TESTEMUNHO PALESTINO

Médica palestina descreve a Cisjordânia sob ocupação israelense: ‘Quem não tem feridas físicas, tem psicológicas’

Situação piorou muito após genocídio em Gaza; Ataques, demolições e atos de violência são diários

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“A cada país que reconhece nosso Estado, Israel cria novas colônias na Cisjordânia’, diz a médica; na imagem o Exército de Israel destrói casas palestinas em Qatanna | Crédito: Zain Jaafar/AFP

Apenas no mês de outubro, forças de segurança e os colonos israelenses realizaram 2.350 ataques em toda a Cisjordânia ocupada, em um “ciclo contínuo de terror”, de acordo com a Comissão de Resistência à Colonização e ao Muro da Autoridade Palestina (CRRC). O chefe da CRRC, Mu’ayyad Sha’ban, disse na quarta-feira (5) que as forças israelenses realizaram 1.584 ataques – incluindo ataques físicos diretos, demolição de casas e arrancar oliveiras – com a maior parte da violência concentrada nos distritos de Ramallah (542), Nablus (412) e Hebron (401).

O relatório descreveu casos de “vandalismo e roubo” israelenses realizados em conluio com soldados israelenses que resultaram no “arrancamento, destruição e envenenamento” de 1,2 mil oliveiras em Hebron, Ramallah, Tubas, Qalqilya, Nablus e Belém. Há décadas, o exército israelense tem arrancado oliveiras, um importante símbolo cultural palestino, em toda a Cisjordânia, como parte dos esforços de sucessivos governos israelenses para confiscar terras palestinas e deslocar à força os moradores.

O aumento da violência israelense ocorre em meio à expectativa de que o Conselho Superior de Planejamento (HPC), parte da Administração Civil do exército israelense que supervisiona a Cisjordânia ocupada, aprove a construção de 1.985 novas unidades habitacionais em assentamentos na Cisjordânia. Desde o início de 2025, o HPC aprovou um número recorde de 28.195 unidades habitacionais.

No mesmo outubro, a médica palestina Aysha – nome fictício para proteger sua identidade – falou ao Brasil de Fato sobre como é morar na Cisjordânia ocupada. Mais: como mãe e médica, contou a percepção de quem cuida de quem está na linha de frente e prepara as futuras gerações que vão lutar pela liberdade dos palestinos. Leia abaixo:

Brasil de Fato – Como foi crescer na Jordânia como uma palestina?

Aysha- O primeiro direito que se me foi roubado na infância foi o de nascer em minha própria terra, minha família era refugiada, estava na Jordânia desde 1967. Estar em um país árabe como a Jordânia não era culturalmente muito diferente. Cresci em uma família bem consciente de como criar os filhos fora de sua terra, isso foi outro motivo para que eu escolhesse morar na Palestina, ter consciência política.

Por que você escolheu estudar medicina? E por que em Cuba?

Um tio meu que é médico, também foi graduado em Cuba nos anos 1989, foi quem me empurrou para este caminho. Eu queria viver a experiência de viver no país, estudar lá, neste país único.

Foi por sorte, tive boas notas no ensino secundário e recebi uma bolsa de estudos. Me mudei para a Palestina em 1998, com minha família após os Acordos de Oslo, quando meu pai foi um dos que receberam o direito de retornar. Nós recebemos essa oportunidade, a agarramos e nunca a perdemos.

Como foi essa chegada à Palestina?

Culturalmente, não é muito diferente do que estava acostumada, mas estar lá é outra coisa do que ouvir falar. Ver de perto te faz entender muito melhor, com mais consciência.

Sabia da ocupação, mas ver, como criança como ela funciona na realidade, ter contato direito com os ocupantes, é diferente. Tive primeiro contato com os postos de controle, três deles, quando vinha da Jordânia e vi a situação vergonhosa que acontece na Cisjordânia. Depois, tive um choque ao ver que não eram apenas soldados que viviam na Palestina, mas israelenses em colônias e assentamentos, espalhados por toda a Cisjordânia. Não sabia que isso existia.

Pensava que os israelenses estavam apenas nas partes que ocuparam em 1948, mas não era assim, havia colonos. Que, décadas depois, se multiplicaram em muitas e muitas vezes. Mas, na época, não acreditava no que via.

Como sua terra mudou desde 1998?

A Cisjordânia mudou muito, especialmente nos últimos anos. A ocupação transformou a Cisjordânia hoje em um arquipélago de vilas e povoados palestinos cercados por todos os lados. Eles se conectam por caminhos diretos e indiretos, onde a circulação é bastante dificultada por Israel.

Somos sempre separados por portas controladas por eles, cada povoado pode ser isolado a qualquer momento, nos postos de controle. Quando não estão soldados por ali, ninguém pode passar, ninguém entra ou sai. E, paralelamente, as colônias se expandiram, ou seja, muito mais terra palestina foi roubada.

