ARTIGO

Clube da Esquina: a cultura comunitária do encontro

Da esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis, no Santa Tereza, em BH grupo revolucionou a música brasileira

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Esquina das ruas Petrópolis e Divinópolis, no bairro Santa Teresa, em Belo Horizonte (MG) | Crédito: Foto:

Faleceu Lô Borges, um dos fundadores do Clube da Esquina, movimento que, nos anos 1970, revolucionou a música brasileira. A partir dos encontros de um grupo de jovens — Milton Nascimento, Toninho Horta, Wagner Tiso, Beto Guedes, os irmãos Borges, entre outros — nasceu, naquela esquina das ruas Paraisópolis e Divinópolis, no bairro de Santa Tereza, em Belo Horizonte, uma nova musicalidade e uma comunhão criativa que marcou gerações.

Minha história com Lô Borges é remota e singela, mas marcante. No final dos anos 1980, durante um trabalho escolar, precisávamos fazer uma apresentação sobre um artista mineiro. Um colega que dizia ser sobrinho de Lô Borges, sugeriu entrevistá-lo. Incrédulos, mas curiosos, topamos a empreitada.

Guardo na memória aquele moço sorridente e gentil que nos recebeu em sua casa, o lanche na mesa, o gravador de fita cassete chiando, e sua paciência diante das nossas perguntas desajeitadas. O ponto alto ficou gravado na alma: Lô sentou-se ao piano e cantou um trecho de “O Trem Azul” – “Você pega o trem azul, o sol na cabeça…”.

Aquele momento singelo voltou à mente ontem, quando vi os vídeos de centenas de pessoas reunidas, quase espontaneamente, na mesma esquina do Santa Tereza, para um tributo ao Lô Borges. Um verdadeiro “show congregacional”, em que vozes se uniram para cantar O Trem Azul em coro emocionado, a mesma música que ele cantou naquela entrevista – provavelmente, a pior entrevista que ele deu na vida; mas, para mim, a melhor que eu participei.

Legado do Clube da Esquina é a cultura do encontro

Aquela reunião improvisada de músicos, fãs e amigos refletiu a natureza do próprio Clube da Esquina: um movimento orgânico, nascido do encontro e não da estrutura.

Nos anos 1980, quando o grupo já era conhecido internacionalmente, o guitarrista Pat Metheny e o tecladista Lyle Mays vieram ao Brasil para conhecer a sede do famoso “Corner Club”. Ao descobrirem que o “clube” não era um prédio, mas pessoas, ficaram surpresos. O Clube da Esquina nunca teve sede — o Clube era o encontro.

Não é o prédio, nem equipamentos: é o encontro

Essa lição musical e humana vale também para a igreja. Não é o prédio, nem os equipamentos, nem a organização que formam a comunidade do Reino, mas o encontro. São as pessoas — e não as instituições — que constroem a cultura do Reino de Deus na terra.

O encontro da noite de ontem em Santa Tereza é testemunho vivo de uma cultura comunitária que nossas igrejas, infelizmente, têm abandonado. Em seu lugar, cresce a cultura das franquias eclesiásticas, que transformam comunidades em marcas e pastores em representantes de organizações. Igrejas tornam-se grifes, e os membros, consumidores religiosos.

Nossos templos imponentes e reuniões espetaculares não têm conseguido reacender o fogo dos avivamentos do passado — como os que nasceram nos campos do País de Gales ou no subúrbio na Rua Azuza, em Los Angeles.

O risco é o mesmo dos israelitas que tentaram sequestrar a arca de Deus para seus próprios interesses (1 Samuel 4): transformar a presença divina em propriedade privada. O resultado, então como agora, é derrota, vergonha e morte espiritual.

Estêvão, em seu discurso, lembrou que o Altíssimo não habita em casas feitas por mãos humanas. “O céu é o meu trono, e a terra, o estrado dos meus pés; que casa me edificareis, diz o Senhor? Ou qual é o lugar do meu repouso? Não foi, porventura, a minha mão que fez todas estas coisas?(Atos 7:48-50).

Talvez, o legado mais duradouro do Clube da Esquina, que nunca construiu para si prédio, organização ou plano de negócios, seja justamente este: a essência do encontro sobre qualquer estrutura organizacional.

A igreja, como embaixada do Reino de Deus, precisa redescobrir essa simplicidade — voltar a colocar Cristo no centro e o Reino acima de nossas carências e expectativas religiosas.

Porque, afinal, como declarou João Batista, “importa que Ele cresça, e que eu diminua” (João 3:30). Soli Deo Gloria.

Anderson Lopes

Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Elis Almeida

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