De autoria e com direção geral do professor Francisco Marshall, A voz da Ninfa é um drama histórico apresentado entre os jazigos do Cemitério da Santa Casa (Av. Professor Oscar Pereira, 423), em Porto Alegre, à noite. Com recursos de iluminação, projeções e música incidental, duas figuras de ninfas da estatuária da necrópole, Vida (interpretada por Victoria Carnelli) e Vigorosa (Denizeli Cardoso), ganham vida e evoluem conduzidas por Caronta (versão feminina de Caronte, o barqueiro funerário, encarnada por Paulina Nólibos).
Ao falarem, as Ninfas interpelam a figura de um patriarca (Laura Medina), elaborando o contraste entre a ética feminina, de amor e zelo, e as tradições do patriarcado antigo, de ambição, lei, guerra e glória.
“O tema da ninfa é muito instigante, provocativo. E aqui há, nesse espetáculo, um olhar contemporâneo, um olhar feminista, um olhar engajado, emancipatório, que fala mais do tempo em que vivemos diante da memória histórica profunda que está representada no cenário”, destaca o diretor.
Em três atos, a performance promove uma mutação temporal, em que os valores de figuras da República Velha e de uma história que vem de Roma são enfrentados, produzindo uma transformação ética à luz de valores femininos contemporâneos femininos.

Criação inédita, primeiro espetáculo do novíssimo edital de Criação de Dramaturgia e Encenação sobre o Cemitério da Santa Casa (Lei Rouanet/Ministério da Cultura), A Voz da Ninfa estreou em 31 de outubro (aludindo à temática de Dia das Bruxas, de Todos os Santos e Finados), cumprindo curta temporada naquele fim de semana, agora retomando as sessões nesta quinta-feira (13).
Ao longo do trajeto, jazigos monumentais do Cemitério da Santa Casa, de grande valor artístico e histórico, são utilizados como cenários, apresentados e comentados. Há um palco dinâmico, movendo-se pelo cemitério, e a plateia estará igualmente em movimento, avançando junto com a trupe.
A música original de Vagner Cunha amplia a dramatização e a beleza estética, somando-se às imagens das projeções de Jana Castoldi, aos efeitos de iluminação de Prego & Osório e outros efeitos especiais. Nos entreatos, há performance coreográfica de Thaís Petzhold, representando as ninfas do parque de jazigos. Ao final, haverá um grande clímax, em forma de celebração.
Os poucos ingressos disponíveis que restam estão à venda na plataforma Sympla. A procura para as primeiras apresentações foi muito grande, tornando a iniciativa um sucesso, o que demandou a abertura de sessões extras.
Nesta quinta-feira (13) e sexta-feira (14), as apresentações são às 19h30 e 21h30, por R$ 35,00 (meia-entrada) e R$ 70,00 (inteira). Os mesmos horários seguem no sábado (15), mas as entradas já foram esgotadas.

“As razões de sucesso, creio que são várias. A primeira é porque é um lugar que, muitos já sabem, é um museu a céu aberto, belíssimo, e que agora está sendo valorizado, como se fosse o cenário de uma obra de arte. Então, isso é muito atrativo. E, ademais, claro, toda a espetacularização que nós estamos representando ali promove ainda mais esse patrimônio”, opina Marshall.
O pesquisador, que é referência na área de Memória Patrimônio e na vida artística da capital, ainda lembra que há uma “política cultural de atividades, caminhadas culturais, oficinas de fotografia, que são ali realizadas e que já tem destacado, no cenário da cultura de Porto Alegre, o Cemitério da Santa Casa como um local muito ativo culturalmente”.
O diretor também credita o reconhecimento à qualidade de toda a equipe envolvida: “Além disso, como atrativo, o espetáculo conta com personalidades de grande renome: Júlio Conte, num papel muito paradoxal, de assistente de direção; Wagner Cunha, um compositor consagrado; nosso grande elenco (Laura Medina, Denizeli Cardoso, Paulina Nólibos e uma estreia maravilhosa de Victoria Carnelli); as projeções de Jana Castoldi; a técnica de Prego & Osório. São elementos de riqueza artística que ajudam a deixar claro para o público que se trata de uma produção muito elaborada, sofisticada, consistente e bonita. Por isso, o espetáculo lotou na primeira temporada, em poucas horas de oferta dos ingressos, e agora não será diferente na segunda temporada. Queremos que, eventualmente, retorne ao cartaz em Porto Alegre, porque é importante realizar, é muito bonito e tem valor para a comunidade”.
Museu a céu aberto