Me refiro a não se poder chegar aos locais de cultivo das oliveiras, locais de cultivo dos camponeses. Hoje eles não podem mais dar conta de prover as próprias necessidades com a terra, porque são impedidos de chegar a elas. E por quê? Quem são os donos da terra, os colonos por acaso?

O fato é que Israel alega questões de segurança para impedir que os palestinos se aproximem de áreas vizinhas a esses assentamentos.

Como é seu trabalho como médica sob a ocupação israelense?

Trabalho no setor privado, antes, na emergência. A ocupação é algo que passa por todos os aspectos da vida, não se pode esquecer, se nota no rosto de cada um que se consulta comigo, a irritabilidade por não se saber o que vai ser o futuro, a instabilidade, a dor e a tristeza pelo que acontece na casa de cada um deles.

Há o temor de que vai acontecer na Cisjordânia a mesma coisa que está acontecendo em Gaza e isso gera muito estresse nas pessoas, elas estão preocupadíssimas. Para tratar as pessoas, não são apenas remédios, mas a cabeça também. Eu diria que 95% dos meus pacientes precisam também de ajuda psicológica. Como médica, eu tento dar apoio, proporcionar escuta, dar esperança. Mesmo porque, para lutar, é preciso estar em boas condições, boa saúde.

Como você vê o cessar-fogo em Gaza, é algo que dá esperança ou não?

Não tenho esperança por causa de [Donald] Trump, mas entendo que quem acredita em uma causa justa sempre tem esperança. Em algum momento o povo palestino terá que se unir e buscar a meta principal, que é a libertação da terra palestina, o motivo pelo qual esses partidos foram criados.

Sim, respondendo a pergunta, tenho sim esperança, mas não pelo que algum estadunidense diz algo agora. Os palestinos estavam muito desunidos desde 2006, 2007, mas aconteceram os Acordos de Pequim pelo qual eles se comprometeram a trabalhar juntos.

Acho que é possível, a resistência nos une. Apesar de o governo palestino sofrer pressão econômica israelense, não tem que se render, eles não têm esse direito, por tudo o que os palestinos já se sacrificaram. Hoje o apoio popular à resistência é ainda mais forte, nem o Fatah pode negar isso.

Como a onda de reconhecimento internacional para o Estado palestino foi recebida?

Foi muito bem recebida. Já sabíamos que os povos desses países estavam pressionando seus governos, por isso agradecemos a essas populações, sem elas isso não teria acontecido. Mas temos uma brincadeira na Cisjordânia.

Alguns dizem que não queremos mais reconhecimento porque, com cada reconhecimento, Israel cria mais assentamentos e postos de controle. De fato, quanto mais reconhecimento, mais punidos são os palestinos. Por exemplo, três colônias novas foram criadas após Espanha e Holanda nos reconhecerem e elas são batizadas com nomes de cidades espanholas e holandesas.

Além disso, toda vez que há algum reconhecimento, a Cisjordânia amanhece fechada no dia seguinte. A opressão aumenta. Mas não estou reclamando, recebemos esse reconhecimento com muito amor e gratidão.

Como médica você enfrenta diariamente as consequências da violência israelense contra os palestinos?

Sim, entre 2018 e 2019, trabalhei no setor público e atendíamos muitos casos de ferimentos a bala. De pessoas golpeadas pelo Exército ou por colonos, muitas delas crianças e mulheres. Mesmo quando não há feridas físicas, as psicológicas estão sempre ali. Há stress demais.

Como você vê seu papel como mulher, médica que resiste a ocupação e contribui para a luta?

A mulher palestina sempre teve seu papel em manter o tecido social, a comunidade mais forte e unida. Também criar nossos filhos de forma muito palestina. Eles sabem que são os futuros lutadores deste país.

Meu desejo é que eles não tenham mais que lutar contra Israel, mas para manter a liberdade que vão conquistar. Meu filho, por exemplo, sabe que não compramos nada que tenha sido feito em Israel ou por empresas que apoiem Israel. São detallhes simples que formam o caráter palestino.

Como mulher, também sabemos que é muito importante manter a cultura, como o traje palestino feito a mão, com cada desenho que reflete a história da nossa luta.

Você já esteve em Gaza?

Sim, a última vez foi em 2006, visitando familiares.

O que os brasileiros podem fazer para ajudar os palestinos?

Em primeiro lugar, é preciso dizer que os brasileiros têm sido muito presente em diversos momentos da resistência palestina, tanto com movimentos populares como pelo governo. Consideramos Lula palestino, se me permitem dizer, porque ser palestino é defender nossa causa.

Espero que os brasileiros continuem assim, acreditando nas causas justas do mundo.

Editado por: Luís Indriunas

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