Na noite da segunda-feira (3), o jornal Diário de Pernambuco realizou uma festa nada modesta para celebrar seus 200 anos de história. O evento no Teatro de Santa Isabel, no Recife (PE), teve a presença de autoridades, show de Lenine e um coquetel para centenas de convidados no jardim externo do local.
Do lado de fora da festa, a poucos metros de distância e separados apenas por uma grade, um grupo de jornalistas protestava com cartazes e carro de som, denunciando que o jornal mais antigo ainda em circulação na América Latina tem dívidas já julgadas com mais de 300 dos seus ex-funcionários, que somam mais de R$ 30 milhões.
Uma das pessoas que assistiu à festa do lado de fora foi Lydia Barros, que trabalhou na empresa por 26 anos. “Eu cresci lá. Meu pai me levava desde pequena”, lembra ela, que é filha de Joezil Barros, também jornalista e que dedicou 60 anos de sua vida ao Diário, passando por diversas funções e chegando à presidência do grupo empresarial de comunicação. Mas isso não ajudou a resolver a situação de Lydia.
Ela contou à reportagem do Brasil de Fato que, quando foi desligada do diário, tinha salários atrasados em aberto que nunca teria, sido pagos. “Só pagaram a verba rescisória e nada mais. Até recebi o meu FGTS, mas muitos não receberam. O meu pai tentou articular um acordo, mas eles nunca toparam”, lembra a jornalista. Joezil faleceu em 2021.
Uma das jornalistas presentes no protesto afirmou à reportagem ter 15 salários pendentes. Outra apontou sete. Eles preferiram não detalhar os valores que cada um tem a receber. Uma das presentes acrescentou ao processo um pedido de indenização por acúmulo e desvio de função. Os processos, valores e casos são os mais diversos entre as mais de 300 ações, segundo o Sindicato dos Jornalistas de Pernambuco (Sinjope).
As cobranças mais comuns são salários pendentes, pagamento de verbas rescisórias, ausência de depósito do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e recolhimento do INSS. O Sinjope divulgou uma nota diante da notícia da festa de comemoração do jornal e destacou as dívidas trabalhistas.
“Ao contrário da suntuosidade da festa realizada pela empresa no Teatro de Santa Isabel, no Recife, aquelas(es) que dedicaram e/ou ainda dedicam o seu trabalho para o jornal sair todos os dias não tiveram e/ou não têm os mínimos direitos garantidos”, criticou o sindicato.
“A grande maioria das(os) que foram demitidas(os) em anos recentes não receberam sequer as verbas rescisórias (férias, salto total e multa do FGTS e até salários atrasados), enquanto os poucos celetistas que restam na empresa estão com meses de salário abertos”, diz trecho da nota, que também critica o processo de “pejotização” que o jornal vive nos últimos anos.
A prática foi objetivo de uma Ação Civil Pública (ACP), ajuizada na Justiça do Trabalho pelo Ministério Público do Trabalho (MPT).
“Sem justiça, o que continuaremos vendo são banquetes, exibicionismos e espetáculos para os convidados da festa e migalhas e exclusão para os verdadeiros responsáveis pelo jornal ter chegado aos dois séculos”, concluiu o sindicato em nota divulgada na última terça-feira (4).
Solidariedade e espera
Lydia Barros lamenta por si, pelos amigos e também pela instituição Diário de Pernambuco. “Muitos colegas estão em más condições, endividados. Sinto tristeza, raiva e revolta, mas é principalmente tristeza. Quando cheguei aqui [em frente ao local da festa] meus olhos marejaram. A minha formação profissional foi lá”, lembra a jornalista. “O Diário de Pernambuco tem uma história importantíssima no jornalismo brasileiro, com coberturas históricas. Mas, sinceramente, acho que foi tudo para a lama”, critica Lydia.
Ela conta que foi convidada para receber uma homenagem em nome do seu pai. “Respondi que a homenagem é justíssima, já que meu pai dedicou tantas décadas da vida dele ao jornal, mas que eu não poderia ir, porque estou desde 2016 na Justiça [cobrando salários atrasados]”, explica.
“A postura deles [do jornal] é de ‘lavar as mãos’, de não querer saber. Acho uma situação muito triste e revoltante, porque esse jornal já foi muito para a minha vida”, pontua a jornalista, que diz já ter perdido as esperanças. “Vai ficar para os meus netos ou bisnetos. É um escárnio, um desrespeito”, reclama.

Autoridades prestigiaram a festa e algumas foram homenageadas. Entre os presentes, a governadora Raquel Lyra; o prefeito do Recife, João Campos; o presidente da Assembleia Legislativa, Álvaro Porto; os presidentes do Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE), Ricardo Paes Barreto; do Tribunal Regional Federal da 5ª Região, Élio Siqueira; e mesmo o presidente do TRT-6, desembargador Ruy Salathiel. A lista de 30 personalidades ou instituições públicas homenageadas também traz o nome do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
“Somos editorias diferentes: do lado de dentro é a coluna social, enquanto aqui fora é a página policial. Há uma grade nos separando”, ilustra o jornalista Paulo Goethe, com mais de 20 anos dedicados ao Diário. “Estamos na Justiça enquanto eles aproveitam a festa”, completa.