Esta é a primeira montagem dramatúrgica realizada no Cemitério da Santa Casa, um sonho antigo de Francisco Marshall. Nessas últimas décadas, seus projetos sempre representaram uma contribuição grandiosa para a cultura da cidade e do Estado. Deve haver outros produtores culturais locais que já idealizaram alguma atração ali também, uma vez que o sítio é sede de aulas, visitas técnicas guiadas e passeios noturnos.
A principal motivação do professor foi valorizar o patrimônio artístico desse verdadeiro museu a céu aberto, um acervo de extraordinária beleza e significação, elaborando-se visões da condição feminina, como demandado pelo edital do Centro Histórico-Cultural Santa Casa e como proposto no projeto.
Marshall é profundo conhecedor desse ambiente funerário, suas linguagens e memórias, que são parte vital da concepção artística. Com certeza, ele inaugurou com esta atração um novo capítulo da vida artística e cultural em Porto Alegre, dando vida ao cemitério e à história, o que a grande procura do público só confirmou.
“Todos os cemitérios no mundo possuem um valor histórico, depende da interpretação. Porém, no nosso caso, o Cemitério em Santa Casa é o precursor, portanto, o mais antigo, que tem maior volume e qualidade de documentação funerária. Ali estão tumbas monumentais de grandes lideranças da história da República Velha, da história social de Porto Alegre, representações sociais importantes, muito diferentes e heterogêneas”, explica o pesquisador.
Na opinião do especialista, o segundo componente do valor é que há uma política cultural do Centro Histórico Cultural de Santa Casa “que repercute no uso cultural do Cemitério de Santa Casa, que favorece as ações criativas e culturais e isso, evidentemente, amplia o interesse. Porém, eu já tinha, há muito tempo, motivação para ali realizar o que agora acontece, uma produção artística e cultural de grande envergadura”.
O diretor do espetáculo recorda que esta oportunidade foi propiciada por um edital de Criação Dramatúrgica, que o Centro Histórico Cultural da Santa Casa publicou em 2024, no qual se habilitou e foi contemplado para ganhar as condições de conceber, produzir e estrear A Voz da Ninfa.
“Como historiador, arqueólogo, morador e pesquisador de Porto Alegre, ao longo de toda a minha vida, desde sempre, quis realizar ali algo importante, como uma ópera, um filme ou como agora estamos realizando esse drama de superprodução, com performance, um texto muito potente que examina a memória histórica, o patriarcado, a cidade, uma noção de tempo profundo, mas, ao mesmo tempo com um relevo, com uma hipersensibilidade de projeções, música, coreografias, que dão vida, fazendo aquele patrimônio cenográfico muito rico de memória, de poéticas, brilhar na noite de Porto Alegre. Então, sim, para mim, como criador, Chico Marshall, era um desejo de longa data”, admite o autor.
Últimas sessões da temporada de estreia
A Voz da Ninfa
Dias 13, 14 e 15, às 19h30 e 21h30
Cemitério da Santa Casa – Av. Professor Oscar Pereira, 423
Ficha técnica:
Autoria e direção geral: Chico Marshall
Assistência de direção: Júlio Conte
Personagens e atrizes:
Ninfa 1, Vida: Victoria Carnelli
Ninfa 2, Vigorosa: Denizeli Cardoso
Caronta, a condutora: Paulina Nólibos
Fantasma do pai de Hamlet e do patriarcado: Laura Medina
Performance complementar:
Música, sob direção de Vagner Cunha
Participação de Heloísa Marshall, com Ana Carla Silva
Projeções: Jana Castoldi
Coreografia: Thaís Petzhold
Produção: StudioClio Itinerante
