Numa homenagem aos 120 anos da poetisa Lila Ripoll, a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul lançou, na quarta-feira (12), durante a 71ª Feira do Livro de Porto Alegre, a obra Tecendo esperança. O trabalho, realizado pelo Departamento de Cultura da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul, reúne 29 poemas da autora. A servidora Analia Sanches Dornelles, organizadora da publicação, dividiu a produção poética de Lila em três partes: a lírica, a da luta das mulheres e a da política pela paz, fraternidade e transformação social.
A diretora do Departamento de Cultura, jornalista Michele Limeira, explicou que designou Analia para a tarefa porque foi ela quem, em 2004, organizou a primeira edição do Prêmio Lila Ripoll de Poesia — homenagem criada por iniciativa dos então deputados estaduais Raul Carrion e Jussara Cony. Segundo Limeira, este foi o ano com maior número de inscrições ao prêmio.
“Foram 2.137 poemas inscritos, o maior número já registrado pelo Departamento de Cultura nos 19 anos do prêmio. Desses, 1.913 foram validados. Em 2024, foram 205 poemas validados e, em 2023, 1.876. Os 1.913 poemas validados neste ano são de autoria de 955 poetas de todos os estados brasileiros”, conta a jornalista.

Durante a solenidade, também foi lançada a separata 19º Prêmio Lila Ripoll de Poesias – Poemas Vencedores. Instituída em 2004, a premiação tem o intuito de fomentar o desenvolvimento cultural e estimular a criação artística, por meio da divulgação e valorização da poesia dedicada às causas sociais e às questões de gênero, além de dar visibilidade a novos talentos literários.
Segundo o ex-deputado Raul Carrion, a ideia da nova publicação surgiu em função dos 120 anos de nascimento de Lila Ripoll e também porque todas as obras da autora estão esgotadas. Ele explicou que procurou a deputada Bruna Rodrigues (PCdoB) e o presidente da Casa, deputado Pepe Vargas (PT), para apresentar a proposta. “A Lila foi uma mulher pioneira em sua época”, afirmou Carrion, ao destacar as três partes que compõem a obra.
Em nome dos familiares da poetisa, Ana Augusta Ripoll Machado lembrou que Lila foi uma mulher de vanguarda que fez muito pelas mulheres de sua época. “Nos honra sermos familiares dela e ver que ela é prestigiada até hoje”, afirmou, referindo-se ao prêmio da Assembleia que leva o nome da autora. Conforme Machado, os novos talentos revelados na premiação, que já chegou à 19ª edição, levarão adiante a bandeira da escritora, que se perpetua como uma das grandes poetisas do Rio Grande do Sul.
A ex-deputada Jussara Cony, autora do projeto que criou o prêmio com o nome da poetisa, declamou o poema Primeiro de Maio, que denuncia o assassinato, pela polícia, em 1950, no município de Rio Grande, de quatro lideranças operárias do Partido Comunista do Brasil que participavam das manifestações do Dia Internacional dos Trabalhadores. “Lila nos deixou esses versos para que a gente tenha sempre a coragem de comemorar o 1º de maio, as vitórias do povo e das mulheres, e que a gente resista sempre”, enfatizou.
Lila Ripoll, uma poeta militante
Em 12 de agosto de 1905, em Quaraí, fronteira o Uruguai, nasceu Lila Ripoll. Seus pais eram Florentino Ripoll e Dora Pinto de Ripoll. O sobrenome veio de um antepassado catalão, natural da cidade de Ripoll, na região de Gerona, na Espanha. Seu pai, que ganhava a vida com atividades campeiras, tornou-se jóquei e compositor, além de montar e cuidar de cavalos de corrida.
Aos oito anos, Lila iniciou seus estudos de piano e descobriu a música. Ainda adolescente, começou a dar aulas do instrumento. Em 1927, mudou-se para Porto Alegre para completar sua formação musical no Conservatório de Música (antigo nome do Instituto de Artes da Ufrgs). Porém, o amor pelos livros, despertado na infância, transformou-se em criação poética, e ela passou a publicar seus primeiros poemas na Revista Universitária.
Ingressou no magistério estadual como professora de Coro Orfeônico da Escola Estadual Venezuela, em Porto Alegre, em 1930. Nessa época, integrou-se a um grupo de escritores gaúchos. Além de seus conterrâneos Dyonélio Machado, Carlos Reverbel e Cyro Martins, tornou-se amiga de Reynaldo Moura, Manoelito de Ornellas, Athos Damasceno, Ovídio Chaves e Vidal de Oliveira.
Em 1934, iniciou sua militância política no Partido Comunista do Brasil. Participou da Aliança Nacional Libertadora e, grande admiradora de Luís Carlos Prestes, teve intensa atuação junto à frente intelectual do partido. No Sindicato dos Metalúrgicos, dirigiu o Departamento Cultural (1935–1939), ministrando aulas de música e literatura e fundando o Coral dos Metalúrgicos.
Seu primeiro livro, De Mãos Postas, foi publicado pela Livraria do Globo, em 1938. Sua segunda obra poética, Céu Vazio, foi lançada em 1941 e recebeu, em 1943, o Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras. No mesmo ano, Lila foi homenageada pela Associação Riograndense de Imprensa (ARI).
Escrevendo para o Suplemento Literário do Correio do Povo, Lila Ripoll associou-se à ARI. Sua atividade jornalística foi mais intensa nas publicações do partido — A Tribuna Gaúcha, revista A Leitura, revista Horizonte, Partidários da Paz e Dom Casmurro, no Rio de Janeiro.
Em 1947, lançou pela editora José Olympio seu terceiro livro, Por quê?. Na campanha eleitoral de 1950, foi candidata a deputada estadual e viajou por todo o estado. Em 1951, publicou três livros na coleção Cadernos da Horizonte. O primeiro, Novos Poemas, evocava a repressão sangrenta que vitimou líderes operários em Livramento. A obra recebeu o Prêmio Pablo Neruda, concedido pelo Conselho Mundial da Paz, com sede em Praga.
No ano seguinte, publicou Primeiro de Maio, poema extenso em protesto pelo massacre ocorrido no Dia do Trabalhador na cidade de Rio Grande. Com Poemas e Canções, lançado em 1957, completou uma trilogia de obras engajadas.
As atividades políticas de Lila motivaram sua prisão nos primeiros dias do golpe militar de 1964. Foi libertada em seguida, pois enfrentava um câncer em estado avançado. Faleceu em 7 de fevereiro de 1967.
A Academia Literária Feminina do Rio Grande do Sul escolheu Lila Ripoll como patrona da Cadeira 26, e o Instituto Estadual do Livro inaugurou uma sala de eventos com seu nome. O escritor Pilla Vares escreveu sobre ela: “Lila optou. E manteve-se fiel até o fim à sua escolha — uma escolha absoluta, radical e que, por isso mesmo, coloca as premissas para a superação da morte. Deixou uma obra e um espelho, que são suas poesias e sua vida. Creio que não traí sua amizade”.
