LITERATURA

Das questões coletivas

O livro 'A rebelião das Mães', de Ulises Gorini, foi apresentado esta semana na Feira do Livro de Porto Alegre

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Thomas Vieira e Ulises Gorini | Crédito: Fabián Restivo

A tarde de 14 de outubro de 2022 oferecia um clima realmente agradável para passear pela cidade, então o historiador brasileiro Charles Sidarta Machado Domingo ficou feliz por poder fazer o que mais gosta quando chega a Buenos Aires: visitar livrarias. Foi assim que ele encontrou A rebelião das Mães , o livro de Ulises Gorini. Charles Sidarta é um fervoroso interessado pela história contemporânea argentina e “o que me fascinou no livro é o fio condutor e a quantidade de fontes primárias da época, os depoimentos, além dos recortes de imprensa de todo o mundo. É um livro diferente por ser interessante e emocionante. Ulises emociona com sua maneira de escrever”.

Naquele mesmo mês de outubro, Thomas Vieira percorria meio continente em busca de títulos para traduzir e editar no Brasil. Thomas tem uma editora e uma ideia obstinada: levar autores latino-americanos para o Brasil porque “é preciso insistir em superar a barreira linguística. Isso faz parte da questão cultural”. De fato, seu espírito fervoroso por essa causa já o levou a publicar Stella Calloni e Osvaldo Bayer, entre outros. Essa ideia é tão obstinada quanto o nome de sua editora: Editora Coragem.

A história da Argentina persegue Ulises desde sempre. Nascido em 17 de outubro de 1955, com o golpe de Estado. Filho de Floreal, um líder sindical, preso por causa de uma greve em 1959, de onde “guardo minha primeira lembrança de infância, que na verdade foram duas. A primeira, ainda viva na memória, é quando fui com minha mãe visitar meu pai na prisão. Minha mãe levava milanesas e eu as comia. A segunda é minha mãe chorando. Estávamos do lado de fora porque tinham avisado que ele seria solto. Naquele momento, apareceu um homem de terno e chapéu e eu me joguei em seus braços. E não era meu pai. Nunca apaguei essa impressão”.

A investigação de Ulises Gorini é considerada a mais completa e minuciosa sobre a luta pela dignidade, verdade e justiça empreendida pelas Mães da Praça de Maio | Crédito: Foto: Rafa Dotti

Floreal se tornaria mais tarde deputado do Partido Comunista, o que lhe rendeu não ter uma âncora no bairro, pois “morei em mil lugares, Citi Bell, Villa Ballester, Belgrano, Villa Crespo… sempre seguindo os passos do meu pai, que tentava estar sempre um passo à frente da polícia”.

Charles Sidarta Machado Domingo chegou a Porto Alegre e colocou A rebelião das Mães sobre a mesa de Vieira com um tom perentório: “Eu li. Este livro tem que ser um título da Coragem”. A primeira coisa que Thomas viu foi o volume do livro e, em meio ao calor sufocante daquele novembro, pegou o livro, pesou-o e tentou calcular o custo. Olhou para o seu amigo entusiasmado e disse: “Vou ler e depois vemos…”. A Editora Coragem tem até hoje cerca de quarenta títulos, “mas está em crescimento e isso só é possível quando o custo se aproxima das possibilidades de venda, e o livro é lindo e de um valor histórico fundamental, mas também é realmente muito grande”, diz hoje entre risos.

A história que une Ulises Gorini às Mães da Praça de Maio começa com uma entrevista a Hebe de Bonafini, “que tem duas etapas. Naquela época, Hebe já era uma figura impactante, poderosa, e eu só tinha um número de telefone, então liguei e perguntei por ela, e ela disse: ‘Sou eu, o que você quer?’, e lá fui eu fazer a entrevista. Lembro-me claramente de subir as escadas daquela casa muito antiga. Aquilo era um templo. Era impressionante”. Quando terminaram, Ulises agradeceu a Hebe, ao que ela respondeu: “Não precisa agradecer. A militância não se agradece”. Hoje, Gorini sorri com carinho pela sua história, porque “em um segundo, aprendi sobre o valor e a coragem”. E isso selou uma certeza.

Ulises Gorini é professor titular da Cátedra Universitária Historia de las Madres de Plaza de Mayo – Foto: Rafa Dotti

Era a década de 1980. Os testemunhos proliferavam, mas “eu achava que era preciso ir além do testemunho”. Ulisses fala devagar, procurando delicadamente o momento histórico em sua cabeça: “era preciso fazer uma análise do sentido que emergia de todas essas histórias, que não era apenas a soma dessas histórias. Foi então que percebi que estudar isso poderia dar outro sentido a essas mesmas histórias. Eu era advogado e não poderia fazer isso sozinho, então procurei o apoio de amigos escritores. Osvaldo Bayer me ajudou muito, foi um dos meus mestres nisso. Por isso, depois, ele escreveu o prefácio do livro”. Finalmente, entre vários, Gorini escreveu o livro com a felicidade de “me formar em uma ação coletiva enquanto criava uma ideia”.

Naquele mês de março, fazia tanto calor em Porto Alegre que até os pássaros cantavam sem entusiasmo, mas mesmo assim Thomas Vieira ligou para Charles para falar sobre o livro, enquanto tomavam uma cerveja, porque “Charles tinha insistido muito e me convenceu, então agora ele tinha que saber qual era o problema”. Eu já tinha decidido que sim, mas é uma tradução longa e já tinha encomendado, entre outros, a tradução de um livro de Roberto Arlt e dois livros de Atahualpa Yupanqui. Estávamos com poucos recursos, mas eu já estava entusiasmado. Charles foi muito insistente e o livro é muito bom”.

Thomas é um jovem simpático e querido. Seus leitores apoiam e respeitam seu trabalho e, com base nisso, ele teve uma ideia que, se funcionasse, funcionaria, então “era preciso passar o chapéu” e lançou uma campanha de arrecadação. “Às vezes, para ajudar a financiar a pré-venda. Este não era o caso. O livro é muito grande e poderíamos não atingir os números. Então, decidi que a realização ou não seria resultado de uma ação coletiva”.

Agora estava acontecendo o resultado de uma série de ações coletivas. O livro A rebelião das Mães foi apresentado esta semana na impressionante Feira do Livro de Porto Alegre, onde Ulises Gorini contou o processo para um público ávido por perguntas, enquanto Thomas respirava aliviado e Charles sorria apoiado em uma coluna de mármore do salão do Clube do Comércio, onde são apresentados os livros importantes.

Editado por: Vivian Virissimo
Conteúdo originalmente publicado em: Página 12

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