Goethe entrou no Diário de Pernambuco pela primeira vez em 1991, como estagiário, e ao longo da carreira chegou ao posto de editor executivo, o segundo cargo mais alto na estrutura do jornal, abaixo apenas do diretor de redação. “Cheguei quase no topo. Vi o lado positivo e o lado negativo da história, a derrocada do jornal , inclusive ética”, lamenta. Ele foi demitido em abril de 2018. “Só me pagaram o equivalente ao salário do mês”, recorda.
O jornalista conta que, em reuniões, não era segredo o projeto de “calote” nos ex-funcionários. “Se dizia claramente que não iriam pagar a ninguém. Então eu sabia disso e não poderia ficar ouvindo e esperando que eu fosse pago, enquanto meus colegas não”, pontua. “Tive que fazer uma escolha: ou ficar a favor da empresa, ou da minha história e dos demais empregados. Eu fiz uma escolha. Me ferrei, mas…”, explica Goethe. “O mercado está difícil para todo mundo, mas é preciso ter um pouco de consciência. Ao escrever para o jornal, você também escreve sua própria biografia”, sentencia ele.

Imbróglio jurídico
O Tribunal Regional do Trabalho da 6ª Região (TRT-6) aponta que as ações já julgadas e em fase de execução somam em torno de R$ 32 milhões. O não pagamento das dívidas levou o TRT-6 a incluir o caso num regime especial de execução forçada, chamado reef. O tribunal reúne todos os processos em fase de execução e exige que a empresa deposite valores mensais em juízo, mas não há previsão de bloqueio de recursos (o que poderia gerar novos atrasos).
No reef, o Departamento de Pesquisa Patrimonial do TRT-6 deve realizar o levantamento documental dos imóveis do Diário de Pernambuco para colocar à venda, visando obter os valores necessários para quitar as dívidas trabalhistas. No caso em questão, segundo o Sinjope, o jornal tem proposto acordos com deságio de 40% nos valores das causas, numa ordem de priorização que tem critérios como idade, condição de saúde e causas com valores menores. Os valores das ações são corrigidos ano a ano.
Na lista de imóveis de propriedade do Diário citados pelos jornalistas afetados pelas dívidas estão, por exemplo, o antigo parque gráfico localizado na avenida Cruz Cabugá, em Santo Amaro, centro do Recife; e o Clube dos Diários Associados, num terreno de mais de 9 mil metros quadrados no número 3.014 da Estrada do Arraial, bairro da Tamarineira, zona norte do Recife. O valor de venda do metro quadrado no bairro custa, hoje, entre R$ 5,7 mil e R$ 7,4 mil, segundo a plataforma Zap Imóveis. Só a venda do clube em questão poderia superar os R$ 32 milhões devidos.
O Brasil de Fato entrou em contato com o TRT-6, questionando sobre a não-execução da dívida, as etapas e velocidade do processo no regime de especial de execução forçada (Reef) e as perspectivas de resolução destes casos. Até o momento não houve retorno.
O BdF entrou em contato com o Diário de Pernambuco solicitando um posicionamento, mas, até o momento, não houve resposta. No último mês de abril, dezenas de jornalistas realizaram protesto na Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe), na esperança de sensibilizar parte das autoridades para o caso, mas não houve avanços.
Um breve histórico
Fundado em sete de novembro de 1825, por Antônio José Miranda Falcão, o Diário foi adquirido pelo empresário Assis Chateaubriand e incorporado ao conglomerado Diários Associados. Em 2015, o acionista majoritário passou a ser o Sistema Opinião de Comunicação, do mesmo proprietário do Grupo Hapvida, mas logo foi vendido ao Grupo R2, dos irmãos pernambucanos Alexandre Rands e Maurício Rands.
Os casos de atrasos salariais no jornal se tornaram mais frequentes a partir de 2016, com trabalhadores se demitindo ou pedindo para serem incluídos em demissões. Em 2019, a empresa foi vendida a Carlos Frederico de Albuquerque Vital, atual proprietário.
Em 27 de outubro de 2023, o Sinjope em nota conjunta com a Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas) denunciou que a situação de atrasos salariais não apenas continuava como as dívidas trabalhistas com os demitidos dos anos anteriores continuavam em aberto. Três meses depois, em janeiro do ano passado, uma audiência pública foi realizada no TRT6 para “discutir uma proposta de solução para a crise financeira enfrentada pelo Diário de Pernambuco” e pactuar um plano de pagamento das dívidas.
Em abril de 2024, um imóvel de propriedade do jornal, localizado na Praça da Independência, no valor de R$ 1,2 milhão, aparece na lista de leilão judicial na 5ª Vara do Trabalho do Recife. Em novembro, o TRT6 instaura regime reef para garantir a execução dos mais de 300 processos julgados. Em abril de 2025, trabalhadores vão até a Alep e denunciam a demora em uma solução para o caso.
