também uma forma de demarcar essa resistência popular.
“Levaram nosso ouro, nosso diamante, levaram a nossa água com a poluição dos nossos rios, mas nós permanecemos aqui com as nossas tradições, com as nossas manifestações culturais, que também são forma da nossa coletividade se organizar organicamente, celebrando a vida com confluências, como diz Antônio Bispo”, salienta.
Lançada no dia 25 de outubro, o projeto foi exibido em escolas públicas de cada município visitado no projeto. Os episódios também podem ser assistidos de forma gratuita nas plataformas digitais.
