O Coletivo Feminino Plural reinaugurou nesta segunda-feira (10), em Porto Alegre, o Acervo Feminista Enid Backes. Reconhecido como referência em gênero e direitos das mulheres, o espaço passou por um processo de ampliação e qualificação, e está localizado na rua Vigário José Inácio, 399, sala 310, no Centro. Com a reabertura, o acervo passa a reunir mais de duas mil obras e se consolida como um centro de memória, pesquisa e ação feminista no Rio Grande do Sul.
“Hoje estamos aqui para relançar o Acervo Enid Backes, que completa dez anos desde o seu primeiro lançamento. Trata-se de uma coleção com mais de dois mil livros, e, com esta nova edição, incorporamos mais 140 obras ao acervo. A Enid foi uma socióloga feminista que sempre esteve na linha de frente da luta pelos direitos das mulheres, e é em homenagem à sua trajetória que nos reunimos aqui”, afirmou a coordenadora do coletivo, Mariza Iracet.

Télia Negrão, fundadora do coletivo, complementou: “Estamos inaugurando um acervo porque acreditamos que o conhecimento liberta. Ele nos coloca no mundo com poder — um poder com, um poder para, um poder sobre — dentro de uma perspectiva de transformação da sociedade. Para mim, isso também é um marco. Desejo às minhas companheiras que continuem essa trajetória. Aqui, vemos surgir uma nova geração”.

A iniciativa faz parte do projeto “Saberes e Poderes de Mulheres e Garotas – articulando estratégias de rebeldia e resistência”, apoiado pelo Ministério das Mulheres, por meio da emenda parlamentar nº 971345/24, da deputada federal Maria do Rosário (PT/RS). O espaço homenageia a socióloga e ativista Enid Backes (1942–2023), uma das vozes mais importantes da luta pela igualdade de gênero no estado e no país.
“A gente acredita muito nesse trabalho que interage cultura feminista com a nossa integração como mulheres e as meninas também, construindo um mundo sem violência, com respeito e reconhecimento ao nosso papel como cidadãs políticas. E o Coletivo Feminino Plural faz essa jornada. A Enid Backes, que hoje é a nossa homenageada, tem um acervo sendo aberto porque ela tem toda uma história”, destacou a deputada.
Rosário também enfatizou o papel das emendas parlamentares, defendendo que os recursos públicos sejam aplicados de forma a fortalecer a sociedade civil.
“Eu acredito que emendas parlamentares não deveriam existir como elas existem. E, na medida em que elas existem, eu tenho procurado priorizar a sociedade civil e o apoio à sua organização autônoma. O significado disso é realmente poder fazer com que a atuação de um governo democrático atue em conjunto com a sociedade civil e, no caso aqui, a luta das mulheres”, explicou.

No evento, estiveram presentes as Garotas de Vermelho, coletivo formado por alunas da Escola Saint Hilaire, autoras do primeiro livro do Brasil escrito por crianças para dialogar com outras crianças e adolescentes sobre menstruação. A iniciativa ultrapassou os portões da escola e os limites da Lomba do Pinheiro: as estudantes são convidadas por outras instituições, públicas e privadas, para compartilhar a metodologia desenvolvida pelo grupo. O projeto já rendeu prêmios e contribuiu para o reconhecimento da Saint Hilaire como uma das “melhores escolas do mundo”.
Uma das precursoras do coletivo Garotas de Vermelho, Joana Dorneles, de 16 anos, destacou a importância de participar da atividade promovida pelo Coletivo Feminino Plural:
“O Coletivo Feminino Plural nos convidou, e está sendo uma oportunidade incrível de conhecer vários livros de mulheres importantes, mulheres que fazem parte da nossa história. Para a gente estar aqui hoje, foram essas mulheres que abriram o caminho. É muito gratificante ver um acervo cheio de livros de mulheres que nos representam, que fazem a gente se ver neles. É muito importante para nós, meninas, mulheres. Então, venham conhecer o acervo, que está demais.”

Filha de Enid, a artista Laura Backes celebrou. “Tenho certeza de que minha mãe está muito feliz com essa reinauguração. Como dizia Simone de Beauvoir, a gente não nasce mulher, a gente se torna. Minha mãe não nasceu feminista — ela se tornou feminista. E esse processo de transformação veio das trocas de saberes: com os livros, com as pessoas, com as conversas, com as observações. Foi nesse diálogo constante, entre a palavra escrita e a palavra falada, que ela construiu o seu feminismo.”
Sobre o Coletivo Feminino Plural
Com a reinauguração, o Coletivo Feminino Plural afirma que o seu objetivo é preservar a memória feminista e o fortalecer a cidadania ativa das mulheres, mantendo vivo o legado de Enid Backes – ecofeminista, resistente à ditadura militar e defensora dos direitos sexuais e reprodutivos – que continua a inspirar novas gerações na luta por justiça e igualdade.

O evento contou com a participação de diversos coletivos feministas, autoras, pesquisadoras e ativistas comprometidas com a valorização das mulheres e a promoção da igualdade de gênero, além da parceria do Observatório de Feminicídios Lupa Feminista.
