O cinema brasileiro é uma preciosidade, devíamos ficar orgulhosos de nós mesmos. É uma vitória de todos quando um filme nosso é visto e aplaudido fora do Brasil. Um momento de exaltação, de festa e capacidade, mesmo com todas as adversidades. Por essas e outras podemos dar um viva ao Kleber Mendonça, à trajetória de Cacá Diegues e também ao Festival do Rio que nos proporcionou ter visto esses dois filmes premiados no Festival de Cannes. Eles já chegam aqui com essa espera tão aguardada; e dos brasileiros com o coração aberto para o passado e o presente. Na verdade onde passado e presente se misturam em ambos os filmes.
“Para Vigo Me Voy” de Karen Harley e Lírio Ferreira é um documentário pra ver, rever e ver sempre. E ele nos dá aquela vontadezinha de ir a caça de tudo que o cineasta Cacá Diegues fez desde 1962 até agora, em 2025. Sim, o incansável Cacá tem ainda um filme pra estrear. Cacá é passado, presente e futuro. Morreu em fevereiro deste ano, mas tá mais vivo que nunca. “Deus é Brasileiro 2” está vindo aí. Ou melhor, “Deus Ainda é Brasileiro” chega em dezembro nas telas. Prestigiemos!
E o filme da Karen e do Lírio mostra Cacá lá, com toda a vontade e pensamento a mercê da sua arte aos 84 anos. É emocionante ver o empenho e a capacidade de um homem que dedicou toda sua vida a defender o Brasil e os brasileiros em seu cinema. Cacá era popular, isto é, Cacá é popular. Sempre o foi. Tentava entender esse país tão dividido em classes, raças, crenças e desigualdades, mas também com tanto lirismo.
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Foi marginal, concreto, inovador e corajoso. Lutou pela sua liberdade de expressão artística, defendendo o direito de fazer cinema acima das patrulhas ideológicas e políticas que surgiram nos anos de ditadura, mas que voltaram agora também com um país dividido e empenhado no politicamente correto na arte.
“Para Vigo Me Voy” é uma frase que traduz bem o que é Cacá Diegues como artista. Um cara que se jogou de peito aberto para muitos lugares, como o personagem de José Wilker em “Bye Bye Brasil”. Ele não se aquietava com sua cabeça cinematográfica. Uma prova disso é que, mesmo quando o cinema no Brasil foi quase extinto, Cacá fez um filme de episódios com grandes nomes, como Fernanda Montenegro, Jaqueline Laurence, Débora Bloch, Pedro Cardoso, Emílio de Mello, Fernando Torres, etc… Um filme sobre grandes canções brasileiras de Chico, Caetano e Gil. “Veja Esta Canção” é uma pérola deliciosa de se assistir, se divertir e pensar em poesia cinematográfica.
Cacá Diegues tem um pouco de Fellini, e o documentário mostra bem esse lado lúdico de Cacá. Mesmo quando ele é contestador do racismo no Brasil. Fora muito criticado na época por sua abordagem alegórica em “Xica da Silva”, mas não se rendeu e defendeu o filme. Mesmo entendendo alguns pontos de vista, ele defende a poesia artística e sua liberdade. E não parou. Realizou muitas produções com personagens e realidades do negro. E recentemente, em 2010, esteve por trás da versão CINCO VEZES FAVELA, que ganhou a quase retratação no subtítulo, dizendo, “agora por nós mesmos”, onde a direção era dos artistas da própria favela. Já que em 1962 eram os cineastas do Cinema Novo, como Joaquim Pedro, Leon Hirzman e próprio Cacá, entre outros. Mas seus personagens protagonistas negros foram de “Ganga Zumba” em 1964 a “Orfeu” em 1999.
Cacá também foi um grande parceiro da música brasileira. Só com Chico Buarque, ele fez clássicos inesquecíveis como “Quando o Carnaval Chegar”, “Joanna Francesa”, “O Grande Circo Místico” e o filme que dá origem a frase desse documentário, o “Bye, Bye Brasil”. Mas suas parcerias são inúmeras: Caetano Veloso, Jorge Ben Jor, Gilberto Gil, Cazuza, Milton Nascimento, Gal Costa, Maria Bethânia… Uma amizade e uma admiração tão grande que ele chega a fazer um filme inteiro colocando como protagonistas Chico, Bethânia e Nara Leão, casada com ele na época. “Quando o Carnaval Chegar” é um filme de pura poesia e deleite pra quem gosta da MPB.
Enfim, “Para Vigo Me Voy” é um filme imperdível e obrigatório pra todo brasileiro. Inclusive pra entender o Brasil. Emocionante e esclarecedor.
Mas “O Agente Secreto” de Kléber Mendonça Filho tem isso em comum com o documentário sobre o Cacá, ou seja, mostra o passado e o presente e esclarece aquele universo sombrio dos tempos de exceção que vivemos na época da ditadura. Por essas e outras, também se torna um filme obrigatório para os brasileiros. Mas, sejamos sinceros, tanto toda a filmografia extensa de Cacá, quanto a iniciada por Kleber, merecem ser vistas e revistas. São dois cineastas que descrevem um Brasil, com seus cinemas tão autorais e autênticos, cheios de poesia, emoção e arte. Filmes como “Chuva de Verão” do Cacá, ou “Retratos Fantasmas” do Kleber, têm que ser motivo de orgulho pra qualquer brasileiro. Filmes que entram pra nossa história. Tal qual esses dois que estiveram em Cannes. Não os percam no cinema quando entrarem em cartaz.
*Rogerio Cavalcante e Castro é cineasta.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
