Uma Assembleia Popular em Defesa da Natureza, realizada nesta quarta-feira (12) reuniu lideranças de movimentos sociais, representantes de instituições públicas e membros da sociedade civil em um dia de escuta e mobilização. O evento, realizado na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e alinhado à Cúpula dos Povos – que ocorre em paralelo à Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP30), em Belém – teve como objetivo pressionar autoridades por soluções concretas diante dos impactos ambientais que afetam populações vulneráveis.
Transição energética e injustiça social no Semiárido
Durante a primeira mesa de debates, o procurador do Ministério Público Federal na Paraíba (MPF-PB), José Godoy, alertou para os riscos da transição energética conduzida por empresas privadas. Segundo ele, 65% das companhias do setor são controladas por capital estrangeiro, o que tem gerado expropriação de terras e adoecimento de comunidades no Semiárido.
“O nosso Semiárido é manchado por um sacrifício cruel. Não existe defesa ambiental sem considerar as pessoas que vivem nesse ambiente. Moradores próximos a parques eólicos sofrem com perda auditiva, problemas circulatórios e depressão provocados pelo ruído e pela vibração das turbinas. Os empregos gerados são temporários, enfraquecendo a economia local”, afirmou Godoy.
O procurador apresentou ações do MPF para mitigar esses impactos, como a criação de uma minuta de contrato justo, um protocolo contra o assédio empresarial e a definição de uma distância mínima de dois quilômetros entre geradores e espaços essenciais.
Agroecologia como alternativa à devastação
A segunda mesa abordou caminhos concretos para enfrentar a crise climática por meio da agroecologia. O professor Alexandre Eduardo defendeu práticas sustentáveis como forma de resistência e soberania alimentar. Luiz Damázio, da Comissão Pastoral da Terra (CPT), apresentou a experiência da Feira Agroecológica Ecovárzea, destacando a importância da agricultura familiar.
“É preciso fortalecer os territórios e os saberes populares. A agroecologia não é só técnica, é política. É a forma como o povo se relaciona com a terra, com a água e com a vida”, pontuou Damázio.
Povos tradicionais e o grito da natureza
A cacica Josélia Potiguara, da Associação Cultural de Indígenas em Contextos Urbanos da Paraíba (Acicup), fez um chamado à consciência coletiva diante das agressões ambientais.

“Se há agressão à natureza, uma hora ela vai dar uma resposta. E, quando ela grita, todo mundo escuta. Infelizmente, o ser humano só escuta quando está quase irreversível. Mas ainda é tempo, ainda dá para salvar a gente”, declarou.
Dilei Aparecida, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (Mst), reforçou que vidas humanas estão em jogo e criticou o modelo de desenvolvimento baseado no agronegócio, na mineração e na expropriação de comunidades tradicionais.

“Só tem uma forma que a gente pode mudar as coisas. É conscientizando o nosso povo e fazendo luta. Assumindo o planeta como nosso. Os bens da natureza não podem virar um monopólio de poucos. Eles têm que ser propriedade do povo. Para isso, o Estado tem que assumir o comando, mas não a serviço das grandes empresas. O povo tem que decidir para onde vai”, afirmou.
Cannabis medicinal e soberania popular
Encerrando a manhã, Adarlan Silva, do Centro de Pesquisa e Estudos da Cannabis Medicinal (Cebrapcam), destacou a luta pelo uso medicinal da planta como parte do enfrentamento ao poder da indústria farmacêutica. Ele lembrou que a Paraíba foi pioneira no cultivo para fins medicinais e que o centro acompanha cerca de 1.200 pacientes em todo o país.
“A cannabis medicinal é uma resposta concreta à negação de direitos. Em três anos, conseguimos tratar mais de 30 patologias com base no saber popular e científico. Isso é soberania, isso é resistência”, disse Silva.
Apoio coletivo e articulação nacional
A assembleia contou com o apoio de diversas organizações, como o projeto Mãos Solidárias, Central Única dos Trabalhadores (CUT), Comissão Pastoral da Terra (CPT), Federação dos Trabalhadores Rurais, Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado da Paraíba (Fetag-PB), Movimento de Trabalhadoras e Trabalhadores por Direitos (MTD) e Levante Popular da Juventude. Professores, pesquisadores e integrantes de comunidades tradicionais também participaram da Assembleia.
A Cúpula dos Povos, que começou esta semana na Universidade Federal do Pará (Ufpa), segue até o dia 16 de novembro, reunindo movimentos sociais e redes populares de todo o mundo.
Fotos: Carla Batista




