discurso de abertura

Na Amazônia, Lula pede ‘COP da verdade’ e reforça luta contra o racismo ambiental

Ao abrir conferência em Belém, Lula critica líderes negacionistas e alerta que a crise climática é uma tragédia presente

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Diante de chefes de Estado e delegações do mundo todo, presidente Lula falou sobre a urgência de soluções para debelar a crise climática | Crédito: Bruno Peres/Agência Brasil

Na abertura oficial da COP30, realizada nesta segunda-feira (10), em Belém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso enfático em defesa da verdade e da ciência diante do avanço do negacionismo climático. Em discurso para uma plateia formada por chefes de Estado e delegações de todo o mundo, Lula afirmou que a conferência deve colocar as pessoas no centro do debate, com atenção especial às populações mais vulneráveis.

O presidente também criticou o uso da desinformação como arma política e alertou para as consequências da falta de cooperação internacional. Em tom de cobrança, destacou que o mundo caminha “na direção certa, mas na velocidade errada” para conter o aquecimento global. Ao sediar o encontro na Amazônia, o Brasil busca reafirmar seu papel de liderança na agenda ambiental e na defesa do multilateralismo.

“Essa precisa ser a COP da verdade. Na era da desinformação, os obscurantistas rejeitam não só as evidências da ciência, mas também os progressos do multilateralismo. Eles controlam algoritmos, semeiam o ódio e espalham o medo”, argumentou, num claro recado ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, da Argentina, Javier Milei, ao bolsonarismo, e ao avanço da extrema direita por todo o mundo. Citou ainda como exemplo o furacão Melissa, que atingiu o Caribe e o tornado que fustigou o Paraná como exemplos de como a crise climática não é um problema para o futuro, mas, sim, uma tragédia do presente.

“Sem o Acordo de Paris, o mundo estaria fadado a um aquecimento catastrófico de quase cinco graus até o fim do século. Estamos andando na direção certa, mas na velocidade errada”, ressaltou, em alusão a uma das missões mais desafiadoras dessa COP, que será a revisão do acordo de 2015. Lula também disse que a meta de R$ 1,3 trilhão de financiamento climático a juros baixos, que devem ser assumidos na maior fatia por países ricos e grandes corporações, é metade do que o mundo gastou com guerras em 2024.

Chamado à ação

Lula divulgou um chamado à ação em três partes. O primeiro é para que os países cumpram as metas e os acordos já firmados. Até o momento, apenas pouco mais de 70 países haviam divulgado suas novas metas de NDCs, e há apenas 30% de compromissos firmados necessários para evitar que o mundo aqueça acima de 1,5 graus em relação à era pré-industrial. O segundo é acelerar ações climáticas, a exemplo do Fundo Floresta Tropical para Sempre (TFFF), uma grande aposta do governo, lançado na Cúpula do Clima. A terceira é colocar as pessoas no centro do debate, para que o racismo ambiental seja incorporado nos discursos globais de combate à crise climática.

Desafios da COP na Amazônia

O presidente voltou a declarar a importância de realizar a conferência do clima em Belém. “Fazer uma COP aqui é um desafio tão grande quanto acabar com a poluição no mundo. Seriam ais fácil ter feito a COP numa cidade acabada, que não tivesse problemas, e nós resolvemos fazer a COP num estado da Amazônia pra provar que quando se tem disposição política, o homem prova que não tem nada que seja impossível pra ele”, pontuou, em referência a diversas críticas que a cidade recebeu da comunidade internacional por falta de leitos e preços abusivos de hospedagens. Apesar das críticas, das sugestões para mudança de cidade, o evento na Amazônia, que deve receber 50 mil pessoas, já começou.

Discurso do presidente na íntegra

Há mais de 30 anos, na Cúpula da Terra, os líderes do mundo se reuniram no Rio de Janeiro para debater o desenvolvimento e a proteção do meio ambiente. 

Naquele momento, o multilateralismo vivia seu ápice.

O mundo adentrava a chamada década das conferências, da qual emergiram as grandes bússolas que guiaram a humanidade ao longo dessas três décadas. 

Entre elas estão o conceito de desenvolvimento sustentável e o princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas, legados vivos da Rio 92.

Hoje, a Convenção do Clima retorna à sua terra natal.

Ela faz o caminho de volta para recuperar o entusiasmo e o engajamento que embalaram seu nascimento.

Pelas próximas duas semanas, Belém será a capital do mundo.

Negociadores, governadores, prefeitos, parlamentares, cientistas e organizações da sociedade civil farão parte desse grande esforço coletivo em prol do planeta.

Trazer a COP para o coração da Amazônia foi uma tarefa árdua, mas necessária.

A Amazônia não é uma entidade abstrata. 

Quem só vê a floresta de cima desconhece o que se passa à sua sombra.

O bioma mais diverso da Terra é a casa de quase cinquenta milhões de pessoas, incluindo quatrocentos povos indígenas, dispersa por nove países em desenvolvimento que ainda enfrentam imensos desafios sociais e econômicos.

