Legado ancestral

Anfitriãs: Série produzida na Chapada Diamantina tece diálogos entre mestras guardiãs e jovens artistas

Dividida em sete episódios, projeto fortalece o protagonismo das mulheres na preservação da memória cultural

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Guardiãs de tradições culturais, lideranças comunitárias e religiosas são algumas das personagens retratadas no projeto | Crédito: Michele Nascimento/Divulgação

“Quando a gente põe no centro essas mulheres, a gente fala de uma resistência ancestral, ou melhor, uma tecnologia ancestral, que, através do cuidado, cuida e guarda dessas nossas heranças, as memórias que estão escritas em nossa memória, no nosso corpo.” É o que diz Ludimila Agostinho, diretora e roteirista de Anfitriãs, websérie docuficcional  produzida na Chapada Diamantina, na Bahia. Dividido em sete episódios, o último deles disponibilizado nesta quinta-feira (6), o projeto narra o encontro entre jovens artistas e mestras guardiãs da memória cultural da região.

Em tom poético, a série percorre os municípios de Andaraí, Mucugê, Iraquara, Lençóis, Boninal, Palmeiras e Seabra, e visita associações, terreiros e espaços culturais numa partilha de conhecimentos sobre as tradições dessas comunidades. Em um diálogo intergeracional, as mestras oferecem histórias, cantos, gestos, rezos, memórias e culinária, e, dessa partilha, nascem manifestações criativas no teatro, dança, circo, música e nas artes visuais.

A série completa pode ser assistida de forma gratuita no canal do projeto no Youtube – Zulmi Nascimento/Divulgação

Mulheres no centro

Para Agostinho, a escolha por focar em personagens femininas é um reconhecimento do papel das mulheres na preservação de uma memória coletiva e no enfrentamento a diversas formas de exploração.

“É fundamental a gente reconhecer as mulheres dentro dessa jornada heroica e coletiva pela sobrevivência frente ao racismo, ao colonialismo, que desde o período da escravização tentam nos silenciar, silenciar o nosso modo de fazer arte, de escrever”, salienta.

A diretora aponta que a motivação para criar Anfitriãs surgiu a partir da percepção das diferenças de gênero, raça e território na visibilização de certas vozes e do espaço dentro e fora do audiovisual para contar histórias.

“Ficou nítido o quanto que as mulheres da zona rural, mulheres LGBT+, mulheres indígenas, de quilombos, não estavam produzindo por falta de espaço, de reconhecimento. Então Anfitriãs surge nesse sentido, de fazer com que essas mulheres sejam as protagonistas”, destaca.

O encontro de gerações fortalece preservação da identidade do território, aponta diretora Ludimila Agostinho – Zulmi Nascimento/Divulgação

Uma das personagens que conduzem episódios na série é Ninha Almeida, profissional circense e atriz premiada no 28º Prêmio Braskem de Teatro. Para a artista, a proposta da série se entrelaça também com os objetivos do seu trabalho.

“Foi maravilhoso ter a oportunidade de estar frente a frente com uma mestra. Para mim, que já tenho dois espetáculos de circo e teatro solo sobre as tradições da Chapada Diamantina, é honrar as rezas, as benzedeiras, o conhecimento das parteiras, a sapiência das doceiras e de todas as pessoas que tiveram um quintal para suas vivências”, destaca.

Entre as mestras que compartilham seus saberes no projeto estão Marisa Rosa, guardiã do tradicional legado do Batucarte e do Terno de Reis do Quilombo da Vazante; Dona Domingas, guardiã das ervas e do Reisado no bairro do Tomba, em Lençóis; e Mãe Carmosa, liderança do Terreiro São Jorge, em Andaraí.

Resistência popular

Em meio a um cenário de avanço do agro-hidro-minério negócio, que aumenta os conflitos no campo, e de instalação de megaempreendimentos de energia eólica e solar, que também têm causado inúmeros prejuízos socioambientais, as comunidades da Chapada Diamantina têm desenvolvido diversas estratégias de luta para permanecer e viver em seus territórios. Para Agostinho, dar visibilidade às histórias presentes nessa região a partir da série é também uma forma de demarcar essa resistência popular.

“Levaram nosso ouro, nosso diamante, levaram a nossa água com a poluição dos nossos rios, mas nós permanecemos aqui com as nossas tradições, com as nossas manifestações culturais, que também são forma da nossa coletividade se organizar organicamente, celebrando a vida com confluências, como diz Antônio Bispo”, salienta.

Lançada no dia 25 de outubro, o projeto foi exibido em escolas públicas de cada município visitado no projeto. Os episódios também podem ser assistidos de forma gratuita nas plataformas digitais.


Editado por: Maria Teresa Cruz

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