Milhares de servidores públicos estaduais saíram às ruas de Porto Alegre, na manhã desta terça-feira (11), para participar de um ato unificado que teve início em frente ao IPE Saúde e seguiu até o Palácio Piratini. A mobilização marca mais uma escalada da insatisfação da categoria com a política salarial e a gestão dos serviços públicos no Rio Grande do Sul. Servidores da educação, saúde, policiais civis e demais trabalhadores do funcionalismo reivindicam reajuste e garantias para a manutenção dos direitos.
Segundo o Sindicato dos Professores e Funcionários de Escola do Estado do Rio Grande do Sul (Cpers Sindicato), a pauta central do movimento inclui exigências de reposição salarial, defesa dos institutos de previdência e saúde, e resistência à municipalização de escolas estaduais e à desestruturação das carreiras públicas. Para a presidenta do Cpers, Rosane Zan, o cenário é de descaso e falta de vontade política.
“Nós temos aí a lei orçamentária anual, e ela não apresenta nada em termos de reajuste pros servidores públicos, principalmente para a educação. Dinheiro tem, o que falta é vontade política por parte do governo”, afirmou.
O vice-presidente da entidade, Alex Saratt, reforçou que o sindicato segue “do lado certo, o lado do povo e da educação pública”, defendendo uma escola “sintonizada com as demandas da cidadania, da democracia e do mundo do trabalho”.
“Para os trabalhadores, a luta vai além da categoria. Reflete uma situação que compromete a qualidade dos serviços oferecidos à população em um estado com déficit significativo no efetivo e nas condições de trabalho”, reforçou Saratt.

Revisão salarial e poder de compra em queda
Uma das demandas mais contundentes é a reposição geral de salários. O Cpers informa que, desde 2014, a inflação acumulada consumiu mais de 70% do poder de compra dos servidores estaduais. Inicialmente, a reivindicação estava fixada em 12,14%, conforme anúncio de mobilização em maio de 2025.
Durante o ato, Fabiano Salazar, dirigente do Sindicato dos Servidores da Justiça do Rio Grande do Sul (Sindjus), lembrou que “ao longo dos últimos anos já são mais de 70% de perdas inflacionárias” e questionou: “Qual é a lógica que eles defendem para eles? São reajustes nominais altíssimos, enquanto os nossos salários estão cada vez mais achatados”.
Segundo ele, a categoria está preparada para reagir: “Nós vamos mostrar que vamos dar o troco, dar a resposta e enxotar do Piratini quem não nos defende”.
Entre as lideranças presentes, Neiva Lazarotto, da Intersindical, destacou o adoecimento dos servidores diante do arrocho. “Do jeito que está, não dá mais para trabalhar. Nós temos gente endividada, adoecendo. Só no primeiro semestre, foram quase dois mil atestados oficiais. Precisamos fazer de tudo para não deixar passar a maldita reforma administrativa, que acaba com os serviços públicos.”

Desmonte do instituto de saúde e impacto nos servidores
A concentração inicial do ato em frente ao IPE Saúde expôs a gravidade da crise no plano de saúde dos servidores. A mobilização exige transparência, melhoria no atendimento e fim de desligamentos e descredenciamentos que, segundo os trabalhadores, pioraram o acesso aos serviços. Rosane Zan alertou para o desequilíbrio entre custo e atendimento: “Nós estamos pagando mais IPE Saúde, e ao contrário disso, o serviço lá na ponta é bem menor do que nós queríamos”.
A policial penal Iolanda Rafaeke, do Comitê de Defesa do IP Saúde, foi incisiva ao denunciar o colapso no atendimento, especialmente no interior do estado: “É impossível vivermos com um salário defasado há mais de dez anos. O atendimento médico no interior está precário e as pessoas estão morrendo por falta de assistência. Nós queremos atendimento de qualidade e saber pra onde vai o nosso dinheiro”.
No mesmo tom, Érico Correa, presidente do Sindicato dos Servidores do Quadro Especial da Secretaria da Administração e Recursos Humanos (Sindicaixa), destacou que o arrocho só aumentou: “Pois bem, esse índice agora já é de 15,20%. Durante este ano, o arrocho aumentou”. Ele defendeu que o governo de Eduardo Leite (PSD) “é uma farsa, um boneco do mercado”, e que os servidores “levantem a cabeça e enfrentem o governador”.
Para Correa, o enfraquecimento do IPE Saúde compromete não só os servidores, mas toda a comunidade. “Quando quem presta serviço público está adoecido ou desassistido, quem sofre é toda a população”, disse.

