A megaoperação policial nas favelas do Rio de Janeiro, resultando em 121 mortes, expõe de forma brutal o quanto a violência tem sido naturalizada como instrumento legítimo de ação do Estado. Sob o pretexto de combate ao crime organizado, o poder público transforma territórios populares em zonas de exceção, nas quais a vida humana perde valor e o uso letal da força policial é tratado como ato de autopreservação institucional.
A tragédia revela não apenas a falência de uma política de segurança, mas o aprofundamento de uma lógica necropolítica que escolhe quem pode viver e quem pode morrer, uma escolha que, no Brasil, tem cor, classe e endereço.
Se recorrermos ao pensamento da filósofa Judith Butler, ao discutir o “direito ao luto”, ela chama atenção para a forma como certas vidas são consideradas “indignas de serem choradas”. Em sociedades marcadas por desigualdades estruturais, como a brasileira, a morte dos pobres, negros e favelados é frequentemente narrada como consequência inevitável da criminalidade, não como resultado da violência estatal.
Esse processo de desumanização impede o luto coletivo, bloqueia a empatia e transforma as vítimas em culpados. Quando o Estado escolhe quem é passível de ser lamentado, ele também define quem pode ser eliminado sem questionamento.
A operação no Rio evidencia um padrão: antes de qualquer apuração, a narrativa oficial e midiática costuma apresentar os mortos como ameaças. A polícia, então, aparece não como agente de repressão, mas como vítima reagindo em legítima defesa. Tal construção simbólica legitima o terror de Estado e apaga a fronteira entre segurança e extermínio.
Cria-se, assim, um “poço de violência justificada”, como se a matança fosse um mal necessário para a manutenção da ordem. Essa manipulação discursiva faz parte do que Butler descreve como a produção diferencial da vulnerabilidade: alguns corpos são reconhecidos como vidas, outros apenas como alvos.
O uso sistemático da violência nas favelas é, portanto, uma política de Estado, e não um desvio. É a manifestação de um projeto de controle social que transforma os pobres em inimigos internos. A militarização das periferias não resolve o problema da segurança pública – apenas reafirma uma hierarquia social em que os direitos humanos são seletivos. A morte, nesse contexto, deixa de ser um evento trágico e passa a ser um mecanismo de governo. E mostra, sem dúvidas, um crime organizado que ainda continua forte, pois revela sua capacidade de reestruturação e reinvenção.
Com isso, portanto, cabem algumas perguntas: passada mais de uma semana da megaoperação, o que o Estado fez para o dia seguinte? Que solução o Estado encontrou para que jovens não sejam cooptados pelo crime organizado? As matanças em massa serão a política pública para o combate ao crime organizado, envolvendo, inclusive, vidas de agentes do próprio Estado?
Reconhecer o direito ao luto é um ato político e ético. Significa afirmar que cada vida perdida importa e que nenhuma política pública pode se sustentar sobre o sangue de inocentes. Enquanto o Estado insistir em combater desigualdades com fuzis, perpetuará o ciclo de dor e exclusão que Butler denuncia: o de uma sociedade incapaz de chorar seus mortos, porque antes já havia deixado de vê-los como vivos.
