Entre os dias 7 e 12 de novembro e em pleno clima de COP30, a cidade de Belém (PA) se tornou o centro da articulação global dos povos atingidos por barragens e pela crise climática. Reunindo cerca de 200 delegados de 45 países, o 4º Encontro Internacional de Atingidos por Barragens e Crise Climática representa um novo marco na luta popular por justiça socioambiental e energética. Organizado pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e pelo Movimiento de Afectados por Represas (MAR), o evento ocorre às vésperas da Cúpula dos Povos e da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP30), que também acontecem na capital paraense.
O encontro é o resultado de um processo de articulação que se intensificou nos últimos anos por meio de formações políticas, encontros continentais e mapeamento de experiências locais. O objetivo agora é consolidar a criação do Movimento Internacional de Atingidos por Barragens e Crise Climática, organização que pretende unificar estratégias de resistência e interferência política em escala global.
“Não é só dizer que não queremos barragens. A nossa proposta é transformar o modelo de geração de energia e, com ele, transformar também a sociedade”, afirmou Juan Pablo Soler, do Movimiento Ríos Vivos, da Colômbia. A trajetória de Juan é marcada pela resistência à barragem de Hidroituango, no rio Cauca, e pela articulação entre povos atingidos em diversas bacias hidrográficas do país.
A colombiana é uma das delegações que participa do encontro em Belém e que vê a criação do movimento internacional como uma forma de dar visibilidade às violações sofridas em seus territórios, mas também como espaço de formulação.
“Não é possível continuar discutindo o futuro energético dos nossos países sem escutar quem vive nas margens dos rios. A energia que se gera hoje, muitas vezes, nem é necessária. É preciso um novo modelo, orientado pelas comunidades e seus modos de vida”, completou Juan.
Para o colombiano, a força dos atingidos está justamente na diversidade de suas experiências: “Não é exatamente o mesmo tipo de sociedade que um quilombola no Brasil ou um camponês na Colômbia vão querer construir. Mas todas as culturas podem propor modelos energéticos próprios.”
Juan também criticou o desperdício de energia gerada sob a lógica atual. “Hoje, entre 30% e 40% da energia que se produz no mundo vai para o lixo. É uma transformação cultural que precisamos fazer: mudar a relação com a energia e pensar um modelo baseado nas necessidades reais das comunidades”, completa.

Cerimônia de abertura reforça papel dos movimentos
A programação do 4º Encontro começou oficialmente na tarde de sexta-feira (7), com uma cerimônia de abertura que reuniu movimentos populares, organizações aliadas e representantes de governos.
A atividade destacou a dimensão internacional do encontro e homenageou mulheres atingidas com uma exposição de arpillaria. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes, que representou o governo federal na cerimônia, ressaltou o papel das mulheres nas lutas territoriais e a responsabilidade do Estado com as populações atingidas.
“Parabéns por essa potência que vocês são. Nós, enquanto governo, temos que aprender cada vez mais com os movimentos e construir coletivamente uma agenda de justiça ambiental e justiça climática”, afirmou a ministra.
Em sua fala, ela também defendeu que os movimentos populares ocupem os espaços de decisão política. “Temos movimentos grandes e organizados, que precisam assumir a perspectiva de ocupação dos espaços de poder, porque é disso que se trata a possibilidade de transformar o país.”
Uma nova articulação internacional
A criação do movimento internacional será formalizada no ato de encerramento do encontro, que ocorre na quarta-feira (12), no Centro de Eventos Benedito Nunes, na Universidade Federal do Pará (UFPA). Em seguida, as delegações participam da abertura da Cúpula dos Povos, marcada para o mesmo dia.
Para Soniamara Maranho, da coordenação nacional do MAB e do MAR na América Latina, o encontro é resultado de um acúmulo histórico que fortalece a unidade dos povos atingidos em todos os continentes.
“Hoje, o inimigo se intensificou. É o mesmo capital financeiro internacional, que atua nos territórios mais lucrativos do planeta. Brasil, Peru, Colômbia são os três primeiros potenciais hídricos da América Latina. Temos muitos processos de mineração na África. Temos construções de barragens grandiosas na Ásia, as maiores hidrelétricas estão aí. Por isso, precisamos de uma força popular organizada internacionalmente”, afirmou.
“A crise climática virou mercadoria. O sistema capitalista não vai dar solução para isso. Por isso, estamos propondo uma transição energética justa, com participação popular, onde todos tenham acesso à energia e à vida com dignidade”, defendeu Soniamara.
Ela destacou ainda que a consolidação do movimento internacional passa por formar lideranças de base e coordenar ações por continente. “Nós percebemos que em cada país existem muitas organizações fragmentadas. A nossa tarefa agora é criar unidade nacional para ter força política e capacidade de negociação com os governos.”

Histórico: 28 anos de articulação internacional
O encontro em Belém dá continuidade a uma trajetória iniciada em março de 1997, em Curitiba (PR), quando lideranças de 20 países participaram do 1º Encontro Internacional de Atingidos por Barragens.
O evento culminou na criação do Dia Internacional de Luta contra as Barragens, pelos Rios, pela Água e pela Vida, celebrado todo 14 de março, e influenciou a formação da Comissão Mundial de Barragens (WCD, na sigla em inglês).

Seis anos depois, em 2003, o segundo encontro foi realizado em Rasi Salai, na Tailândia. O local simbolizava uma vitória histórica dos atingidos, que conseguiram a abertura das comportas da barragem local e a retomada da vida comunitária. O evento reuniu mais de 300 participantes de 62 países e consolidou o sentimento de solidariedade internacional como eixo da resistência popular.
Já o 3º Encontro Internacional ocorreu em 2010, na comunidade de Temacapulín, no México. A pequena vila era ameaçada pela barragem El Zapotillo, projeto que previa o deslocamento de mais de 800 famílias. Após o encontro e a pressão internacional, o projeto foi alterado, e as vilas foram preservadas.
O 4º encontro marca agora o início de uma nova fase dessa articulação, com o nascimento de um movimento internacional com presença em todos os continentes e com uma estratégia comum para enfrentar a crise climática e o modelo energético hegemônico.