Carreiras, educação pública e municipalização
Outro eixo da mobilização é a resistência contra mudanças no plano de carreira e na estrutura do quadro funcional da educação. O Cpers denuncia tentativas de municipalização e transferência de turmas sem consulta à comunidade escolar, além de uma política de “meritocracia” que, segundo o sindicato, fragiliza a profissão docente.
Gabriela Rodrigues, presidenta da União Metropolitana dos Estudantes Secundários de Porto Alegre (Umespa), afirmou que o governador “é o inimigo da educação e do povo do estado”, lembrando que ele “tomou a decisão junto com o prefeito Sebastião Melo (MDB) de tirar os sextos anos das escolas sem nenhum tipo de consulta à comunidade escolar”.
Para Helenir Aguiar Schürer, ex-presidenta do Cpers e dirigente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), o governo “acena com 14º salário e prêmio para aluno, mas diz que não tem dinheiro para valorizar os trabalhadores da educação”. Ela completou: “Nós não estamos pedindo os 74% de defasagem que temos. Queremos 15,02%, e o Leite tem que nos ouvir”.
A professora aposentada Silvia Teixeira, da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), destacou a força da mobilização: “Como é bom ver que está lotado e que não são somente aposentados, há muita juventude aqui. Chega deste desmando e deste descaso. Vamos pra rua exigir o que é nosso por direito”.
De Uruguaiana, Zilá Terezinha Soares Fidel, professora aposentada do 21º Núcleo do Cpers Sindicato, lembrou que há cinco anos o governo volta a descontar previdência de quem já pagou. “E até hoje o governo Leite não dá o nosso devido valor. Em Uruguaiana não existe mais médico credenciado pelo IPE – só o desconto”.

Disputa política e reação na Assembleia
A mobilização também contou com parlamentares que criticaram duramente a política estadual. O deputado Jeferson Fernandes (PT) classificou o aumento das contribuições ao IPE Saúde como “um projeto malévolo do governador”. “Hoje os servidores que pagaram a vida inteira chegam a pagar 247% a mais do que pagavam antes do governo Eduardo Leite. Muitos aposentados nem vieram porque estão tão idosos que não têm condições de sair de casa. Isso é violência contra o Estatuto da Pessoa Idosa.”
A deputada Luciana Genro (Psol) reforçou que o arrocho se soma a um cenário de assédio moral e superendividamento. “É o assédio, é o arrocho, é a falta de perspectiva na carreira. Nós derrotamos o Bolsonaro nas eleições, mas aqui no estado precisamos enfrentar o Leite nas ruas”, afirmou. Ela parabenizou escolas que resistiram à tentativa de fechamento de turmas e denunciou o “desmonte e a privatização” da educação pública.
Já a deputada Stela Farias (PT) lembrou que “foram 6% de um recurso que nunca chegou ao bolso dos servidores”, criticando o aumento das alíquotas e a conivência do Ministério Público. “É escandaloso o MP autorizar o governo a não cumprir os 25% constitucionais da educação. E ainda vimos o Tribunal de Contas barrar 99 escolas de serem privatizadas”, destacou.
Impactos sociais e desafios para o futuro
Segundo o Cpers, a crise no funcionalismo do Rio Grande do Sul ultrapassa os limites das reivindicações salariais: atinge a qualidade dos serviços públicos, a garantia de direitos básicos e a confiança da população. O colapso no atendimento nas escolas, a sobrecarga nos hospitais e a insuficiência de servidores exigem respostas urgentes.
Para o sindicato e as demais entidades, a luta é também por dignidade e respeito. “Nós estamos pagando caro, adoecendo, e ainda somos tratados como inimigos”, sintetizou Zan.
Para Lazarotto, “a mobilização desta terça-feira indica que a categoria está disposta a permanecer nas ruas até que haja avanços concretos — e que a sociedade acompanhe essa luta como parte da garantia dos seus próprios direitos”.
“A nossa luta não é só por reajuste, é por futuro”, afirmou Zan, presidenta do Cpers. “Porque quando o estado abandona seus servidores, ele está abandonando o povo.”
Vice-presidente da entidade, Saratt completou: “Queremos uma escola e um serviço público conectados com a democracia e com a vida real da população.” E, nas palavras de Helenir, da CUT: “Nós seguimos nas ruas, com coragem e esperança, porque é lá que o trabalhador faz história.”