Desafios que o Brasil luta para superar com a mesma determinação com que contornou as adversidades logísticas inerentes à organização de uma conferência deste porte.

Quando vocês deixarem Belém, o povo da cidade permanecerá com os investimentos em infraestrutura que foram feitos para recebê-los.

E o mundo poderá, enfim, dizer que conhece a realidade da Amazônia.

Nos dias que antecederam esta Conferência, chefes de Estado e de Governo, ministros de Estado, representantes de organizações internacionais e da sociedade civil se reuniram na Cúpula de Belém pelo Clima.

Lançamos o Fundo de Florestas Tropicais para Sempre, um mecanismo inovador que angariou, num só dia, 5,5 bilhões de dólares em anúncios de investimento.  

Adotamos compromissos coletivos sobre:

» O manejo integrado do fogo

» O direito à posse da terra por povos indígenas e tradicionais

» A quadruplicação da produção de combustíveis sustentáveis

» A criação de uma coalizão sobre mercados de carbono

» O alinhamento da ação climática ao combate à fome e à pobreza

» E a luta contra o racismo ambiental. 

A Cúpula de Belém foi o ponto de chegada de um caminho que o Brasil convidou a comunidade internacional a percorrer ao longo de suas presidências do G20 e do BRICS.

A síntese dos elementos que recolhemos nessa trajetória está contida no Chamado à Ação que lançamos após a Cúpula a título de contribuição aos debates na COP e além dela. 

A mudança do clima já não é uma ameaça do futuro. É uma tragédia do presente. O furacão Melissa que fustigou o Caribe e o tornado que atingiu o Estado do Paraná, no Sul do Brasil, deixaram vítimas fatais e um rastro de destruição.

Das secas e incêndios na África e na Europa às enchentes na América do Sul e no Sudeste Asiático, o aumento da temperatura global espalha dor e sofrimento, especialmente entre as populações mais vulneráveis.

A COP30 será a COP da verdade. Na era da desinformação, os obscurantistas rejeitam não só as evidências da ciência, mas também os progressos do multilateralismo. Eles controlam algoritmos, semeiam o ódio e espalham o medo. Atacam as instituições, a ciência e as universidades.

É momento de impor uma nova derrota aos negacionistas. Sem o Acordo de Paris, o mundo estaria fadado a um aquecimento catastrófico de quase cinco graus até o fim do século. Estamos andando na direção certa, mas na velocidade errada. No ritmo atual, ainda avançamos rumo a um aumento superior a um grau e meio na temperatura global. Romper essa barreira é um risco que não podemos correr.

Queridos amigos e queridas amigas, 

Nosso Chamado à Ação está dividido em três partes. Na primeira parte, faço um apelo para que os países cumpram seus compromissos. Isso significa: Formular e implementar as Contribuições Nacionalmente Determinadas ambiciosas; assegurar financiamento, transferência de tecnologia e capacitação aos países em desenvolvimento; e dar a devida atenção à adaptação aos efeitos da mudança do clima.

Na segunda parte, conclamo os líderes mundiais a acelerar a ação climática. Precisamos de mapas do caminho para que a humanidade, de forma justa e planejada, supere a dependência dos combustíveis fósseis, pare e reverta o desmatamento e mobilize recursos para esses fins. Avançar requer uma governança global mais robusta, capaz de assegurar que palavras se traduzam em ações. A proposta de criação de um Conselho do Clima, vinculado à Assembleia Geral da ONU, é uma forma de dar a esse desafio a estatura política que ele merece. 

Na terceira parte, convoco a comunidade internacional a colocar as pessoas no centro da agenda climática. O aquecimento global pode empurrar milhões de pessoas para a fome e a pobreza, fazendo retroceder décadas de avanços. O impacto desproporcional da mudança do clima sobre mulheres, afrodescendentes, migrantes e grupos vulneráveis deve ser levado em conta nas políticas de adaptação.

É fundamental reconhecer o papel dos territórios indígenas e de comunidades tradicionais nos esforços de mitigação. No Brasil, mais de 13% do território são áreas demarcadas para os povos indígenas. Talvez ainda seja pouco. Uma transição justa precisa contribuir para reduzir as assimetrias entre o Norte e o Sul Global, forjadas sobre séculos de emissões. A emergência climática é uma crise de desigualdade. Ela expõe e exacerba o que já é inaceitável.

Ela aprofunda a lógica perversa que define quem é digno de viver e quem deve morrer.

Mudar pela escolha nos dá a chance de um futuro que não é ditado pela tragédia. O desalento não pode extinguir as esperanças da juventude. Devemos a nossos filhos e netos a oportunidade de viver em uma Terra onde seja possível sonhar.

O xamã ianomâmi Davi Kopenawa diz que o pensamento na cidade é obscuro e esfumaçado, obstruído pelo ronco dos carros e pelo ruído das máquinas.

Espero que a serenidade da floresta inspire em todos nós a clareza de pensamento necessária para ver o que precisa ser feito. 

Uma boa COP30.

Muito obrigado.

Editado por: Maria Teresa Cruz

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